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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Nuvem de Pó

     O nevoeiro cobria-me o corpo, humedecendo os desalinhados caracóis negros que esvoaçavam levemente, tropeçando, preguiçosos, nos meus ombros envoltos de azul. Na minha frente, mergulhava o azul sobre a verde terra, deixando uma neblina lilás acima, mais leve e dissipada. Os meus olhos limitavam-se a fitar as partículas douradas que pareciam emanar de todas as pequenas coisas, flutuando até às nuvens.
     Tinha ficado horas a ocupar o lugar de espetadora, a assistir àquele musical feito dos mais intrínsecos elementos, aqueles que não partiram de nós, mas que foram nosso berço. Foram, também, palco de tantas explosões de raiva e cinzas, que não foram expelidas por nenhum vulcão. Foi, sim, o ser humano que se achou dono de quem o sustentava, talvez por assim o fazer e, por isso, transparecer uma certa dependência, de quem suplica misericórdia, em troca de uma vida devota. É a tendência do Homem em ser conceituado assim que não necessita da humildade, nem do afeto dos demais. Perde o espírito crítico e julga-se no direito de criticar tudo o que o rodeia e até mesmo o que inventa, por assim convir, sem nunca detetar a infelicidade que o poder subjaz.
     Assim tinha decidido ficar, quando a queda duma velha árvore instável resolveu tirar-me o sono e lembrar-me de que, àquela hora, poderia ter o privilégio de apreciar o que sou, o que me fez e o que tentam impotentemente destruir. Por entre o bosque penetrei, e os avisos das corujas aconselharam-me de não ser má ideia caminhar pela orla da floresta. A um quilómetro dali, avistava-se uma cabana com aspeto velho. Receando incomodar ou ser incomodada, desviei-me daquela planície e subi a um monte que ficava na sua retaguarda, bem ao lado, afinal, do bosque. Dali, via-se todo o vale, estendido a meus pés, qual maré baixa numa praia desabitada.
     Sentei-me. O vento soprava de longe, cansado, como quem, não aguentando, corre esporádica e pausadamente. As minhas mãos, na terra molhada, estavam apenas ligeiramente mais frias do que o meu rosto. Tinha os lábios gretados e feridas no peito, vestígios de uma juventude que esmorecia. Transportava comigo um cansaço, não um físico, mas um cansaço de viver, não pela quantidade, mas pela qualidade. Muito trabalho de homem tinha feito, e muita consideração de animal me tinham dado. E ali me achava, repousada e desprotegida, como uma menina inocente.
     Deixei-me cair para trás. De nada adiantava chatear-me, preocupar-me ou problematizar. No final, é tudo isto que somos: turistas. No final, sobra isto apenas: um corpo ferido e descurado que a brisa refresca.
     Compreendi, então, por que os galos me haviam acordado aquela manhã. Tudo o que eu precisava era aquele momento, de união com a terra, em comunhão com o ar: senti-la em mim e sentir-me nele, qual nuvem concreta. Era aquilo, saber viver: deixar os problemas, criados por entretenimento, e agir de acordo com o misticismo do amanhã. Eu nunca levarei os meus problemas comigo, por isso, aqui, nestas plantas suaves, deixo todo o passado, em troca do presente. Era isto, a vida.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Personagens de uma Paixão Platónica

Conteúdo para Adultos


    A pele morena que me encanta, os carnudos lábios que me seduzem. As suas mãos nas minhas costas, descendo gentilmente, apertando-me contra o corpo que me consome. As minhas na sua nuca, aceitando, entregando, retribuindo o desejo de querer, de tocar, de fazer. Em volúpia desatenta, mas concentrada - entre dar e receber, num afastamento intencionalmente falso, num aproximar de respirações ofegantes que definem dois corpos suados. A pressão entre desejos, a divergência convergida, convergente, ardente. A força entre um e outro, que do empenho de ambos parte, a não desistência, a resistência, a incomplacência. O amar, o querer, o rasgar, o ter, o prazer!
     Lá fora, harpas cantam, pianos suspiram. A brisa morna, soprando das árvores, sussurra aos ouvidos canções de embalar, mais frescas do que os corpos, que vibram, alargando, massajados.
   O repousar da fé em mútuo olhos, espiritualmente trocados. O tocar de peles que se conhecem e não se cansam uma da outra. O saltar de um peito que parece nunca se habituar ao explorado, sendo sempre perdurado. O sentir pequenos e ásperos pêlos caraterísticos na ponta dos delicados dedos de seda. A fusão entre braços por abraços. Os passos das aves, irradiantes de calor que descontrai e quebra a tensão muscular. Os frágeis dentes de leão que voam no azul meio: azul de carícia, de mimo, de ternura. O vento que passa e os cabelos que dançam. Os narizes que trocam pequenas e cuidadosas impressões, como tímidos amantes que se entregam por dedicação, cujos rostos aquecem, um colorindo-se, o outro observando-o.
     A cabeça que se encaixa no ombro, o braço que segura o tronco e os dedos que se enlaçam. A paz, devota.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pedaços de Memória que o Tempo Dissipou


     Ariana sentava-se entre as folhas que jaziam a seus pés, vivas e cansadas das viagens que faziam, quais pássaros guiados pelo vento. Estas folhas, que traziam mensagens de nostalgia, faziam-na perguntar-se a si mesma se valeria realmente a pena esperar tanto por algo que nem conhece, mas que sabe existir, porque o sente.
     A madeira humedecida que suportava os seus pensamentos dava-lhe o conforto necessário para falar à maresia dançante que coadjuvava a expansão do seu cabelo pelo ar, em movimentos ondulantes e surrealmente apaixonantes. A água salgada que não conseguia tocar beijava-a silenciosamente, tranquilizando os seus medos mais ferozes e libertando as pequenas mágoas que a sua esperança ia formando, à medida que provava a sua determinação em ser feliz, num mundo feliz.
     Ao longe, ouvia os sinos e os tambores, marcando o ritmo das vidas de todos os que não os mandavam tocar. Deste cais, era-lhe possível escutar com atenção o que estes sinais cantavam, e não meramente ouvir. Se pudessem ler as lufadas por de trás daquele sorriso calmo e ligeiro, veriam, em vez de simpatia, conspiração. Isso nunca tinha acontecido antes, porque ninguém se importa com o que alguém que não toca pensa ou sente, porque serão sempre meros pensamentos abstratos, dada a impossibilidade de ação. Limitações a que Ariana assistia passivamente, não obstante o brechtianismo interior que estava na base da força e da coragem que faziam de si uma mulher excecionalmente bondosa. E perigosamente contestatária.
     Mais perto, ouviu o seu nome ser aclamado por entre as encenações de vidas consideradas normais, à sua direita. De olhos arregalados e boca ligeiramente aberta, devido à constipação que refletir lhe provocara, virou o seu rosto, para compreender o que se passara. O seu cabelo esvoaçou de surpresa para o lado contrário e exibiu a magnitude de uma mulher esbelta e simples.
     E nunca acontecerá.

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domingo, 8 de abril de 2012

Assim eu pudera...

Estrelas brilhantes, caídas do céu,
Pousam nos meus olhos, fazendo-me réu.
Escrava da azul neve, nas pálpebras o Mundo
Se quebra, pestanejando, pedaços de segundo.

Pudera eu, Mãe Natureza, tua filha não ser,
Para em surreal rosa o meu toque te envolver
E, sem promiscuidade, me declarar amante
Desse teu orgulhoso cabelo de diamante!

Pudera eu, Mãe Natureza... Eu, assim, queria
Cheirar-te o rosto, maquilhado de alegria,
Morder-te o nariz, soprar-te ao pescoço,
Fazer-te sentir o meu próprio alvoroço.

Assim eu quisera, Mãe Natureza,
Amar-te a ti, pela tua singular beleza,
Envolver o teu perdão e esquecer a tua vingança
Pelos ventos dos quais sou responsável de mudança.

Assim eu pudera...

sexta-feira, 30 de março de 2012

"Ma vie s'anime dans ton sourire"


    O relvado de lã que cobre as minhas costas conforta-me, dissipando as únicas dores que costumo ter, desde que abro a janela ao Sol. Outrora, tinha medo que a ventania entrasse para a casa e esfriasse o quarto. Quarto, diga-se de passagem, já frio. Não receava, portanto, perder o calor, mas sim intensificar o clima que já me agonizava comodamente. Cansei-me, assim, de tentar isolar o ar e correr apenas as persianas e os cortinados, tal como deixei de usar lâmpadas. A luz do Sol, para ser calor, precisa de se infiltrar verdadeiramente -- e não ser simulada ou barrada parcialmente. Não há meio termo para tudo o que é natural e, portanto, espontâneo -- ou, em última análise, verdadeiro.
     Na frente dos meus olhos, vejo a luz correr para me alcançar, por entre a renda branca que baila por entre as tonalidades laranja, verde e rosa, quais holofotes que lembram auroras. Estico-lhe a mão e sinto a simplicidade de ser genuíno arrepiar todos os cabelos do meu corpo, provocando em mim uma sensação de prazer, frescura e calma, à medida que a paz interior se entrelaça e avança pela ponta das minhas unhas, até colocar a sua aliança em mim. A minha cabeça pende da borda da cama, sinto o calor massajar-me a nuca e imagino que os caracóis negros desalinhados que decoram a minha cabeça devem estar agora ruivos, de banhos de Sol. Tu sempre gostaste da forma como o meu cabelo se assemelha à juba de um leão. Não é, contudo, a selvajaria que te prende a mim. A aparência tropical limita-se a incendiar estes corpos que não se desgrudam.
     A minha mente maga transforma, subtilmente, as ondas dançarinas nos meus olhos em memórias de uma realidade com a qual nunca deixei de sonhar. Pessoa sussurrava que a realidade é apenas o ponto de partida para o sonho, mas foi com a maior racionalidade que o sonho nos fez partir para a realidade.
     O meu peito, todo coberto pela tua existência, sente um calor não suado, um calor intenso e amado. No meu ombro, tenho uma cabeça que arfa sobre o meu pescoço e me faz saber que nenhum mal me pode acontecer. Nos teus braços, repousa toda a minha fragilidade, cujo saber se dissipará com o tempo, até à deterioração fatal que nos espera a todos. Um dia, a doce textura da tua pele não será mais sentida com o toque dos meus dedos. Aquele calor que, no entanto, emana de nós, por mais conscientes que sejamos, é a vitória de uma vida. Por mim, sei que poderia deixar de existir daquele momento em diante, porque seria sempre recordada como alguém que alcançou a felicidade maior que pode existir num ser humano...
     Até lá, tenho a proximidade de dois corações que batem em uníssono, tenho as cores mais bem pinceladas na minha mente, e tenho as tuas costas musculadas sobre o meu tórax, debaixo das minhas mãos... E, com elas, acaricio quem está do outro lado e sente a mesma ânsia de viver que eu. Essa, sim, é a melhor recompensa que se pode dar a alguém por crer, por querer, por esperar... A textura ondulada e fria dessa tua pele de caramelo, cujo odor é mais suave do que a maciez do algodão como nuvem de plumas.
     Nunca deixes que nada quebre aquilo que construímos. É tudo o que te peço em troca.

domingo, 4 de março de 2012

Homme Fatal

Conteúdo para Adultos


     Sentada de lado no cadeirão escarlate, via as minhas pernas despidas, apoiadas no braço direito da poltrona, mudarem de cor, conforme o crepitar das labaredas. O amarelo avançava progressivamente em relação à minha direita, debruçando-se por cima de mim para me abraçar a cintura. Não o conseguindo, um vestígio de sombra ficava desde o meu nariz até à biqueira das minhas sabrinas cor de cinza. Na transição entre o sonho e o sucesso, estava aberto no colo da minha saia cinzenta pregada um espesso volume, onde as rivalidades entre lobisomens e vampiros me eram explicadas. O confortante calor, que, naquela noite de fevereiro, era expelido da lareira no meu lado esquerdo, permitia que eu tivesse apenas a camisa branca vestida, donde pendia a minha gravata vermelha e amarela, e as mangas arregaçadas.
     Àquela hora, não costumavam estar muitas pessoas na Sala Comum. Atrás de mim, deveriam estar umas quatro ou cinco raparigas histéricas e um pouco invejosas. Pelo menos assim me pareciam, quando costumavam ver o garanhão desprezá-las para me dar a atenção que ninguém supostamente conseguiria despertar nele. Eu ouvia-as comentar as fofocas mais pindéricas que a imprensa poderia vender e as bugigangas mais dispensáveis que poderiam ser comercializadas. Mais adiante, estavam dois rapazes e uma rapariga de volta dos papéis, quiçá a escrever um relatório para a manhã seguinte ou apenas a fazerem o tempo livre render. Digamos, um deles não deveria certamente estar ali pelo segundo motivo, talvez até nem tanto pelo primeiro, mas mais para não se sentir só. Nunca tinha percebido como uma pessoa tão dependente dos outros pudesse ser aceite como uma de nós, embora compreendesse que talvez apenas eu visse algo de errado naquele rapaz. Mais imparcialmente, era a minha tendenciosidade contra a ingenuidade deles. Como tal, e por questões de respeito, eu limitava-me a não lhe dar muita atenção.
     Sentia-me preguiçosa em todo aquele meio agradável e estiquei-me para trás. Deixei a cabeça e os braços penderem no sofá e fiquei a ver o teto com carpete escarlate e o chão com candeeiros. O meu corpo foi perdendo força e os meus músculos relaxaram, em verdadeira paz física. Fechei os olhos e lembrei-me do cheiro do negro cabelo dele. Ah, como gostava que me envolvesse com aqueles seus fortes braços e preenchesse com os seus lábios rosados e carnudos o espaço entre os meus! Como gostava desse seu jeitinho mal intencionado e de como colocava o seu braço à volta dos meus ombros e me aquecia as bochechas com beijinhos, apertando-me com força! E como gostava de não precisar que me admitisse nada...
     -- Olá, estudiosa -- uma voz masculina e grave me disse em tom alegre e malandro. Abri os olhos e paralisei por momentos, como que ainda a processar a informação. Levantei a cabeça e, para minha surpresa, ali estava ele, debruçado sobre as costas do cadeirão, com um ligeiro sorriso nos lábios e os cabelos que nem cortinados ondulados, caídos.
     -- Estás aí há muito tempo?
     Abriu o sorriso por completo e, no mesmo ar sedutor, levantou-se do sofá e contornou-o. Parou encostado às minhas pernas, quase a meu lado, e vi o seu corpo abaixar-se e avançar em direção a mim, enquanto senti o sangue correr mais depressa e o peito inchar por causa aquele ar galã que ele tinha. Não me lembro de pensar mais nada, nem de reagir, quando pousou uma mão de cada lado do meu pescoço e avançou a sua cara em direção à minha:
     -- Há suficiente para perceber que essa camisa te fica muito bem.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Odor Lisboeta a Putrefação

     Estrada abaixo, António calçou as pegadas molhadas do seu preto envernizado. Cada marca deixada era como um meteorito que colidia com o betão, causando ainda mais fendas. A água era a atmosfera que protegia as fendas de serem mais do que algumas fissuras moderadamente profundas.
     O cheiro a carvão das barraquinhas ambulantes de castanhas assadas misturava-se com os odores a suor que o aglomerado de trabalhadores e turistas expelia habitualmente, como um odor intrínseco. Poderia ter sido compreendido como um aconchego ou um realce estilístico, mas, na verdade, quando baixava a cabeça e enfiava o queixo no cachecol coloridamente riscado não queria aquecer a cara com o bafo preso pela roupa, nem exibir o cabelo castanho espigado na sua nuca, mas sim esconder os olhos da paisagem de água suja nas pedras da calçada.
     Desde que lhe disse que ela precisava de ser menos precipitada e de dar mais espaço a cada coisa, a relação entre ambos nunca mais foi clara. Ela encavalitava tudo aquilo que lhe dizia respeito e desarrumava tudo de propósito. António não podia virar a esquina que lá estava ela, a barafustar com algo. Quando ele lhe perguntava por que era assim, ela ficava ciumenta e mandava-o ir ter com a ex. Esperava, certamente, que ele a mimasse e mostrasse que a ex lhe era inferior.
     Ele, porém, sentia a culpa cair-lhe em cima. A ex, pelo menos, não se chateava com tanta facilidade, nem se adornava. Era naturalmente linda. Pobre, mas verdadeiramente simples. Emanava as cores de dentro de si e não atraía a si toda a espécie de gente. Mas António deixou-se levar pelo que os outros diziam e acreditou na adoração que todos os outros faziam à que viria a ser a sua esposa e maior dor de cabeça.
   Por isso, baixava a cabeça e acarretava com as birras da amada. Lá fundo, perguntava-se se era mesmo aquilo que queria para passar o resto da sua vida.
     Ah, Lisboa, como és complicada!

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Maré Estrategicamente Brava

Conteúdo para Adultos


     Cada mulher é um mar de mistérios e atrai a si qualquer marinheiro voluntário. Qualquer vocação marítima encontra em si o próprio conceito atrativo, quase inconsciente. Nenhum marinheiro que goste verdadeiramente do mar consegue passar ao longe, talvez numa ponte qualquer, ver o mar e não sentir qualquer tipo de melancolia agradada. E eu estava precisamente à beira daquele mar que todos os dias me vinha molhando os pés.
     Eu sempre fui daquele tipo de homens que gosta de marés bravas. Não é que, na verdade, o mar seja mau, mas, por vezes, quando está rabugento ou aborrecido, decide chamar um pouco mais atenção, na esperança de haver por perto algum marinheiro aventureiro, que se sinta tentado pela provocação das ondas que rebentam mesmo na sua frente, sabendo que não pode ou não deve mostrar-lhe que o consegue domar.
     É de uma grande capacidade de resistência controlar estes impulsos de valente marinheiro e não ceder às pretensões de um mar bravo, que grita com uma discrição falsa pelos seus navegadores, sedento de ser motivo do esforço físico. Eu dava-me já por satisfeito só por ter a capacidade de deixar aquela maré insistir em se exibir através de espetáculos de insinuações e, num ou outro desejo mais violento, de frontalidades.
     Deveras difícil, para um homem como eu, recusar uma mulher como aquela, tão persistente, mas tão merecedora de submissão. Eu podia nunca me ter interessado em visitar aquela praia, mas aquela mulher, em específico, intrigava-me por se mostrar tão limpa e tão apetecível e, no entanto, recuar tanto a maré. E, após tanto tempo a respeitar o seu espaço e a caminhar a seu lado, ela deixou de ser uma maré brava e vaza, para ser uma maré calma e cheia. Eu, contudo, divertia-me a soprar-lhe os ventos mais fortes, já com os pés calejados de sal de todas as vezes em que ela me refrescou um pouco; porque aquela mulher -- ah! Aquela mulher! Que mulher... -- tentava sempre conter a bravura das suas ondas, que outrora agitava descontente. Eu sabia que ela queria que eu a explorasse e ela sabia certamente que a sua agitação fazia enfatizar a minha atração por mares bravos -- mas ambos sabíamos que a sua praia era demasiado vigiada para que eu pudesse ao menos molhar minhas mãos dentro das suas curvas.
     Mas ela aproveitava cada brecha na segurança para me seduzir até si um pouco mais. Naquele vestido de cetim preto, ela havia deixado discretamente as suas ondas brilharem, tapando as extremidades a renda da mesma pecaminosa cor, como se fossem abas que dissessem, através de telepatia, "abertura fácil". As pernas, quais pedaços de bife, moviam-se de um lado para o outro, destapadas e suportadas pela negra madeira brilhante, que alongam os seus pés e a aproximavam ligeiramente mais da minha altura, conferindo-lhe, simultaneamente, uma elegância vulgar. Mas não era todo esse cheiro que mais emoção me provocava, mas sim o calor que todo aquele volume contido naquele cetim preto emanava, com uma força capaz de me fazer achar que quem está quente sou eu.
     E eu limitava-me a ficar sentado naquela cadeira, numa posição descontraída, oposta ao olhar malicioso que eu lhe oferecia em troco de todo aquele espetáculo, igualmente inocente. Eu jurava a mim mesmo testar os meus limites e resistir-lhe, até mesmo quando ela inclinou todo o seu volume na minha direção e, com as mãos apoiadas nas minhas coxas já ardentes, me sorriu, de olhos escuros e rasgados e sobrolhos mais escuros ainda e bem delimitados. E eu ali, a um palmo daquela mulher que me poderia encher as mãos e as horas, toda fácil e firme.
     Então, ela moveu rapidamente uma sobrancelha apenas, ofereceu-me o seu sorriso, mordeu-o e, antes que eu o pudesse roubar, levantou-se, virou costas e caminhou até à porta por onde me tinha arrastado antes. Parou de balancear o habitual charme e, já agarrada à maçaneta, atirou-me um olhar cortante, sorriu-me maliciosamente e passou subtilmente todo o meu objeto de contemplação pela porta, deixando temporariamente ao alcance dos meus olhos apenas aquele olhar, que me prometia algo mais. Intrigado pelos seus enigmas, vejo, então, a sua mão singela segurar, perigosamente, por uma ponta, um soutien branco, cuja renda eu juraria já ter visto naquela sala.
     Assim que a sua mão deixou cair aquele tecido de suporte, mistério e segredo, pareceu perder lentamente o resto das forças e deslizar. Assim que tudo o que restava de si naquela sala era aquele rastro a dois metros dos meus pés, o meu corpo deixou de me obedecer. Instintivamente, as minhas pernas ergueram-me daquela cadeira e eu submeti-me à influência sexual e amorosa que aquela mulher transbordava para mim. Abri a porta e ei-la, a fugir em passo apressado. Enganas-te se pensas que te safas desta, ouvi-me pensar.
     Rapidamente, estava já ela completamente cercada pelos meus braços, contra a parede mais próxima, naquele pátio deserto. O calor não emanava agora daquele peito que saltava, mas sim do seu bafo, verdadeiramente nervoso. Confusamente, molhou os lábios secos, mas eu não achei que a sua própria saliva fosse suficiente. Com os meus lábios encaixados nos seus e a minha língua a roçar na sua, eu senti as suas mãos geladas tremerem contra a minha nuca, enquanto que era impossível distinguir qual das duas respirações estava mais acelerada. Ao aquecer as minhas mãos debaixo daquelas aberturas fáceis de renda, eu desejei apenas que ela tivesse consigo outro vestido, porque aquele estava prestes a ser rasgado.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Filha do Rei II

Em continuação d'A filha do Rei I.

    Não. Constança não era assim. Constança achava que a janela através da qual tinha vista para a origem da vida era a moldura mais bela que alguém poderia ostentar e, por isso, orgulhava-se em tê-la no seu quarto, a um metro da sua cama. Era-lhe sempre agradável não seguir os conselhos de Haleema, a aia de quem era mais próxima, e dormir de janela aberta. Quando a vinham chamar para a acordarem, já os galos tinham ajudado o vento a acordar Constança. Aquela brisa sempre fresca no seu rosto fazia-a inspirar fundo assim que abria os olhos e encarava um Sol tímido por detrás do habitual nevoeiro. Imediatamente, libertava um pequeno sorriso e esticava os braços, de punhos fechados, salientando o seu peito, como que numa exibição de recompensa à Natureza pelo bem estar provocado. De seguida, levantava o tronco e ficava, naquela tranquilidade matinal, a observar o mais real quadro que alguma vez tinha visto, deixando que a pureza dos campos a fortalecessem. Por vezes, ficava a ver os tecidos da sua cama de dossel voarem em coreografias místicas, em tons de azul, cinzento e branco.
     Acordar tão cedo quanto o Sol é que não era duma princesa, por isso sempre esticava os cobertores da cama, vestia uma capa quente, puxava o cabelo para o lado, saía do quarto, fechava cuidadosamente a porta de madeira e descia, sorrateiramente, a escadaria de pedra, para que não se apercebessem de estar a tomar a iniciativa de fazer o que uma pessoa ordinária faria, não tendo o seu estatuto. Constança achava que a única coisa extraordinária ali era a porcaria do estatuto, que lhe fora conferido sem ela ter responsabilidade de tal. Por isso, agia consoante o que queria e desejava, tanto às claras, como às escondidas. Ao chegar a cada piso de baixo tinha de se esconder e potencializar a sua audição e a sua visão, a fim de encontrar algum guarda sonolento que rondasse o castelo, mandado pela mãe, à procura da rebeldia da filha. Dulce chegara a ordenar a um guarda que ficasse de plantão no exterior da porta do quarto da filha, mas este, ao segurar Constança, levara um murro na cara, que lhe partira dois dentes da frente, e uma forte joelhada na zona sensível. D.ª Dulce Berenguer de Barcelona, como assim era chamada a mulher que lhe tinha dado a vida, mas não o leite, chegou a discutir consigo, mas sentiu-se mais intimidada do que a filha, que lhe apontou o indicador e jurou não deixar que a inibissem a esse ponto.
     Ao chegar ao rés-do-chão, caminhava apressadamente para a porta da cozinha, no fundo da divisão. As cozinheiras sentiam-se embaraçadas, largavam prontamente tudo o que tinham nas mãos, fechavam-nas no colo e baixavam as cabeças. Inicialmente, Constança tentava deixá-las mais à vontade, mas ao ver que eram as próprias criadas que persistiam em se autodiscriminar, não lhes dava importância e seguia o seu caminho, pela porta das traseiras. Aí, sentava-se no degrau que havia antes de pisar a terra relvada e contemplava o trabalho dos humildes senhores que só não estavam no seu lugar pelo azar de terem nascido das mulheres erradas, que lhes tinham dado a vida e o leite. Um moço, de calças arregaçadas e roupas encardidas pelo tempo, logo aparecia, com um balde com água. Era Martim, o filho do padeiro, e sempre lhe tinham encarregue o transporte dos alimentos. Tinham-se conhecido numa das vezes em que Constança agredira Afonso, por este ridicularizar os agricultores. Martim estava a par dos rumores e do pânico que a filha do Rei causava e ficava curioso de a ver. Constança tinha sido puxada pelo braço até à cozinha por uma das aias, que a repreendeu por agir como uma vândala. Assim que a aia saiu, Constança deitou-lhe a língua de fora e cruzou os braços, só os tendo descruzado para ir ter com Martim, escondido fora da porta, que a chamou e lhe disse que ela era um máximo. Desde então, tornaram-se grandes cúmplices e criaram um laço muito forte e um dos mais raros da Corte, a que Constança chamava de verdadeira amizade. E ali estava ele, sempre disposto a trazer-lhe a água que Constança agradeceria com um sorriso e um piscar do olho direito e levaria para o seu quarto, onde se lavaria e vestiria um dos seus vestidos.

sábado, 7 de janeiro de 2012

É magia, a Natureza que os rostos beija

     Nestes campos de onde te escrevo, o Sol cedo nasce e tarde se definha.
     Venho, erudita, falar-te dos campos onde o dourado muito dura e pouco raia.
     Aqui, exatamente de onde prolifero a absurdez do meu amor, sinto as plantas em mim -- ou serei eu um pouco delas? As plantas, pois, dançam ao som da melodia dos nortes, que norteiam o sul do destino.



     A sua cor confundia-se com a branca luz que eternamente a abraçava. Juntas dançavam, como dois espíritos que se encontram, ao fim de uma longa busca. No ar ondulavam, almas gémeas de um processo proibido.
     Rodopiava ela, qual fada que se solta, e liberta no ar pozinho cintilante, que esvoaça e paira como pássaros ao redor do ninho. Pois os ninhos perfumava e deixava o seu louro cabelo partilhar a leveza da lavanda distante, de um carinho natural expelido. As partículas despedaçavam-se do seu denso peito e contaminavam o aroma com a subtileza de um salto sem esforço, sem gravidade, de umas pernas carnudas e esbeltas, findadas nos pezinhos delicadamente esticados. Compara-se a uma fada que voa, difundido calor com um sorriso inocente e harmonioso.
     Então, regressa aos braços de quem dela cuida, deixando-a brincar ao luar, sabendo ser toda aquela encenação uma sedução espiritual que lhe faz docilmente.
     Nestes campos onde o vento me beija o rosto, é feiticeira, a Natureza.


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

plumas brancas

     O profundo descanso escuro em que me encontrava foi substituído por um vagão de luz branca azulada que se espalhava sobre o leito revolto em que dormia. Preguiçosamente, vi as minhas pestanas desvanecerem do meu campo de visão, permitindo-me encarar o despertar de um novo dia.
    À minha frente, vi-te, caído, calmo e vulnerável. Os carnudos lábios onde eu me costumava deleitar estavam dormentes, vagamente separados, sem vida. A tua mão esquerda estava meio fechada, queda, contra o lençol branco em que te confortavas. A direita repousava mesmo ao lado da minha anca, como projeto inacabado de meu alcance.
     Fiz a distância entre nós encurtar, a fim de me certificar que não sonhava, para te ter mais real, mais verdadeiro -- mais meu. Nunca o foste, porque a posse é uma ilusão. No final -- porque há sempre um final --, tudo se perde, duma forma ou doutra. Não há nenhum normativo legal que possa substituir as considerações morais -- e nenhuma ética capaz de sustentar a verdade de uma posse. Imediatamente, ouvi, ao longe, João Pedro Pais com o seu clássico ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém. Mas há algo que detemos garantidamente e que nem sempre perdemos: o amor. Os sentimentos que nutrimos são sempre nossos, uma vez que nós somos de nós mesmos, e o amor que temos é sempre nossa posse. A pessoa que amamos já não. E eu sempre tive essa noção contigo. Sempre soube que a cor de caramelo torrado que me seduzia pacificamente não era minha. Nunca foste meu, mas eu sempre te amei. Assim como eu também nunca fui tua, mas sempre me senti por ti amada. Isso sempre foi do consenso de ambos, o que permitiu que nunca houvesse crises de ciúmes entre nós, nem discussões acerca da obrigatoriedade ou legalidade da nossa relação, durante todos aqueles anos que tinham passado por nós, a correr. O amor é, sempre foi e sempre será livre. Só assim, livre e espontâneo, nos pode enraizar verdadeiramente a alguém e disponibilizar-nos a capacidade de voar, mesmo com a força gravítica que a física nos impõe.
     Prendi o cabelo com o pauzinho chinês que me havias oferecido, há anos atrás. Silenciosamente, limitei-me a observar as graduações de castanho que a eumelanina da tua pele formava, com a luz que te embatia nas costas. Suavemente, senti o calor da tua respiração arrepiar os pêlos meu braço, subir, qual serpente, por mim acima, até à minha nuca. Com a mesma subtileza com que existias, desejei sentir a textura da beleza que me encantava. Percorri, com a ponta dos dedos da mão esquerda, a linha que vinha desde a tua cintura destapada. Passei pelo teu ombro e senti o teu pescoço quente, mas tu continuavas, que nem um anjo, profundamente adormecido. Ao tocar o teu rosto, senti a aspereza dos pequenos pêlos da tua barba e deixei-me fazer cócegas nos dedos. Tal como uma escovinha com pequenas agulhas, aquelas farpas pontiagudas massajavam-me e tranquilizavam-me.
     No transe em que estava, não senti que acordavas. Vi os teus grandes olhos fitarem-me, com a surpresa de uma criança. Sorri, embaraçada.
     - Bom dia, amor - proferi timidamente, como se essas três pequenas palavrinhas pudessem substituir uma justificação para estar a contemplar-te, qual pecado que ninguém comete.
     De imediato, vi um terno e sincero sorriso esboçar-se nos teus lábios e não pude deixar de reparar que os teus dentes estavam tão brilhantes como se nunca tivessem sido usados. Acordaste os teus braços dormentes e as tuas mãos cercaram-me, puxando-me para ti. Ao encaixar a minha cabeça no teu pescoço, passei o meu braço por cima de ti e senti os teus braços a aconchegarem-me as costas, enquanto a tua mão esquerda me acariciava a cabeça e fazias os teus dedos entrelaçarem-se no meu negro e farto cabelo.
     Desprendi a minha cabeça de ti, enquanto respirava profundamente, como quem vem à superfície, após um calmo mergulho. Não consegui impedir-me de sorrir enquanto descobria o meu rosto, até ora imerso em ti. Senti um calor enorme invadir-me as bochechas e desviei o olhar, para baixo. O teu braço direito deixou de segurar as minhas costas e a tua mão encostou na minha bochecha esquerda. Olhei para ti. Miravas-me fixamente, seriamente. Desfiz o sorriso embaraçoso que esboçava. A tua voz grave entoou nos meus ouvidos, aquecendo-me ainda mais:
     - És linda.
     Encostei o meu nariz ao teu e fechei os olhos. Ao tocar os teus lábios, envolveste-me com força e puseste-me em cima de ti. Senti tudo como se fosse novo, como se nunca te tivesse beijado antes. E, naquele calor único, soube que aquilo que nos unia era mais forte do que o poder de qualquer assinatura ou aliança.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

delicadas harpas que não te consigo despir

Vejo-te aí, a toda essa (excessiva) distância de mim. Rodopias essas tuas serpentes enroladas imprecisamente, fazendo-as expelir esse veneno a que chamam perfume. Se de veneno não se tratasse, não me terias escravo da tua miragem. Enfeitiçados, os meus olhos perdem-se ao seguir os movimentos desses folhos que esvoaçam pelo ar, como pássaros brancos floridos.
Tu, musa sobrehumana, enches o ar de magia e rejuvenesces cada pedaço de chão por ti tocado, qual lisonjeio. A teu redor, tens todo um mundo submisso, sem que precises de fazer um mínimo esforço que seja. Para tal, precisas apenas de não forçar nada, nada desejar, e encarregar o teu corpo que, por natureza, difunda o branco suave que o interior da tua alma contém. A cor que cada porção de ar adquire transforma-te em anjo, com delicadas curvas sobre as quais os canudos do teu cabelo se deitam e eu me deleito. Cada linha do teu corpo é uma auréola da tua subtileza e me convida a apreciar a renda que as sombras desenham em ti.
Carteiro do teu aroma, percorro cada duna tua, cada delicado espaço de pele que me exibes timidamente. Timidamente, sinto a aspereza da ponta dos meus dedos tocarem as delicadas harpas da tua pele. E é com a mesma timidez de te sentir em mim, próxima do meu corpo, que a capa que não te consigo despir não se mostra indiferente ao desejo de amar que os meus lábios suavemente emanam sobre ti. Juntos, compusemos as mais esbeltas melodias -- as mais puras e as mais fervorosas. Eu, contudo, limito-me a deixar-me levar pelas sugestões da tua dócil riqueza humana. Todo o conteúdo das maravilhas que cantamos emanam da tua profana afabilidade, do calor que tu, deusa, expeles de ti.
Vem até mim, morena. Faz de mim teu seguidor e deixa que eu me satisfaça nos requintes do teu ser.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

utopia, perfeição, tédio

     Não consigo mais. Cheguei ao meu limite de compreensão. Não sei o que vem à frente -- e, sinceramente não sei como descobri-lo, mas também desconheço o interesse que isso pode ter.
     O ceticismo instalado em mim leva-me a crer que cheguei ao fim deste caminho. Não acredito que haja algo mais aqui. Tudo vem e me atravessa, não me marcando minimamente. E isto não pode ser problema meu, não: a minha indiferença em relação a este espaço deve-se à sua impossibilidade de progresso e à inexistência de uma margem de melhoria. A única forma de voltar a descobrir, de continuar, é livrar-me desta barreira, virando ao lado, desistindo -- porque nada está por detrás dela.
     Nunca pensei que a perfeição na concretização de uma utopia pudesse ser tão vazia.

sábado, 3 de dezembro de 2011

A filha do Rei I

      Naquela manhã, o azul era fresco. Húmido, devido ao poder de absorção dos jardins.
    Constança abrira as janelas grandes e verticais do seu quarto. As cortinas esvoaçavam para dentro do quarto, animadas pela brisa cantante que fluía no ar. Para a melhor ouvir, fechou os olhos, com um sorriso leve, de quem sonha com algo agradável. Ao inspirar fundo, sentiu a cultura da sua terra ser absorvida por si, detetando o aroma a musgo. Daquela forma, pôde sentir os humildes senhores do povo, enquanto lavravam, pela matina, as couves que as cozinheiras lavariam e cozeriam, para si e para a sua larga família. Uma família que não lhe significava muito, pela escassez de sentimento profano.
     Constança não era assim, como os seus irmãos. O seu único irmão mais velho, Raimundo, havia morrido quando ela tinha sete anos. A sua morte sempre lhe foi um mistério. Mas Constança nunca tinha gostado muito do irmão. Este, por ser o sucessor natural da Coroa, havia sido sempre muito mimado, e havia-lhe sido incutido o espírito de que deveria ser forte, tal como um cavaleiro, para prosseguir na expansão do território do Reino. Por isso, nunca havia brincado com a irmã mais nova, porque um Rei não brinca com as meninas. Isso seria sinal de fraqueza.
     As suas duas irmãs mais velhas, Teresa e Sancha, eram muito boas raparigas. Dóceis, nunca a haviam tratado mal. Mas ambas eram muito corretas, excessivamente, na opinião de Constança, boas. Não tinham o desplante de correr pelos campos, sujar os vestidos, oferecer flores aos camponeses e aos escravos. Teresa sempre ambicionara ser uma boa senhora e nela se depositaram os valores de castidade e superioridade real. Sancha não era tão pragmática, mas era muito calma. Não olhava Constança com desdém, quando a via rir e cantar, mas sorria solenemente -- e prosseguia na leitura dos grandes livros religiosos. Constança sempre a achara muito dogmática, muito correta e harmoniosa. Admirava a sua tolerância, mas a irmã parecia-lhe uma pessoa fúnebre, intelectualmente falando.
    Tivera mais quatro irmãos e duas irmãs. Afonso e Pedro tinham o caráter elitista de Raimundo e, por isso, nunca lhe deram atenção. Nem ela quisera a atenção de rapazes que se julgam melhores do que as senhoras. Olhava-os com desprezo quando os via competir entre si, para ver qual o melhor governante. Uma vez por outra, discutia e gritava com eles, quando os via atirar tomates aos camponeses que trabalhavam a terra. As aias vinham acudir, que a menina está louca.
    Fernando nascera em Noyon, aquando da visita à comuna francesa. Constança tinha, na altura, seis anos. Lembra-se, ainda hoje, de ver o defunto irmão a passar pelos senhores (que, na opinião de Constança, eram isso mesmo: senhores) que trabalhavam na reconstrução da catedral, que havia sido incendiada, e dizer, com ar presunçoso, que não faziam mais do que a sua obrigação. Ao ver o cocheiro abanar a cabeça, descontente, Constança disse, contrariamente, que estavam a ser úteis ao seu Reino. O pai interveio, reforçando o ponto de vista da filha, alegando que era necessário fortalecer as obras públicas, de modo a que a população ficasse bem alojada e, assim, não se sentisse descontente com o Rei. De imediato, a mãe findou a conversa, porque uma menina não se deveria interessar com essas coisas. Teresa soltou um guinchinho malicioso e Raimundo esboçou um sorriso afetado. Isso permitiu a Constança refletir que talvez fosse por aquilo que o pai era chamado de o Povoador.
    O quinto e último filho da Corte fora Henrique. Nasceu em 1189, no ano da morte de Raimundo. Constança sempre tivera a esperança de que este irmão fosse melhor do que o perdido, mas, infelizmente, este sempre fora muito apático e melancólico. Raramente o via pelo Castelo, e, quando o via, parecia estar sempre de saída, sem, vez alguma, conversar muito.
    Constança tivera mais duas irmãs, Branca e Berengária. Porém, as irmãs nunca se misturaram muito com ela, tendo sido as bonecas de brincar de Teresa. Rapidamente, começaram a parecer-se a ela e a adotar os seus hábitos presunçosos.
    Soube-se, ainda, da ajuda financeira que o pai dera a mais cinco crianças de senhoras com quem simpatizava, que costumavam, de tempos em tempos, passear pela Corte; mas com essas crianças, por algum motivo incógnito, nunca tivera autorização para brincar. As aias, com um ar severo, repetiam-lhe que uma menina tão nobre como ela não se devia misturar com aquelas crianças.

Continuação em A Filha do Rei II.

domingo, 6 de novembro de 2011

o crepitar de um novo começo

Nas poltronas escarlate, ouve-se o crepitar das labaredas a consumirem os troncos de uma antiga vida, uma vida verde e fresca. É assim que as árvores, na verdade, permanecem eternas: estando presentes, são verdes e frescas ou vermelhas, quentes e secas; ausentes, são desejadas e recordadas.
Aquecidos por aquela fonte de vida (natural, como não o podia deixar de ser, sendo vida), os pés daqueles jovens sentiam-se Reis modestos, que, sendo importantes, não se adornam luxuosamente. Os dele espreguiçavam-se em algodão cinzento, os dela preguiçavam em lã rosa claro, da clareza rosa do algodão doce, coberta de borbotos.
Um terceiro, o grande, rodopiava colheres de madeira em tachos e panelas de inox, fazendo dessa magia que liberta odores que fluem no ar e despertam o apetite a que se chama culinária.
- Martini ou Beirão? - Inquiriu, aproximando-se da única pessoa que apenas movia os dedos, ao virar as páginas de algum romance ou alguma novela.
- Nada, obrigado. Não bebo uísques. Ou melhor, não sou consumidor de bebidas alcoólicas.
- Que sujo que me sinto! - Disse, rindo. - Sou a única pessoa aqui que bebe.
Ela deixava a tinta jorrar ao som de Chopin, coordenada por pensamentos progressivamente organizados.
- O que estás a fazer, comilão anónimo? - Este, por sua vez, tentou esboçar oralmente palavras, mas foi impedido pelo recém condenado a bolo alimentar, o que os fez, a ela e ao seu amigo leitor, rir. - Como é que eu já sabia?!
- Conheces-me muito mal, tu - conseguiu finalmente professar. - Jardineira.
Menos concentrada, levantou os olhos dos manuscritos. O seu amigo também já não lia. Pelo contrário, olhava, abstrato, para a lareira. Imitando-o, conseguiu perceber a mensagem que o corpo feminino e curvado das chamas que dançavam cantava, compreendendo porque sorria vagamente, de satisfação. Ao sentir olhá-lo, suspirou como quem sai de um mergulho, continuando a sorrir, e retribuiu-lhe o olhar. Por sua vez, ela pegou na sua mão e prometeu-lhe, com um sorriso dos maiores que tinha:
- A tua vida nunca voltará a ser o que era, meu caro!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

raízes roucas de sentir

A luz irradiava através de nuvens rasgadas que brincavam com a intensa vastidão de azul pintado em tela plana - plana, para quem não se conseguia aperceber da dimensão do azul cien.
Anabela achava-se perdida naqueles fragmentos de vento, deixando-se fundir com o ouro elegantemente subtil das serpentes vegetais que lhe faziam companhia naquele tenro momento intemporal.
Intemporal era a sua noção, após tanto deleite imaterial naquele manto suave de cores naturais e contactos físicos imaculados.
O seu cabelo confundia-se com os fios cerealíferos da esplanada do seu ser e brincava com eles quando o ar se apressava a invadi-los fresca e suavemente, esvoaçando acima deles, oferecendo-se como cordas de uma harpa muda.
Os seus pés pálidos escondiam-se, tímidos e hesitantes em aderir às ternuras radiantes do vento infantil. A maturidade estável das raízes roucas de sentir confundia-se com o seu corpo imutável e a força da vida infiltrava-se pelas pernas acima, acedendo-as através daqueles pés tão pálidos, tão introspetivos.
Ignorando esse tabu a que os citadinos chamam tempo, Anabela perguntou-se se seria a falta da música dos prados silenciosos e dos seus refrescantes segredos nos ouvidos tolerantes a causa de tanta desarmonia e tanta pressa.
Não obtendo resposta, deixou-se tombar de costas, impressionada pela qualidade sensorial que conseguia obter, enquanto flores lhe abraçavam o rosto, tão singelas e delicadas, tão carinhosas e calmas; e não pôde deixar de reparar que as manchas de branco naquela tela azul que na sua frente se abatia só podiam ter sido pintadas por um verdadeiro artista.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

em demência, em dor, em violência


Calem-se as vozes, cesse-se o pranto. Termine-se o ruído, finde-se a guerra.
Recomecemos este percurso de que nos absorvemos - em dor, em demência, em ordens desordenadas, em radicalismo, em violência.
Caminhemos por este chão molhado de musgo verdejante e deixemos que os rios continuem a sua função assídua de limpeza da terra que nós sujamos. Não queiramos ser mais rápidos do que eles e permitamos que as suas suaves brisas que passeiam pelos nossos rostos infiltrem os nossos aparentemente (e agora tão golpeados!) opacos corpos e varram de nós as impurezas de que resultam as cicatrizes que nos marcam.
Recomecemos, mas por um outro caminho.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

musa fugitiva

Liquidificou-se nas minhas mãos, escorregou por entre os meus dedos, evaporou-se no chão.
Fugiu de mim sem que eu a pudesse segurar no peito e enamorar.
Tal como uma avalanche que engole toda a excitação da alma, que faz os dedos fraquejar de tanto prazer.
Que nem uma dançarina, cujos movimentos corporais hipnotizam uma mente cientificamente devassa, brincou com os meus pensamentos e agitou as células do meu ser. Apagou a sua presença em mim e esvoaçou em lenços de seda por entre os seus longos cabelos serpenteados.
Tal qual uma onda que vai crescendo à medida que se aproxima da costa e, ao chegar até mim, se dissolve.

sábado, 27 de agosto de 2011

o dia em que o mundo não me viu

Conteúdo para Adultos


Cortei com fervor as paredes que te iluminavam. Chorei cada sombra que me esmagava na sua queda.
Queda fiquei. Ficando te amei. Te amando odiei. Odiando chorei. Chorando gritei. Gritando rasguei. Cortei. Roubei. Matei.
As minhas unhas finquei nesse tecido abusador e com a força dos meus braços fiz as minhas mãos arrancarem todo o pudor de ti, findando a tua dignidade e o meu sofrimento.
Os meus pulmões fizeram o meu tórax inchar e recolher-se, num compasso sexual.
E, naquela moldura magicamente cantante, eu amei-te como ninguém alguma vez o tinha feito.

domingo, 21 de agosto de 2011

horas extraordinárias


Quando chegares a casa avisa-me, dizia o mostrador do seu telemóvel.
Ainda pensou em telefonar a avisar que tinha saído agora do trabalho e que estava a caminho de casa. Lembrou-se, no entanto, de ter ficado horas extraordinárias encafuada naquele laboratório e de ter perdido a noção do tempo.
Quatro e meia da noite, viu. Cinco horas após ter recebido aquela mensagem.
- Eu não tenho NADA a ver com isso! Percebes? Nada! Eu não quero saber disso! Estou-me nas tintas!
Ele já devia dormir e seria rude da sua parte acordá-lo para resolverem o que o seu mau humor havia causado. Agora, vinham-lhe à memória flashes da sua indelicadeza para com alguém que a amava e respeitava.
Sempre quis a seu lado alguém que a respeitasse e a amasse pela pessoa que era, ao invés do que era hábito acontecer, e agora que tinha alguém assim não lhe dava o devido valor, ou pelo menos assim achava. Parecia-lhe aquele homem merecer todo o carinho do mundo, mas que fazia ela?
- Olha, eu agora não posso falar, está bem? Estou a conduzir e não me posso enervar, para além de que não devo chegar ao trabalho neste estado. Nós depois falamos. Adeus.
Queria correr até ele, abraçá-lo, beijá-lo, passar veementemente uma borracha naquelas horas que se haviam passado antes de sair de casa. Dizer-lhe que o amava e que o queria a seu lado para sempre, porque, na verdade, queria-o mesmo. Perder-se sofregamente nos seus braços e beijá-lo como pela primeira vez. Entregar-se inteiramente ao corpo que detinha a mente que mais estimava. Tudo porque, de facto, sem saber se estavam bem, tudo à sua volta lhe parecia insignificante e melancólico: vazio e, simultaneamente, excessivamente preenchido.
Agia como se ele lhe fosse seguro e insensível. Como se pudesse esmurrá-lo verbalmente, que nenhuma das gotas de chuva que caíam nos vidros do carro fariam latejar o laço que o prendia a ela, qual âncora lançada ao mar. As âncoras, porém, também se içam e recolhem ao navio, quando há muita força de vontade para tal.
Fui uma bruta, pensou, enquanto libertava com brusquidão a mão do telemóvel, para apoiar a cabeça. No fundo, havia feito com ele o que os outros haviam anteriormente feito com ela, num egocentrismo egoísta e exagerado. Sabia que ele merecia muito mais do que aquilo e que ela era capaz de lho dar. Urgentemente, precisava de lhe pedir desculpa, mas agora já era tarde.
Desviou o caminho que a levava até casa. Com as chaves que ele lhe havia concedido, abriu a porta da casa dele o mais silenciosamente possível, de modo a que, na manhã seguinte, quando ele acordasse e visse que ela não lhe tinha telefonado, reparasse no corpo que vestia uma camisola sua e dormia a seu lado, quiçá por se mover e o sentir ou talvez por lhe enviar uma mensagem a perguntar Então? e ouvisse de imediato o destinatário a recebê-la, ali mesmo, no seu próprio quarto, compreendendo que, afinal, era apenas uma mulher arrependida e, no fundo, verdadeiramente inofensiva.

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