quinta-feira, 14 de abril de 2011

2. Carta à tua paixoneta

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

Estou tão cansada de ti.
Cansada de só conseguir dormir contigo e de precisar de dormir todas as noites. Não compreendes por que tento cansar-me ao máximo antes de ir para a cama? Faz com que te evite.
O que mais me cansa em ti é tu não pertenceres a uma única pessoa, mas sim a várias.
Fazes com que eu me canse tanto contigo que não consiga deixar o Amor infiltrar-se em mim.
Porque todas as noites... todas as noites tu o substituis e fazes-me sentir um grande cepticismo em relação a ele. Preenches-me de mais.
E o que me custa mais é que também tu gostas de variar. É isso que me cansa mais em ti.
Fazes-me saciar todos os meus desejos sexuais e viver um grande amor com cada pessoa, porque as atrais até mim.
Fazes-me viver toda uma vida amorosa e depois acaba-la. Fazes com que repare numa pessoa em particular e focas-me nela. Fazes com que ela me conheça lentamente e nos apaixonemos.
Fazes com que ela esteja nervosa quando se aproxima de mim.
E ela aproxima-se.
Ela aproxima-se e toca-me na mão, e as nossas respirações tornam-se uma só, presas a um íman transparente que nos une. E ela aproxima-se. E ambos miramos os rostos um do outro, enquanto um de nós toca a face do outro. Os nossos narizes abraçam-se e as nossas pálpebras rendem-se à força gravitacional de Júpiter. Finalmente, os nossos lábios tocam-se suavemente e ambos ficamos surpresos com o que se está a suceder. Apenas então o interruptor da chama é pressionado e ambos contraímos os nossos corpos um contra o outro, no ardor do que é amar. Os meus braços procuram fugazmente uma posição para proteger os seus braços, as suas costas, os seus ombros, a sua cabeça; enquanto que os outros se preocupam em comprimir-me contra o seu umbigo, pressionando as minhas costas.
E sorri, tímida, tal como eu o faço durante as próximas vezes que os nossos olhos se cruzam pelo espaço - pois o sentimento que nos une é já tão enraizado e antigo que não nos é possível contrariá-lo. Só nas tentativas seguintes de um aniquilamento da desconfortável timidez é que conseguimos reconhecer um compromisso, sem alguma vez ser preciso assumi-lo claramente:
- Amo-te.
E, graças a ti, juntos vivemos o sonho de ter um companheiro a nosso lado, que nos respeita e provoca, que nos acalma e nos acende, que é fruto da sinceridade.
Mas não é mais do que isso.
Um sonho.
Não é mais do que isso, porque, depois de saciadas, nos abandonamos. Tu apresentas-me outra pessoa em particular e o mesmo sonho repete-se.
E, desta forma, não chego a amar ninguém.
E, por tua culpa, Paixoneta, consigo ter tantos amantes por ano quantos os que quiseres e não sinto a necessidade de amar na prática.
Para quê, se tu me satisfazes o desejo e a auto-confiança me satisfaz a segurança?
O Amor que, se quiser, reclame contigo.

13 comentários:

Pedro Miguel disse...

Compreendo onde queres chegar. :)
Mas, já passou.

Andreia André disse...

Adorei todo o post! e aquele "amo-te" colorido..é qualquer coisa de fenomenal =)

Cármen disse...

Andreia André: Eu tinha a certeza de que tu irias adorar aquele amo-te! :D Tem tanto a ver contigo, expressar as palavras pela cor. :)

S. disse...

Este post fez-me suster a respiração. Está absolutmanente fantástico.
Parece que tens uma paixão por alguém estilo Fernando Pessoa...

Cármen disse...

S.: É engraçado! O Rui, aquele meu amigo cujas conversas provocadoras te mostrei no outro dia, diz-me igualmente que eu hei-de gostar imenso de Pessoa, quando o estudar! :D
Bem, não sei, porque nunca o estudei.
E acredita que não foste a única a ficar assim por causa da entrada. Admito ter sido a entrada mais difícil de fazer, acho, porque nela confesso algo que... pelo menos, creio eu, aparentemente não é algo que os outros esperem que venha da minha parte. Vai de encontro às coisas que sempre defendo, de amor pela calma, pelo conhecimento e pela maturidade... não é algo de me orgulhe. Mas acontece-me.

S. disse...

Epah, estudar Pessoa é do melhor que há! :D

Eu acho que é bom escreveres assim. Ou então estou só a ser egoísta porque adoro o que escreves *_* lol

S. disse...

Agora inspirei-me por tua causa xD LOL (não só mas também...)

Cármen disse...

S.: Não acho que seja egoísmo gostar mais dum tipo específico de escrita do que doutros. :)

Olhar Artistico - Sara S. disse...

Adorei o teu post!! :D

está bue Perfeito!!!!

Parabens!!

Cármen disse...

Olhar Artistico - Sara S.: Obrigada, Sara. É bom saber. Mas acho que não estás a ser bem rigorosa no que toca à perfeição. :)

Cota disse...

Este faz-me lembrar um pots meu...
Mas este está "mui" melhor

Cármen disse...

Cota: Qual? :)

Cota disse...

Este

http://cronicasdeumcota.blogspot.com/2010/12/vou-voltar.html