terça-feira, 6 de setembro de 2011

atuais objetivos padrão: contradições de uma vida "melhor"

«Acostumamo-nos a morar em apartamentos e a não ter outra vista que não a das janelas ao redor. E, porque não temos vista, rapidamente nos acostumamos a não olhar para fora. E, porque não abrimos as cortinas, rapidamente nos acostumamos a acender mais cedo a luz. E, à medida que nos acostumamos, esquecemos o sol e o ar - e esquece-se a amplidão.
Acostumamo-nos a acordar de manhã sobressaltados porque está na hora. A tomar o pequeno almoço a correr porque estamos atrasados. A comer sandes porque não dá tempo para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A deitar cedo e dormir sem ter vivido a vida.
Acostumamo-nos a ver o telejornal e a saber sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceitamos os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, não acreditamos nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceitamos ter, todos os dias, o dia-a-dia da guerra, dos números de longa duração.
Acostumamo-nos a esperar o dia inteiro e ler no telemóvel: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorados quando precisamos tanto de ser vistos.
Acostumamo-nos a pagar por tudo o que desejamos e o que necessitamos. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisamos. E a fazer fila para pagarmos. E a pagar mais do que as coisas valem. E saber que cada vez pagaremos mais. E a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
Acostumamo-nos à poluição. À sala fechada com ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios.
Acostumamo-nos a não ouvir passarinhos, a não haver galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta à mão, a não ter sequer uma planta.
Acostumamo-nos a coisas de mais, para não sofrermos. Em doses pequenas, tentando não nos apercebermos, vamos afastando uma dor daqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada, molhamos só os pés e suamos no resto do corpo, conformados. Se o trabalho está duro, consolamo-nos ao pensar no fim de semana. E, se no fim da semana não há muito para fazer, vamos dormir cedo e ficamos satisfeitos, porque, afinal, estamos sempre com o sono atrasado.
Acostumamo-nos a não ter que nos esfregar na aspereza, para preservar a pele. Acostumamo-nos a evitar feridas, derrames, ao nos esquivarmos da faca e da baioneta, para poupar o peito.
Acostumamo-nos para poupar a vida - que aos poucos se gasta, e que se gasta tanto em nos acostumarmos que se perde em si mesma!»

4 comentários:

Cota disse...

Brutalíssimo...

Paro as vezes a pensar no mesmo, no que se perde em não ter oportunidade de viver a vida... Nos dias perdidos a pensar na precariedade, no estado do mundo que é uma marioneta dos poderosos... No estado alheio em que vivemos, dia-a-dia, ano após ano...

De como cada vez menos somos livres, pah que texto xD

Cármen disse...

Cota: As oportunidades estão lá, nós é que não as vemos, de tão blindados que estamos com o dinheiro e os esquemas capitalistas.

Cota disse...

Pessoalmente não sou muito capitalista muito menos materialista, mas é complicado ter uma vida tão cheia de barreiras e limitações económicas.

Por outro lado, dá sempre para ir vivendo, dedicando tempo a quem gosta de nós e a nós mesmos, ao invés de dedicar tempo ao imaginário e ao virtual xD

Cármen disse...

Cota: Ser capitalista implica ser materialista, afinal o capital é material.
É difícil virar o jogo, especialmente porque há demasiadas consciências submersas; mas estes pequenos detalhes fazem a diferença, e a felicidade.