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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

12. Carta à pessoa que mais odeias/que te causou muita dor

Conteúdo para Adultos


Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?. 

    Um passo, dois passos. Uma pancada. Duas, três, quatro pancadas. Cinco pancadas. Seis, sete, oito, nove pancadas. Dez pancadas. Onze.
      A adrenalina percorre todo o meu corpo e arrepia toda a minha pele. Contorço o pescoço, numa tentativa de afastar o pensamento da memória. Custa-me relembrar, a sangre frio, sem aquecer.
      Olha bem para mim. Não pretendo intimidar-te, mas olha para mim, bem fixamente nos meus olhos. Sentes a raiva chegar até ti? Eu sinto-a sair de mim. Acreditas mesmo que o medo me enfraquece? Enganas-te. Oh, se te enganas! O medo faz-me violenta. Fortalece o meu lado animal.
      Tens, pois, a certeza de que pretendes continuar? Achas mesmo que, ao me tocar dessa forma, te respeitarei? Queres mesmo levar isto até ao fim?
       Pois então leva. Toca-me dessa forma pseudopossessiva. Sente-te poderoso. Faz comigo o que tens sempre feito e que o fazias com todos os outros -- e bate-me. Bate-me tanto quanto quiseres. Rasga a delicadeza que esconde, cinicamente, o pudor dentro de mim. Bate-me mais. Descarrega em mim os teus problemas. Bate-me, bate-me muito. Finge que, assim, eles passam a ser meus. Bate-me com força. Finge que o demónio está em mim e faz das tuas mãos água benta. Bate-me! Faz de mim o que tu quiseres.
       Veremos, no fim, qual de nós dois rirá.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Mais do que maquinaria, nós precisamos de humanidade."



-- O ditador de Tomania, o conquistador de Osterlich, o futuro imperador do mundo!

-- O senhor tem de falar.
-- Eu não consigo!
-- O senhor tem. É a nossa única esperança.

-- Perdoem-me, mas eu não quero ser um imperador. Esse não é o meu ofício.
«Eu não quero governar ou conquistar quem quer que seja. Eu gostaria de ajudar todos se possível: judeus, não judeus, homens negros e brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros. O ser humano é assim: nós queremos viver da felicidade dos outros, não da angústia dos outros. Não nos queremos odiar e desprezar uns aos outros.
«Neste mundo há espaço para todos e a boa Terra é rica e pode alimentar todas as pessoas. O estilo de vida poderia ser livre e lindo, mas nós perdemo-nos no caminho. A ganância envenenou as almas dos homens, construiu no mundo uma barreira de ódio, guiou-nos para o caminho da angústia e do derramamento de sangue.
«Desenvolvemos a velocidade, mas prendemo-nos a nós próprios. A maquinaria que nos dá abundância deixou-nos na necessidade. O nosso conhecimento tornou-nos cínicos, a nossa inteligência tornou-nos duros e cruéis. Pensamos demasiado e sentimos muito pouco. Mais do que maquinaria, nós precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, nós precisamos de carinho e bondade. Sem essas qualidades a vida será violenta e tudo será perdido.
«O avião e a rádio aproximou-nos, mas a natureza destas invenções grita em desespero pela bondade do Homem -- grita pela irmandade universal e a unidade de todos nós -- mesmo agora, que a minha voz está a alcançar milhões no mundo, milhões de homens desesperados, mulheres e crianças pequenas, vítimas de um sistema que faz os homens torturar e aprisionar pessoas inocentes.
«Para aqueles que me conseguem ouvir, eu digo: não desesperem! A miséria que está entre nós é a passagem da ganância, a amargura dos homens que receiam a forma do progresso humano. O ódio dos homens passará e os ditadores morrerão -- e o poder que eles retiraram às pessoas voltará para as pessoas -- e enquanto os homens morrem, a liberdade nunca perecerá.
«Soldados, não dêem as vossas almas a brutos: homens que vos desprezam e vos escravizam; que regem as vossas vidas e vos dizem o que fazer, o que pensar, o que sentir; que vos exercitam, vos alimentam mal, vos tratam como rebanho, vos usam como forragem de canhão! Não se entreguem a estes homens artificiais -- homens-máquina, com mentes-máquina e corações-máquina! Vocês não são máquinas! Vocês não são rebanho! Vocês são homens! Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam: só os que não são amados odeiam -- os não amados e os artificiais. Soldados, não lutem pela escravidão: lutem pela liberdade!
«No décimo sétimo capítulo de S. Lucas está escrito: o reino de Deus está dentro dos homens -- não de um homem, nem de um grupo de homens, mas em todos os homens: vocês! Vocês, o povo, têm o poder -- o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade! Vocês, o povo, têm o poder de fazer esta vida livre e linda, de fazer desta vida uma aventura maravilhosa! Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos! Vamos lutar por um novo mundo -- um mundo decente, que vai dar aos homens uma oportunidade de trabalhar, que vai dar aos jovens um futuro e aos idosos uma segurança! Prometendo estas coisas, os brutos alcançaram o poder, mas eles mentiram: eles nunca cumpriram a sua promessa, eles nunca o farão! Os ditadores libertam-se a si próprios, mas escravizam as pessoas! Agora vamos lutar por alcançar essa promessa, vamos lutar para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, para acabar com a ganância, com o ódio e a intolerância! Vamos lutar por um mundo de razão -- um mundo onde a ciência e o progresso nos levarão à felicidade de todos!
«Soldados, em nome da democracia, vamos todos unir-nos!
O Grande Ditador, Charles Chaplin, 1940

sábado, 27 de agosto de 2011

o dia em que o mundo não me viu

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Cortei com fervor as paredes que te iluminavam. Chorei cada sombra que me esmagava na sua queda.
Queda fiquei. Ficando te amei. Te amando odiei. Odiando chorei. Chorando gritei. Gritando rasguei. Cortei. Roubei. Matei.
As minhas unhas finquei nesse tecido abusador e com a força dos meus braços fiz as minhas mãos arrancarem todo o pudor de ti, findando a tua dignidade e o meu sofrimento.
Os meus pulmões fizeram o meu tórax inchar e recolher-se, num compasso sexual.
E, naquela moldura magicamente cantante, eu amei-te como ninguém alguma vez o tinha feito.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

degradante

Há dias em que não nos apetece comer, falar ou ouvir seja o que for. Dias em que nos levantamos da cama sem saber bem porquê e nos dirigimos à cozinha para comer sabe-se lá o quê. Talvez por hábito, nos encaminhemos a estes sítios e façamos estas coisas. Não é plenamente deliberado e quase, até, involuntário.
Raquel estava num desses dias. Não sabia o que fazer, agora que se tinha levantado da cama por achar que já era tarde: se tomar o pequeno almoço, se tomar um duche. Ambas as ações lhe pareciam inúteis.
"Talvez deva ir comer primeiro, antes que se faça tarde", pensou. Mas tarde para quê? Estava de férias, a casa estava limpa, as tigelas do Rufus com bom aspecto e não tinha compromissos a cumprir. Os amigos haviam todos casado e pareciam-lhe felizes, entre o cansaço do trabalho e o consolo nos seus amados.
"Mas que raio é que eu vou comer a uma hora destas?", resmungou mentalmente. "Daqui a nada são horas de almoço", mas, mais profundamente, perguntava-se se toda aquela disciplina e aquela ordem fariam sentido.
Enquanto esperava o pão acabar de torrar, observava a sua mesa familiar em xadrez vermelho e amarelo. Em tempos, desejara que findassem todas aquelas ridículas e diárias discussões que não a permitiam concentrar-se no trabalho nem descansar em casa. Agora, plena, limpa e arrumada, aquela mesa, aquela cozinha, aquela casa, aquela vida... tudo lhe parecia inexo.
- Come a torrada e cala-te, mas é - ordenou ao seu próprio pensamento. - Reclamas de mais, não sabes olhar para o que tens de bom à tua volta.
No entanto, imediatamente olhou para a sua volta e viu-se repleta de um imenso vazio. Ter uma casa confortável e recheada não era bom, era agradável. Era agradável viver materialmente bem, mas isso não era, de longe, ser feliz. Os objetos não valem sozinhos, têm o valor que lhes é atribuído. E, sem o coração cheio, nem os objetos têm valor. Aliás, estes são os primeiros a deixar de o ter. Uma demonstração prática estava mesmo à sua frente, ou, mais exatamente, nas suas mãos. A manteiga da torrada não tinha sabor, porque a sua mente carecia de sal.
Dois comprimidos jaziam na sua frente, um branco e um amarelo. Frustrava-a saber que dependia de medicação, de drogas, para poder ter um comportamento minimamente razoável. Custava-lhe, por um lado, reconhecer que, sem a medicação, estava doente; por outro, custava-lhe igualmente reconhecer que só estava normal porque estava doente. Isso fazia-a sentir mal quer naturalmente, quer sob o efeito de drogas. Não suportava, ainda, a ideia de lhe ser reconhecida a revolta, os ideais e a força de vontade por doença. Não aguentava a ideia de os seus alunos ou os seus colegas alguma vez virem a pensar que, afinal, era assim tão autónoma e tão independente apenas por causa do seu estado de saúde. Por isso, enfiava aquela merda medicação esófago abaixo e concluía:
- Sou doente.

Smoke. by ~Essz on deviantART

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Temper Temper.

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Suppress these violent urges.
Rise above it.
Temper temper.

Push down these feelings
Of hate. Rage.
The lust for blood
Under your nails
On your lips.
Burning beauty.

Burn. Of course.
I will cast your damned soul
Into the fires of hell
Then char your worthless shell.
Given half a chance.

Bottled. Clenching down hard.
Hold it in.
Prevent the release.
Naughty naughty.
Go to your room.

Let it turn inwards.
I hurt them
Through my own
Weeping flesh. Satisfy
This lust for blood
Under my nails
On these lips.

Your day will come.
When I break out
Of these iron chains.
Temper Temper. by ~shantottoEars on deviantART 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

permite que me isole

Sinto-me... a mais. Não gosto quando estendo a roupa e sei que estás a observar a forma como o faço. Não gosto quando finjo dormir e vens ver se estou bem. Não gosto quando estou a comer e vês como separo o que é comestível do que é para ir fora. Não gosto quando canto e tu escutas. Não gosto quando leio e ficas a apreciar a minha intelectualidade. Não gosto quando me perguntas por que estou triste. Nem gosto que converses comigo a fim de compreender o que penso ou sinto. Não gosto quando eu comento uma notícia e deixas de olhar para o telejornal para prestar atenção ao que eu digo. Não gosto quando me dizes que me achas bonita. Não gosto que leias o que escrevo. Nem gosto que acertes no que toca ao que estou a pensar ou a fazer. Não gosto que me faças sair cá para fora ou que tentes entrar cá para dentro.

 - Andas muito contra-vontade. Andas muito arreliada com a vida. Não andas feliz.
A grande dúvida é: alguma vez o fui?

Não gosto, repito, não gosto que me dês atenção.
Faz o que quiseres, mas, por favor, ignora-me.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

o simbolismo da cadeira

As palmas entoavam todo o recinto e comprimiam a sua sensibilidade. E todos pulavam das suas cadeiras:
- Bravo! Bravo!
E todos exclamavam a revolução cultural e apoiavam o novo movimento psicológico, alegando um futuro desenvolvimento económico. O ilustre apertava a gravata e limpava o suor da testa, sorrindo, agradecendo, mas com um ar sempre muito sóbrio, muito inchado, como se nem mesmo os louvores lhe tocassem a emoção.
- Meus senhores e minhas senhoras! Peço-vos a vossa atenção...
Mas Pedro já não escutava. A agonia que lhe causava aquela rotina hipócrita de apoio romântico e fatalismo final fazia com que as palmas continuassem a ecoar dentro da sua mente, sem que lhe fosse possível reunir esforços para se concentrar, abdicando cada vez mais do livre-arbítrio que tem face ao que tudo indica. E as palavras de seu pai da sua memória não se apagavam, fixadas no hipotálamo, desde o momento em que lhe penetrou as entranhas visuais, impedindo-o, com as mãos, de escapar daquele confronto:
- Primeiro, tens de ser suficientemente tolerante para que possas compreender todos os pontos de vista. Apenas enfim podes emitir um juízo e não te ficar por aí.
Uma cadeira ouviu-se atirar. Despedaça contra a parede, toda a esperança parecia reunir-se ali, daquela forma, naqueles pedaços de madeira tão aparentemente inúteis, desfeitos.
E subitamente o sorriso que seu pai lhe havia dado fora por Pedro compreendido.

Violation Hidden: Caveiras, o rock, e é.

quinta-feira, 31 de março de 2011

19. Carta a alguém que importuna a tua mente - positiva ou negativamente

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Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

Não te aproximes mais. Chega.
Afasta-te de mim. Não te quero aqui.
Não te quero!
É assim que penso cada vez que te vejo ou cada vez que me falas.
E não te quero, de facto. Não, de maneira alguma.
Estou cansada de ti. E de mim. E de nós.

Cansada da tua atitude! Cansada das características que activas em ti. Não tens já idade suficiente para perceber que estás a piorar progressivamente? Não tens capacidade de compreensão da tua estupidez?! Serás assim tão estúpido?! Tão ignorante? Tão burro!
Estou realmente farta de ti. Fartei-me de te tentar compreender ou ajudar, quando tu adoptas sempre uma posição da ignorância representar o sumus pontifície e de que tudo o que eu disser é mentira ou irrelevância digna de bofetatada. Cansei-me de te tolerar - e exausto-me só de pensar na ideia de o repetir. É por isso que só o pensamento de ti ou a tua visão me fazer querer degolar-te.
Pegar numa lâmina pesada, grande e afiada e cortar-te o pescoço com todas as forças que tenho. Gastá-las todas em ti. Desfigurar a tua cara. Tornar-te mórbido e, por fim, aniquilar-te. Desfazer-te em pedaços. Pedaços de carne. E, depois, cuspir para cada pedaço teu, espezinhá-lo, esmagá-lo. Transformá-lo em pó. Cinza. E soprar a cinza, inundá-la em água. E, de novo, pisá-la. Atirar-me para cima dela com os pés e gritar que te afastes de mim. Não te quero!
Mas como é que é possível que tu sejas tão estúpido?! Como é que é possível que tu, besta quadrada, animal quadrúpede com um cérebro em decomposição e uma mente apodrecida, não compreendas o quão IDIOTA és, meu duende insignificante?!
Tira daí o determinante possessivo, que não quero pertença de ti! Não quero a tua pessoa envolvida com a minha! Não quero tal imundície!

E pergunto-me ainda: como terás sido capaz de substituir as características que tinhas pelas características que tens?! Como será possível que te tenhas tornado tão monstruoso a meus realistas olhos, quando com os mesmos olhos te via eu doce?
Como terás sido capaz de, depois teres sido gozado por tanta gente, de teres aprendido a saber como dói ser excluído, de teres sido deixado em paz e posteriormente de teres sido aceite por algumas pessoas DEVIDO A MIM!!, excluir os outros, ser arrogante e fútil?
Como serás tu capaz, depois do passado por que passaste, de discriminar os outros e achar-te superior a eles?
Como serás tu capaz de te envergonhar dos outros, quando tu próprio és uma mancha?
Como serás tu capaz de olhar repugnado para o prato dos outros, quando tu próprio és nojento a comer?
Como serás tu capaz de mentir para fazer boa figura, quando te revoltavas por veres os outros mentirem desnecessariamente?
E como serás tu capaz de achar que fazes boa figura, quando todos te acham - principalmente agora! - ridículo?
Não tens qualquer noção de bem ou justiça.
Não contes mais com o meu apoio - porque a amizade já forçaste tu a romper.
Metes-me nojo.

sábado, 1 de janeiro de 2011

sacada com rancor

- Do you know what is worth fighting for, when it is not worth dying for?
Os seus olhos deixaram a fixação e passaram a vaguear uma preocupação, como se procurasse um qualquer refúgio.
Joseph tirara a sua mão do ombro do amigo, após um penetrante olhar, que tentava encontrar o seu pensamento, o de Peter, continuando os olhos deste numa fuga desconsolada. Este desistir mostrava-lhe uma corajosa e afirmada desilusão, o que afligia ainda mais o seu cobarde temperamento.
Aquilo era de mais para Joseph. Não conseguia conter a raiva pelo destroçamento que o inundava.
- Did you try to live on your own when you burned down the house and home?! Did you stand too close to the fire, like a liar looking for forgiveness from a stone?!
Toda aquela ira era sacada com rancor, expresso na voz alterada, intensamente aumentando, enfatizando a dor, e na linguagem gestual incontrolada. Peter olhou o chão, deu meia volta e caminhou alguns passos para longe da besta. Iniciando-se com um suspiro, largou um desabafo, enquanto se virava de frente:
- When it is time to live and let die, and you can't get another try...
As suas palavras saíram de forma triste e reflexiva, com a cabeça acenando negativa e suavemente, de tal forma que foi de mais para si. Deixou-se cair na poltrona e voltou a suspirar. Talvez nunca tivesse sido tão corajoso e sincero.
- Something inside this heart has died! - lamentou.
Joseph atirou-se também numa poltrona de braços, escarlate. Reconhecia a gravidade da falta do amigo, mas por este lhe ser íntimo, entristecia também. Suspirou, por fim, apoiou-se nos joelhos e pousou a cabeça nas mãos, sério e pensativo; passou as mãos pela cabeça e um sorriso irónico saiu. Então fixou o seu parceiro de longa vida, entrelaçou as mãos uma na outra, encostou-lhes a boca, olhou-lhe amargamente nos olhos e concluiu:
- You are in ruins.

sábado, 30 de outubro de 2010

à descoberta da verdade

Não sei o que pensar de ti.
Conhecer-te foi fantástico. Não me lembro de ter gostado tanto de uma pessoa num primeiro dia. Contudo, sabia dentro de mim que isso não era uma amizade. Podia vir a sê-lo, mas ainda não o era.
Receava-te e ansiava-te, em simultâneo. Sentimento estranho. Abrias-te comigo, consideravas-me muito importante para ti e eu não negava gostar de ti, mas também não conseguia dizer-to. Talvez porque não estivesse certa disso.
E todos te gozavam. E contra todos lutava.
E tu mentias. E tu trapaceavas. E tu tinhas ciúmes. E tu não suportavas ver-me aproximar dele. Não suportavas saber que por ele tudo fazias e ele começava a adorar-me, a ter brincadeiras comigo que contigo não tinha - não porque lhe incomodasse brincar contigo, mas porque não tinha esse desejo natural, espontâneo -, sem que alguma vez um de nós tivesse segundas intenções.
E todos te gozavam. E eu não conseguia (ou não queria) acreditar. E contra todos lutava. E tu continuavas a mentir.
Lembro-me ainda de quando caí em mim e ganhei-te nojo. Era repugnante eu partilhar contigo o que era puro e bom, e tu virares-me as costas como se alguém te tivesse atraiçoado profundamente. Era mais repugnante ainda saber que isso fazia-te odiar-me, estares realmente furiosa, mas quando eu me dirigia a ti, inocentemente preocupada e surpreendida, fingires-me a maior naturalidade, uma alegria inexplicável. Falsa.
Lembro-me, também, de ter prometido que não te falava mais. Metias-me nojo, inspiravas-me raiva, traição. Não quis, também, incomodar-me e por isso deixei simplesmente de me ralar. E tu suplicaste-me a verdade. E eu gritei-ta. E tu choraste. E eu virei-te costas.
Não sei, porém, como voltei a confiar tanto em ti. Com o tempo, comecei a entrar melhor em ti, a compreender-te, por mais que não concordasse contigo. Tu estavas tão fraca...
Eu chorei por ti, sim. Duas vezes. Numa, porque não suportava ver-te partir, derrotada, rasgada por completo... Noutra, porque tu domaste a besta, inspirada em mim, na minha força e na minha coragem, quando esta te tentou esventrar.
Agora tenho vontade de voltar a deixar-te, de parar de me importar contigo. Estou cansada de ver-te exibir a tua própria vida em porcarias de internet e redes sociais. Estou farta de ver-te ir ao encontro do que os outros diziam. Serás assim tão ingénua ou, de facto, querer atrair atenção? Já és crescida o suficiente para parar de exagerar, de criar dramas. Estou farta de, um dia para o outro, ver-te publicar que és louca por ele, que o amas muito, com as palavras mais doces (eu diria mesmo as mais fantasiosas e irreais, pouco espontâneas), pouco antes de me confessares que descobres que afinal não o amavas e que te sentias fortemente atraída por outros homens, que também não dista muito de quando voltaste a dizer que o amavas eternamente, sem me dar explicações, fingindo-te despercebida, que, por sua vez, foi pouco antes de publicares que não querias nada com ninguém, de ser injusta para quem te é sincero e de assumires que preferias que te tivesse comentado com toda a gente nas costas do que ter-to dito a ti. O que é mais incrível? Um dia após tanta raiva, tanta estupidez, tanto exagero, publicas algo oposto: hoje afirmas para todos verem que há quase dois meses, a partir de uma data fixa, te apaixonaste à primeira vista.
Terei eu razão para duvidar de ti de novo ou não?

sábado, 25 de setembro de 2010

medo da segurança

Custa-me estar a crescer e estar cada vez mais presa.
A minha escola organizou um clube de política para o 12.º ano. Vão ser criadas listas de ideias e alunos e um presidente será eleito para cada lista. Os presidentes das listas juntam-se com os outros presidentes das outras escolas e vão à Assembleia da República apresentar as suas ideias e teses. Vão dialogar com os deputados portugueses no Parlamento.
O corpo docente acha que, apesar de eu não ter Ciência Política nem estar no 12.º, tenho capacidade e estou à altura do desafio, por isso convidou-me a juntar-me ao clube.
Inicialmente, ao telefone, pareceste-me radiante.
Quando cheguei a casa, os meus receios concretizaram-se: não queres, claro está, que eu fique mais forte do ponto de vista argumentativo. Tens medo que eu fique ainda mais segura de mim mesma e consiga ser mais distinta do que o que queres. Não queres que eu seja influenciada por partidos políticos que não são os meus, os ideais para mim. Ou seja, sabes perfeitamente que eu sou politicamente bastante diferente de ti, mas como apenas tu estás certo - porque tu és o chefe de família e julgas-te papa e rei absoluto, porque todos os outros são cretinos e tu (seu bruto) és detentor da verdade suprema, porque tu és Salazar, és Hitler, és Mussolini e és Franco - eu não tenho liberdade de ser individual e de ser eu própria!


A única coisa que veio alegrar-me e me excitou, me orgulhou de mim mesma, me deixou realmente feliz, foi-ma dada e retirada de imediato. Deves achar que me convences a obedecer-te e que vais longe, assim.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

imperdoável

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Não me vão mais prender. Não me vão mais trapacear ou impedir de fazer o que quiser.

O  Pai Natal este ano não descerá a minha chaminé. Esse badocha não vai tocar as minhas cinzas, farei questão de que isso aconteça!

Perdi o controlo total sobre mim própria. Agora desconheço a inocência por completo.
A leoa ficou demasiado tempo enjaulada. Cuidado! O animal está à solta.


Este ano não obterei perdão.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

desespero irracional


Estou sinceramente farta, cansada de tudo isto!
Farta de andar com o pensamento às voltas, para em nada resultar. Não me adianta de nada pensar, de menos me adianta falar, pois nunca mais poderei agir! Então, para quê pensar? Engano-me a mim mesma, engano os que me rodeiam, fazendo-os enganar a si próprios e os que os rodeiam... Mas que merda é esta?!

Estou farta do meu ser moribundo, que por esse mundo fora vagueia, sem crer realmente na ambição de um destino. De outras vezes, me perguntaram se não tinha sonhos. Realmente, não. Não sei sonhar, nem gosto! Quando digo que sonho desempenhar uma certa profissão, limito-me a revelar aquilo que decidi fazer, já que cá estou; no entanto, estou certa de isso não ser algo que me realize e me faça encontrar a felicidade máxima, o por mim tão cobiçado estado de nirvana. Em suma, não considero que seja isso que me complete. Há um espaço vazio em mim que me incomoda: não é que isso me atormente, mas não gosto de assumir que não tenho sonhos nem esperanças mais fortes do que o meu próprio ser, o meu próprio senso de disciplina.
Não te peço para me amares, sequer! Também não peço para seres meu guardião! Mas, sinceramente, custa-te muito manteres-te a mim conectado? Custa-te muito deixares-me ser feliz, quando, para isso, apenas preciso de te ver feliz? Eu só te peço para não me deixares! Achas justo deixar-me? Não, porque tu és egoísta e nem sequer nisso pensas! Tu não te importas. Tu não queres saber. Talvez nem noção tenhas disso e porquê? Porque nem sequer te dás ao trabalho de pensar nisto.
 
Embora eu costume armar-me em racional e fria e dizer que pessoas vão, pessoas vêm, ninguém realmente fica... custa-me dizer o mesmo desta vez... porque, mais do que uma pessoa vulgar ou um amigo querido, és tu.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

sonho real

Hoje sonhei e impressionei-me. Nesse mesmo sonho, mostrei-me mais perspicaz e perigosa do que julgava realmente ser. Porém, apesar de desenrascada, senti uma vez mais o sabor do medo... e descobri o quão parecida sou a quem me criou: quando o medo e o pânico me sufocam, apenas uma onda de raiva transparece e flutua à superfície. Talvez seja por isso que apenas eu realmente o compreenda e acredite que mais ninguém me compreenda, pois ninguém parece ser observador e perspicaz o suficiente para entender-me: recuso a dar definições de mim mesma, não sou algo fixo e material a esse ponto!

Afinal, um sonho tem a capacidade de nos despertar para a realidade.






Engraçada a forma como escolhi esta imagem e só no fim me apercebi da sua semelhança com aquela que dirige o título do blogue.

sábado, 22 de maio de 2010

Skillet: Monster

"The secret side of me I never let you see: I keep it caged, but I can't control it, so stay away from me. The beast is ugly. I feel the rage and I just can't hold it. It's scratching on the walls. In the closet, in the halls, it comes awake and I can't control it. Hiding under the bed, in my body, in my head. Why won't somebody come and save me from this? Make it end!  I feel it deep within. It's just beneath the skin. I must confess that I feel like a monster. I hate what I've become! The nightmare's just begun. (...) My secret side I keep hid under lock and key. I keep it caged, but I can't control it, 'cause if I let him out he'll tear me up, break me down! (...) It's hiding in the dark. Its teeth are razor sharp. There's no escape for me. It wants my soul, it wants my heart! No one can hear me scream. Maybe it's just a dream or maybe it's inside of me. Stop this monster! (...)"

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Green Day: Bab's Uvula Who?

"I've got a knack for fucking everything up: my temper flies and I get myself all wound up. My fuse is short and my blood pressure is high: I lose control and I get myself all wound up. Tension mounts and I fly off the wall: I self-destruct and I get myself all wound up. Petulance and irritation set in: I throw a tantrum and I get myself all wound up. Bother myself, (...) little reserve, (...) loss of control and (...) all by myself (...). Chip on my shoulder and a leech on my back: stuck in a rut and I get myself all wound up. Killed my composure and it will never come back. (...) Blown out of proportion again: my temper snaps and I get myself all wound up. Spontaneous combustion, panic attack: I slipped a gear and I get myself all wound up. I lose myself and I'm all wound up. (...) I like myself and I'm all wound up. (...)"

quarta-feira, 14 de abril de 2010

percurso olfactivo

Conteúdo para Adultos


Conheço cada traço em ti, cada passo, cada gesto; mas ignoro o teu aroma. Inspiras-me profundamente o ódio e consegues repugnar-me a ponto de não querer chegar perto de ti: conhecer-te com o nariz assusta-me inteiramente, pois não quero quebrar a sólida ilusão feliz em que me encontro.O profundo cheiro de terra molhada, de folhas que escorrem gostas matinais, agrada-me. Ao sair de casa, essa é a primeira sensação que me invade felizmente. O cheiro a mofo dos carros, a fechado, asfixia-me então: é algo de que nunca gostei, pois dá-me sempre vómitos, ao fim de algum tempo. Sinto então o cheiro do cimento, do pó, que me repugna também, mas a procura pela paz interior é em mim incessável, o que me irrequieta.
Quando saio de um corredor sombrio, da morte, intolerável no que toca ao medo, que não se deixa intimidar pela mais corajosa alma, sinto o ar violar as minhas fossas nasais de forma delicada, como um sadomasoquismo. O cheiro do intocado, do ar puro da manhã (aquele cheiro a gelo!) acompanha-me durante algum tempo.
Chamam-me irrequieta quando me vêem, mas isso é porque a única coisa que é constante a partir do momento em que abandono as nuvens, passando a fazer do céu um conjunto de andares de betão, areia e tijolos, é a minha saudade do cheiro da manhã! A partir daí, tudo me sufoca numa tentativa esmagadora de me fazer sangrar, mas nenhum olfacto é agora igual: giz, suor, urina, excrementos, caspa, pó, mofo... não há um aroma que se repita: a única coisa que, de facto, se repete é o incómodo que a tua presença me traz, transformando as mais perfumadas flores em todos os diferentes tipos de odores de escumalha, numa ordem aleatória.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Three Days Grace: Animal I Have Become

"I can't escape this hell, so many times I've tried, but I'm still caged inside. Somebody get me through this nightmare. I can't control myself. So what if you can see the darkest side of me? No one would ever change this animal I have become. Help me believe it's not the real me. Somebody help me tame this animal. (...) I can't escape myself. So many times I've lied, but there's still rage inside. (...) Somebody wake me from this nightmare! (...)"

Linkin Park: One Step Closer

"I cannot take this anymore, saying everything I've said before. All these words they make no sense. I found bliss in ignorance. Less I hear the less you'll say. You'll find that out anyway. Just like before... Everything you say to me takes me one step closer to the edge and I'm about to break. I need a little room to breathe. (...) I find the answers aren't so clear. Wish I could find a way to disappear. All these thoughts they make no sense. (...) Nothing seems to go away, over and over again. (...) Shut up when I'm talking to you! (...)"