sábado, 23 de outubro de 2010

obediência cega

POETA: Você não tem medo de si?
2.º AMIGO (Prontamente): Não.
POETA (Para o 1.º AMIGO): E você?
1.º AMIGO: (Reflecte um momento, de olhos erguidos, diz calmo): Não. Creio que não.
POETA (Pausa): São felizes. Se estão convencidos disso, são felizes. Talvez não queiram saber se estão convencidos. E são felizes também. Pelo menos estão salvos. (...)
1.º AMIGO: Quando estudava no liceu, só discutia uma vez as fórmulas matemáticas. Depois, era assunto arrumado. Servia-me delas, não hesitava. Se as demonstrávamos outra vez, era só para sabermos todos que não havia razão para hesitar. Mas você gosta de hesitar. (...) Ter um pé no céu e outro no inferno.
POETA (Recostando-se de novo): É isso. São homens de acção. Não entendem. (...) A acção endureceu-os. Cada acto é um bloco de cimento. Está ali, presente, definitivo, como uma punhalada. Ninguém pode remediá-lo. (Para o 1.º AMIGO): Eu penso, hem? Penso. Discuto comigo. Vejo prós e contras, verdades inteiras e meias-verdades. Eu. Tenho medo de agir, sim. Mas sou herói por isso. E humano. Toda a ideia é discutível. Mais ou menos discutível. (...) Penso em você. (...) Porque você há-de ter dúvidas, há-de sofrer. (...)
1.º AMIGO (Para o POETA): Entendo-o. A gente entende-o. Todos duvidámos para compreender bem. Simplesmente, porque se espera depois? Não há um problema de razão. Há é um problema de renúncia. De coragem.
POETA: De renúncia, hem? De coragem? Coragem é confessar a limitação na praça pública. Cobarde é você: esmaga-se e obedece.
1.º AMIGO: E obedeço. Exacto.
POETA: Em nome de quê?
1.º AMIGO: Não sei bem, poeta amigo. (...)
POETA: (Pausa) Você obedece. É isso. Custa-lhe assumir pessoalmente a responsabilidade do que faz e pensa. Tem os princípios. São cómodos os princípios. O custoso, em todo o acto estúpido, é arranjar princípios que o justifiquem. Primeiro, inventar o Deus e dar-lhe pulso livre. O resto é fácil. Não quero. O meu Deus sou eu.

Vergílio Ferreira; Redenção

2 comentários:

Sílvia disse...

Adorei. E não consigo dizer mais nada porque o texto deixou-me sem palavras...

Cármen disse...

Sílvia: :D Eu pensei em ti quando transcrevi este excerto. Lembrei-me daquela entrada que fizeste em espanhol, retirada dum filme, acho.