domingo, 8 de janeiro de 2012

A Filha do Rei II

Em continuação d'A filha do Rei I.

    Não. Constança não era assim. Constança achava que a janela através da qual tinha vista para a origem da vida era a moldura mais bela que alguém poderia ostentar e, por isso, orgulhava-se em tê-la no seu quarto, a um metro da sua cama. Era-lhe sempre agradável não seguir os conselhos de Haleema, a aia de quem era mais próxima, e dormir de janela aberta. Quando a vinham chamar para a acordarem, já os galos tinham ajudado o vento a acordar Constança. Aquela brisa sempre fresca no seu rosto fazia-a inspirar fundo assim que abria os olhos e encarava um Sol tímido por detrás do habitual nevoeiro. Imediatamente, libertava um pequeno sorriso e esticava os braços, de punhos fechados, salientando o seu peito, como que numa exibição de recompensa à Natureza pelo bem estar provocado. De seguida, levantava o tronco e ficava, naquela tranquilidade matinal, a observar o mais real quadro que alguma vez tinha visto, deixando que a pureza dos campos a fortalecessem. Por vezes, ficava a ver os tecidos da sua cama de dossel voarem em coreografias místicas, em tons de azul, cinzento e branco.
     Acordar tão cedo quanto o Sol é que não era duma princesa, por isso sempre esticava os cobertores da cama, vestia uma capa quente, puxava o cabelo para o lado, saía do quarto, fechava cuidadosamente a porta de madeira e descia, sorrateiramente, a escadaria de pedra, para que não se apercebessem de estar a tomar a iniciativa de fazer o que uma pessoa ordinária faria, não tendo o seu estatuto. Constança achava que a única coisa extraordinária ali era a porcaria do estatuto, que lhe fora conferido sem ela ter responsabilidade de tal. Por isso, agia consoante o que queria e desejava, tanto às claras, como às escondidas. Ao chegar a cada piso de baixo tinha de se esconder e potencializar a sua audição e a sua visão, a fim de encontrar algum guarda sonolento que rondasse o castelo, mandado pela mãe, à procura da rebeldia da filha. Dulce chegara a ordenar a um guarda que ficasse de plantão no exterior da porta do quarto da filha, mas este, ao segurar Constança, levara um murro na cara, que lhe partira dois dentes da frente, e uma forte joelhada na zona sensível. D.ª Dulce Berenguer de Barcelona, como assim era chamada a mulher que lhe tinha dado a vida, mas não o leite, chegou a discutir consigo, mas sentiu-se mais intimidada do que a filha, que lhe apontou o indicador e jurou não deixar que a inibissem a esse ponto.
     Ao chegar ao rés-do-chão, caminhava apressadamente para a porta da cozinha, no fundo da divisão. As cozinheiras sentiam-se embaraçadas, largavam prontamente tudo o que tinham nas mãos, fechavam-nas no colo e baixavam as cabeças. Inicialmente, Constança tentava deixá-las mais à vontade, mas ao ver que eram as próprias criadas que persistiam em se autodiscriminar, não lhes dava importância e seguia o seu caminho, pela porta das traseiras. Aí, sentava-se no degrau que havia antes de pisar a terra relvada e contemplava o trabalho dos humildes senhores que só não estavam no seu lugar pelo azar de terem nascido das mulheres erradas, que lhes tinham dado a vida e o leite. Um moço, de calças arregaçadas e roupas encardidas pelo tempo, logo aparecia, com um balde com água. Era Martim, o filho do padeiro, e sempre lhe tinham encarregue o transporte dos alimentos. Tinham-se conhecido numa das vezes em que Constança agredira Afonso, por este ridicularizar os agricultores. Martim estava a par dos rumores e do pânico que a filha do Rei causava e ficava curioso de a ver. Constança tinha sido puxada pelo braço até à cozinha por uma das aias, que a repreendeu por agir como uma vândala. Assim que a aia saiu, Constança deitou-lhe a língua de fora e cruzou os braços, só os tendo descruzado para ir ter com Martim, escondido fora da porta, que a chamou e lhe disse que ela era um máximo. Desde então, tornaram-se grandes cúmplices e criaram um laço muito forte e um dos mais raros da Corte, a que Constança chamava de verdadeira amizade. E ali estava ele, sempre disposto a trazer-lhe a água que Constança agradeceria com um sorriso e um piscar do olho direito e levaria para o seu quarto, onde se lavaria e vestiria um dos seus vestidos.

7 comentários:

H. Santos disse...

És perfeita em tudo que fazes , adoro xD @@@

Cármen disse...

H. Santos: Então mas não ias ler enquanto não estivesse terminado! :O

H. Santos disse...

Vim só ver um bocado xD

Olinda P. Gil © disse...

Gostei mt da 2ª parte. Escolheste mt bem os nomes das personagens. Esperamos ver mais

Cármen disse...

Olinda P. Gil ©: Muito obrigada! :D

Invisível disse...

Eu tive deviantart durante uns 3/4 anos há já uns anos atrás, nunca pensei em voltar, muito menos com fotografia, mas até é capaz de ser boa ideia.
Vou considerar a tua sugestão como um elogio e dizer obrigada :D

Olinda P. Gil © disse...

Este blog foi destacado como blog escritor 2011. Aqui: http://acasadoalfaiate.blogspot.com/2012/01/casa-do-alfaiate-escolhe-os-blogs.html