sexta-feira, 1 de julho de 2011

nos braços de alguém maior

A vida passava-lhe por entre a mãos, sem que se apercebesse do tempo ou do espaço. Sofria golpes profundos, mas não se apercebia de aquilo ser dor. Era todo um mundo novo que descobria. Com ninguém falava, ninguém a ouvia. Os seus olhos eram a principal fonte de extração de matéria, porque desvendava o que a rodeava duma forma surpreendentemente visual. Os outros gritavam, corriam, sorriam, choravam... mas ela permanecia quieta, desconhecendo o que a rodeava, interessando-se por terminar os mistérios que tanto a fascinavam.
O seu reflexo no espelho era uma diversidade de cores que a transportavam para uma nova dimensão. Dentro da sua cabeça, milhares de pensamentos radiavam e se transmitiam como feitiços lançados de varinha em varinha, quais impulsos eléctricos inevitáveis. Aproximava-se e, de olhos esbugalhados, tocava a imagem de uma criança pequena, com aspecto rechonchudo e longos, grossos cabelos.
De mala às costas, os outros gritavam e corriam. Tinha-se acostumado àquele sentimento que lhe apertava o coração e lhe refrescava e salgava o rosto, molhando o vestido que a avó tinha engomado com tanto carinho. E tinha medo de se aproximar dos outros, que gritavam e corriam de mala às costas. Como devia ser bom ser apertada por entre os braços de alguém maior do que ela, que lhe sorri por a ver!
Finalmente, a sua vez.
Larga tudo o que tem nas mãos, corre para os portões verdes que a protegiam do exterior.
- Mãe!, exclamou, feliz. Que agradável surpresa, desta vez a sua única companhia para almoço não será a solidão.
- Mãe?
Os outros, de malas às costas, gritavam e corriam.
- Mãe!
Mais, e mais, e mais. Apertados nos braços de alguém maior, sorrindo-lhes por os verem.
- Eu quero a minha mãe! Mãe!
Deixem-na. Soltem as correntes.
- Mãe!, berra. Mãe!
Lembra-se apenas de chorar compulsivamente. A agonia comprimia-lhe o sonho. Apertada nos braços de alguém maior, ninguém sorria por a ver. Queriam apenas saber porquê tanto alvoroço. Talvez fosse febre.
- A minha mãe desapareceu!
Ou talvez mais do que isso.

2 comentários:

Cota disse...

Dos textos com mais sentimento que li.
Roubaste-me as palavras, muito grande tu , muito grande =)

Cármen disse...

Cota: O truque é ser realista nas descrições e manter a estrutura psicadélica do surrealismo. :)