domingo, 13 de novembro de 2011

26. Carta a alguém que te inspira

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

Olá, professor.
Talvez ache estranhas as palavras que escrevo, ou melhor: o facto de as escrever. Ou talvez mesmo até não, devido à sua capacidade para compreender as pessoas, por mais reservadas que sejam.
Não é meu intuito mostrar aqui os meus "dotes" literários, apenas considerei importante que tenha (re)conhecimento de algumas coisas. Algumas pessoas merecem-no e o professor é, de facto, uma delas.
É-o porque conseguiu ser mais do que um professor: conseguiu ser um bom amigo. Bom, porque conseguiu fazer-nos "acordar" para fatores importantes que muitos de nós ignorava inconscientemente, e amigo porque se preocupou connosco e insistiu em fazê-lo, não tendo sido obrigado a tal.
Hoje, quase dois anos depois de ter sido lecionada por si, vejo várias diferenças - não só em mim própria como também nos restantes membros da turma. Parece-me quase incrível que pessoas outrora tão fúteis, despreocupadas com os problemas que os envolvem, sentimentais, muito influenciáveis e interesseiras (no sentido egoísta da palavra) se mostrem hoje indignadas com a futilidade e a despreocupação dos outros e, recusando-se a aceitar o que não acham correto e reivindicando os direitos que têm, lutem contra o desrespeito. Se, por um lado, é verdade que os adolescentes estão em constante mutação e por isso não é tão surpreendente quanto isso que evoluam, por outro lado, não é muito comum que um adolescente evolua tanto em tão pouco tempo. Mais verdade do que isto é que, apesar de terem sido condicionados por vários fatores, quer internos quer externos, eles foram imensamente condicionados por si. Por isso, se hoje são tão conscientes (sendo isso algo extremamente importante), devem-no imensamente a si, estando-lhe muito gratos, como já o declararam (não tanto com o seu conhecimento, tanto quanto sei) várias vezes.
Bem, parece que falo deles como se eu já estivesse muito bem e eles é que estavam mal e ficaram bem... Não. Mas isso talvez também o professor já saiba... embora me tenha espantado como é que um professor de Filosofia me dá aulas durante mais dum ano e fica surpreendido por saber que a minha ambição... digamos, mais material é ser professora da mesma disciplina, um dia. Aliás! O que me espanta mesmo mais é que fique surpreendido por eu sequer gostar de filosofia! Eu sempre achei que isso era algo um pouco óbvio e... creio que qualquer outro professor meu não duvidasse disso. Até o meu professor de LP do 9.º me dizia já que eu iria ser professora de LP ou de Filosofia, nunca me tendo ouvido nem lido propriamente a filosofar... Mas estou a desviar-me imenso do assunto. O que eu queria dizer é que me sinto na obrigação de lhe agradecer pelo impacto que teve em mim. Por mais que o professor diga que não tenho de agradecer por coisa alguma, eu acredito que tenho. Não é de menosprezar o ato de alguém insistir tanto em querer ajudar-me (não só academicamente, como também com os problemas familiares e enquanto pessoa) ao ponto de exigir, pelo menos aparentemente, que eu tome atitudes, ainda por cima quando isso são problemáticas que não lhe dizem respeito. Tudo em troca de quê? Bem, a mim parece-me que apenas o facto de saber que contribuiu para o progresso positivo de algo o satisfaz, o que é mais louvável ainda, por agir sem esperar ser recompensado de outra forma. Nem eu imaginei vez alguma que conviver com alguém pudesse ser tão benéfico nem que conseguisse eu evoluir tanto num espaço de tempo tão curto, de tal modo a que até que pessoas que me estimam mas que não o conhecem queiram agradecer-lhe e simpatizem consigo, pelo bem que me fez, como é o caso duma íntima minha, a Diana, que frequentemente me pede para lhe mandar cumprimentos e que agora lhe deseja o melhor.
Um homem com um impacto tão profundo e tão positivo é mesmo muito louvável, a meu ver. E é por isto que o admiro tanto. Admiro-o, aliás, não apenas por estas particularidades, mas por estas se conjugarem com outras tantas que mostrou ser, como é o caso da coragem, da sinceridade, da justiça e da autonomia. Não é qualquer um que toma as decisões que o professor já tomou anteriormente e da forma como as tomou - e mesmo que fosse! Não deixaria de ser louvável por isso. E, quando falo da forma como as tomou, falo de deliberação. As ações justas são mais belas quando são deliberadas, a meu ver, devido à liberdade a que o sujeito se submete durante a deliberação e pela certeza que isso confere à decisão final. Mas não me adiante talvez por aí, não é esse o meu intuito principal.
Pela pessoa que é, pelas ações que fez e pela forma como as fez, o professor merece mesmo muito que o futuro lhe corra pelo melhor, na minha opinião, que tem vindo a exprimir, ao longo desta carta, o que penso sinceramente. Desejo-lhe, para já, que consiga concluir a tão trabalhosa tese e que ter-nos deixado tenha valido, de facto, a pena (é um pouco contraditório que eu deseje tanto que consiga fazer isso e depois lhe envie um e-mail tão extenso, mas... enfim), porque se há alguém que mereça reconhecimento pelo seu empenho e pela sua dedicação não só às pessoas como também ao trabalho, essa pessoa é certamente o professor.
Assim, despeço-me, desejando-lhe, uma vez mais, que tudo que lhe corra pelo melhor e que consiga realizar todos os seus objetivos, que acredito que sejam justos e honestos. Desejo ainda que, um dia, nos reencontremos e que nessa altura já tenha deixado de fumar. Talvez sejamos colegas, um dia.

Respeitosamente,
a ex-aluna que o considerava excêntrico nos primeiros meses em que teve aulas consigo.

2 comentários:

H. Santos disse...

Excelente homenagem... Quem trabalha bem e com amor pelo que faz, merece o maior reconhecimento possível. ;)

Cármen disse...

H. Santos: É verdade. E este senhor deu tanto de si na tarefa de amadurecer os seus alunos... e torná-los em futuros bons cidadãos. É exemplar.