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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Hoje, vi-te.

Hoje vi-te.

Sentado, com um acompanhante que nunca foi nem será teu amigo, nem sequer te acompanhará em lado algum aonde queiras ir que aspire a felicidade. E, se pedires que vá contigo destruir-se, tampouco se importará.
Porque é assim que os teus relacionamentos funcionam. Não funcionando, não existindo. E, existindo, têm de terminar. Antes que realmente te afeiçoes à outra pessoa e isso te obrigue a pensar nas consequências dos teus atos - e, sobretudo, no impacto das tuas palavras.
Liberdade, chamas-lhe. Embora saibas, no fundo, que nunca conseguiste enganar ninguém - nem a mim, nem a ti.

Vi-te. Enrolavas mais uma bombinha durante a pausa para o único trabalho digno que alguma vez tiveste. Aquele que eu te arranjei, prolongando o meu próprio desemprego.
É uma boa forma de agradecimento. Pelo menos conseguiste mantê-lo ao longo destes meses. Sem ironia ou veneno, surpreendeste-me pela positiva.

Eu tagarelava sobre as minhas teorias da sexualidade com uma das alianças que reencontrei nesta vida, e que sei que me irá acompanhar nas próximas também. Os amigos não se fazem, reconhecem-se. Lembras-te? Eu reconheci-te, mas não como amigo.

Com certeza ouviste-me e preferiste disfarçar. Afinal, não querias de todo que o teu amigo se apercebesse também. Por algum motivo que, sinceramente, pouco me importa de todo.

Foi bom ver-te. Foi bom não conseguir sentir mais nenhum arrepio, aperto ou calor. Saber que a tua missão na minha vida ficou concluída.
E foi bom ter-te tido. Melhor ainda foi perder-te. Sei hoje que foste uma oportunidade última que tive de me amar a mim própria e de ser suficientemente corajosa para me libertar do que me provocava dor.

No fundo, agradeço-te. E grata estou por te ter visto hoje e confirmado que deixar-te foi a melhor decisão que fiz até hoje. A mais egoísta também. E foi graças a esse egoísmo que pude finalmente dizer: eu sou livre, e viver hoje uma felicidade para a qual eu nunca tinha estado preparada antes. Porque, antes de ti, não saberia disfrutá-la e preservá-la.

E, como sempre, concluí que o universo é perfeito. Afinal, não sabemos quem não somos até nos perdermos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A praia não se debruça sobre mim

     No parapeito sobre o qual me debruço estende-se toda a praia da minha vida. Lentamente esta tem decorrido, consoante aquilo a que todos parecem chamar de aspirações e barreiras. Por vezes, não sei se alguma é minha ou se em mim foram despojadas. Tudo o que sei limita-se àquilo que me foi sonhado em mãos fortes, embora delicadas.
    O Sol emerge do azul do aquário que reflete o oceano que sou. Exclama o meu nome e envia-me os seus filhos, que me convidam a dançar a coreografia que todos procuram nestes cenários limitados. Não o encontram e dizem-se insatisfeitos, adormecidos no materialismo que pretende alojar-se neles. Se ao menos eles, com os seus olhos, vissem o quadro que vejo! Certamente saberiam que a felicidade mortalmente eterna não está no que finda. Não procurariam, se não neles próprios, aquilo que mais ninguém lhes pode dar. Necessariamente, não se veriam sujeitos a aceitar a alegria pelas coisas que nem os honrados clássicos tinham.
     Neste quadro que a minha mente pinta, sei que são minhas as cores que o iluminam. O melhor de tudo: eu não as comprei, nem fabriquei a partir do que encontrei. Sobre este parapeito a que chamo vida debruço-me eu e voo acima daquilo que os outros não acreditam saber pular, porque eu vejo o que a minha imaginação sonha. E sou feliz.

domingo, 15 de janeiro de 2012

29. Carta à pessoa que queres contar tudo, mas estás demasiado receoso/receosa

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.


        O coração aperta e aquece todo o corpo. Lembra-me a sensação de estar apaixonada, mas, na verdade, talvez não seja por isso. A melancolia abala-me, e eu sei que algo está errado. Ou será que aperta porque, ao pensar no que me entristece, lembro-me do que sinto falta?
     Por vezes, confundo a realidade com a ficção. Imagino acontecimentos, personagens, e esqueço-me do que, de facto, acontece. Vivo a ficção que a minha imaginação produz e sinto-a como se fosse real. Igualmente, quando certos acontecimentos ocorrem na realidade, menosprezo-os e não os consigo sentir. Isso prejudica-me na realidade.
     Costumo sentir saudades de quando isto não acontecia -- dos tempos em que existia realidade, e só realidade, e eu era apenas prejudicada por estar nela. Mas isso, na verdade, nunca aconteceu. Eu sempre vivi a ficção e a realidade, e sempre confundi um e outro cenário. A diferença entre o passado e o presente (e esse? Existe?) é que agora eu tenho noção disto -- e outrora não. Agora eu consigo aperceber-me do que se passa comigo. Antigamente, eu poderia jurar que tudo aquilo era realidade -- e, para mim, era.
        Se, então, eu sei o que me está a acontecer e isso me prejudica, por que não o mudo? Eu já provei no passado ser capaz de alterar a ordem das coisas e, inclusivamente, mudar o meu comportamento, quando achava que o devia fazer. A grande oposição é: eu não sei se o quero fazer. Eu não quero trocar as cores de um mundo por um mundo que não me faz feliz.
        Eu não quero continuar no compromisso de atividades que não me dizem nada e que me fazem deixar para trás o que me faz deslizar de satisfação. Quero continuar a acordar todos os dias com a motivação de ser um novo dia, com oportunidades para fazer novas coisas, sem lamentar o frio que está lá fora ou as horas de sono que não dormi. Não quero continuar a acordar todos os dias e pensar que adorava não ter de sair da cama. Estou farta deste ritmo que o mundo me impõe, mas que em nada é meu. Quero partilhar com os outros as coisas que sei e, com os outros, aprender novas coisas. Quero continuar a escrever com a paixão de um amor gigante. Quero deixar de fazer batuques discretos com os meus dedos e tocar, efetivamente, um piano. Quero sujar as telas e as folhas com tintas e carvão. Quero viver com a pessoa que mais amo numa casa discreta no meio da floresta. Ultrapassar esta insetofobia que, irracionalmente, me bloqueia e voltar às raízes de toda a humanidade, à simplicidade tão pura e sincera que originou toda esta comunidade corrupta. Porque sim, eu encontrei alguém que me ama assim, com quem quero partilhar toda a minha vida. Alguém que não só conhece toda a minha estranheza, como também a acha bela. Tenho excelentes amigos, acredita, que também gostam de mim, assim como sou. Sempre duvidaste de haver por aí alguém que fosse, mas essa dúvida não era pelas outras pessoas, mas sim apenas tua. Tu nunca aceitaste os mais pequenos indícios da pessoa que eu poderia ser e nunca aceitarás que eu seja como sou. Nunca serás capaz de amar quem eu sou e, portanto, não compreendes como é possível que mais alguém o seja. Tens os olhos cheios de preconceitos que te impedem de ver para além do físico. Eliminas, logo à partida, qualquer hipótese de ser positivamente surpreendido.
       Gostava de ter o conforto monetário que me permitisse quebrar todas estas regras que me prendem a um mundo cheio de stress. Mas então surgem os meus conhecimentos de economia a relembrar-me de que o dinheiro não aparece, nem desaparece, apenas muda de local -- e que, para eu conseguir ter muito dinheiro e realizar estes meus sonhos, é preciso que, à minha conta, haja muitas pessoas que ficam longe de saber o que é sequer sonhar. E eu sei que, mesmo que eu não contribua para tal, há-de haver sempre alguém que o faça. Mas eu não quero ser essa pessoa. Não quero ser também culpada pelas injustiças que me revoltam. Não quero matar a beleza que encontrei dentro de mim.
       Mas eu sei que não sou a única a sentir estas coisas e a sonhar desta forma. Pelo contrário, tal como eu, há-de haver muita mais gente que, aparentemente, não tem nada de errado, mas que, no fundo, gostava de continuar a ser criança. Por que têm de ser as crianças sempre a única referência de quem corre, ri, brinca, festeja, é sincera e espontânea, canta e dança? Pois eu não quero crescer, não nesse aspeto, e deixar de ser feliz. E eu sei, eu tenho a certeza, que a maioria esmagadora das pessoas sente esta mesma insatisfação dentro de si. Por que, então, não nos unimos todos e nos revoltamos contra este mundo que corrompe as almas?

Soul Meets Body by ~CARUTOS on deviantART

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Aprendi que...

1) ...ninguém é perfeito, enquanto não nos apaixonarmos.

2) ...a vida é dura, mas nós somos mais do que ela.

3) ...as oportunidades nunca se perdem: aquelas que desperdiçamos são aproveitadas por outra pessoa.

4) ...quando nos preocupamos com rancores e amarguras, a felicidade vai para outro lado.

5) ...o sorriso é uma maneira económica de melhorar o nosso aspeto.

6) ...não posso escolher sempre como me sinto, mas posso escolher o que fazer, de modo a sentir-me como quero.

7) ...todos querem viver no topo da montanha, mas a felicidade está na escalada.

8) ...temos de aproveitar as viagens e não pensar apenas na chegada.

9) ...quanto menos tempo se desperdiça, mais coisas podemos fazer.

domingo, 6 de novembro de 2011

o crepitar de um novo começo

Nas poltronas escarlate, ouve-se o crepitar das labaredas a consumirem os troncos de uma antiga vida, uma vida verde e fresca. É assim que as árvores, na verdade, permanecem eternas: estando presentes, são verdes e frescas ou vermelhas, quentes e secas; ausentes, são desejadas e recordadas.
Aquecidos por aquela fonte de vida (natural, como não o podia deixar de ser, sendo vida), os pés daqueles jovens sentiam-se Reis modestos, que, sendo importantes, não se adornam luxuosamente. Os dele espreguiçavam-se em algodão cinzento, os dela preguiçavam em lã rosa claro, da clareza rosa do algodão doce, coberta de borbotos.
Um terceiro, o grande, rodopiava colheres de madeira em tachos e panelas de inox, fazendo dessa magia que liberta odores que fluem no ar e despertam o apetite a que se chama culinária.
- Martini ou Beirão? - Inquiriu, aproximando-se da única pessoa que apenas movia os dedos, ao virar as páginas de algum romance ou alguma novela.
- Nada, obrigado. Não bebo uísques. Ou melhor, não sou consumidor de bebidas alcoólicas.
- Que sujo que me sinto! - Disse, rindo. - Sou a única pessoa aqui que bebe.
Ela deixava a tinta jorrar ao som de Chopin, coordenada por pensamentos progressivamente organizados.
- O que estás a fazer, comilão anónimo? - Este, por sua vez, tentou esboçar oralmente palavras, mas foi impedido pelo recém condenado a bolo alimentar, o que os fez, a ela e ao seu amigo leitor, rir. - Como é que eu já sabia?!
- Conheces-me muito mal, tu - conseguiu finalmente professar. - Jardineira.
Menos concentrada, levantou os olhos dos manuscritos. O seu amigo também já não lia. Pelo contrário, olhava, abstrato, para a lareira. Imitando-o, conseguiu perceber a mensagem que o corpo feminino e curvado das chamas que dançavam cantava, compreendendo porque sorria vagamente, de satisfação. Ao sentir olhá-lo, suspirou como quem sai de um mergulho, continuando a sorrir, e retribuiu-lhe o olhar. Por sua vez, ela pegou na sua mão e prometeu-lhe, com um sorriso dos maiores que tinha:
- A tua vida nunca voltará a ser o que era, meu caro!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

cristalina sedução



Os seus pés caminhavam na diagonal, esperançosos de encontrar o motivo pelo qual o seu coração se atirava desmesuradamente contra a sua caixa torácica, num ritmo cada vez mais difícil de medir e impossível controlar. O suor das suas mãos era frio e transparecia a ansiedade que fazia o seu estômago contorcer-se e vibrar, qual arrepio profundo.
Estagnada no alto daquele lance de escadaria, ela sentiu o tempo parar por momentos, apenas para ela, num espaço que mais ninguém conseguiria presenciar, por mais que para tal se esforçasse: essa dinâmica metafísica que a fazia não sentir corpo e sentir só alma, uma alma de repente dormente após o alcance da sua frequência cardíaca máxima; esse segmento de reta que se debruçava dos seus olhos até a todo aquele corpo igualmente imobilizado, paralisado pelo aparecimento da surpresa por que esperara longos anos. Nessa pista que apenas nela, única corredora, ganhava formato, fez o seu corpo escorregar mais calmamente até à meta, onde largou o fôlego de uma vida esperançosa daquele repouso.
Despindo-se de tudo o que poderia colocar-se entre si e o seu prémio de consolação, pousou, qual pássaro fatigado, no calor do seio fraterno, cujo bafo se fazia sentir humidamente nos seus lábios. E, finalmente envolta pelos braços de um condutor que a protegia contra si carinhosamente, ela deixou a sua alma dançar ao ritmo da melodia que ambos compunham, demoradamente,  irresistivelmente.
A adoção do adagio enquanto ritmo mais expressivo da paz intensa que dos lábios humedecidos emanava, nada pacífico restando para as mãos, submersas à força a que não haviam resistido, revelou-se incapaz de saciar a reposição dos átomos que desempenhavam a função única de fazer cumprir as ordens que a mente havia deliberado, antes de adormecer em inconsciência aprazível. E foi assim que se deixaram subtilmente deslizar em larghissimo, coordenados inequivocamente em sintonia mística de origem desconhecida.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

28. Carta à pessoa que mudou a tua vida

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

Por vários motivos, que não competem a mais ninguém saber para além de ti.
Parabéns, meu amor, e que contes muitos mais, a meu lado e tão ou mais felizes como no tempo que temos atravessado.


«Words get trapped in my mind.
Sorry, I do not take the time to feel the way I do,
Because the first day you came into my life
My time ticks around you;

But then I need your voice,
As a key, to unlock all
The love that is trapped in me,
So, tell me when it is time
To say I love you.

All I want is you to understand
That when I take your hand
Is because I want to.
We are all born in a world of doubt,
But there is no doubt,
I figured out
I love you.

And I feel lonely for
All the losers that will never take the time to say
What was really on their mind. Instead,
They just hide away.

Yet, they will never have
Someone like you to guide them
And help along the way

Or tell them when it is time
To say I love you.
So, tell me when it is time
To say I love you

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

calor húmido

As harpas pararam de tocar, os anjos silenciaram-se e os pássaros recolheram-se para os seus abrigos, protegendo os seus filhos.
É noite e chove.
Em vez do habitual calor estival que seca quase excessivamente as fontes de vida, ouve-se apenas o tilintar de pérolas oxigenadas. As luzes brilham cada vez menos dentro das casas, ansiosas por uma pausa demorada.
Este é o único estado de tempo que quero que me reflicta, pelo menos em estado de humor: quente e húmido. Não quero estar excessivamente quente, ardentemente louca; não: não quero esbracejar-me em aflição por um galho mais fresco, para, em breve, partir. Também não quero regressar à gélida frieza que provoca o desejo de hibernar, esconder, refugiar - em solidão. Ambas as situações são pretéritos que eu quero manter perfeitos, esféricos - irrevogáveis.
Quero permanecer na delicadeza da humidade, na presença do calor. E, para não me abafar, quero não me esconder. Quero alongar esta doce melancolia e, ao observar o céu lá fora, sentir o calor dos teus braços envolverem-me o tronco, do teu peito contra mim e a humidade dos teus lábios nos meus; e saber que me abrigo em ti, naquele íntimo, por decisão nossa, sabendo, ao mesmo tempo, que poderemos depois esbracejar-nos ao sabor do vento, sem pressas nem contradições, olhando para um mundo que nos é exterior de cima.
E, sobretudo, ser impossível de conjugar este tempo sem ser num presente simultaneamente simples e contínuo, porque não só se repete como é sempre sem fim previsível, sem vez alguma ser algo meramente do futuro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Bon Jovi: What Do You Got?


«Everybody wants something,
Just a little more.
We are making a living
But what are we living for?

A rich man or a poor man,
A pawn or a king:
You can live on the street,
You can rule the whole world,
But you do not mean one damn thing.

What do you got, if you ain't got love?
Whatever you got, it just ain't enough
.
You are walking the road, but you are going nowhere.
You are trying to find your way home, but there is no one there.

Who do you hold
In the dark of night?
You want to give up,
But it is worth the fight:
You have all the things that you have been dreaming of.

If you ain't got someone,
You're afraid to lose.
Everybody needs just one,
Someone,
To tell them the truth.

Maybe I am a dreamer,
But I still believe:
I believe in hope,
I believe that change
Can get us off of our knees. (...)

If you ain't got love, it is all just keeping score.
If you ain't got love, what the hell we doing it for?

I do not want to have to talk about it.
How many songs have I got to sing about it?
How long are you going to live without it?
Why does some somewhere have to doubt it?
Someday you will figure it out. (...)»

sábado, 13 de agosto de 2011

1. Carta ao/à teu/tua melhor amigo/amiga (IV)

Em seguimento de 1. Carta ao/à teu/tua melhor amigo/amiga (III).

Ao fundo da rua que saía pela porta daquele espaço tão aberto e iluminadamente amarelo, avistou dois vultos masculinos e, esforçando-se por ver de quem se tratava, conseguiu distinguir um cabelo preto desalinhado e uma cabeça cor de trigo que o acompanhava, reluzindo às luzes do pôr do sol. Na esperança de serem os seus dois amigos dos arredores, chamou os seus nomes. Em cheio. Ambos se viraram para trás, procurando saber quem os chamava.
Filipe trazia, em contraste com o seu cabelo, uma larga camisola branca, com letras de um tom azul, agora parecendo esverdeado. Trazia a calma no rosto e a liberdade nas mãos. O mesmo já não se passava com Henrique, que, por detrás dos seus óculos de sol azuis-transparentes, dentro de uma camisola negra, parecia ansioso, com uma mão no bolso e a outra a passar frequentemente pelo cabelo louro espigado e a ajeitar as madeixas de franja para o lado, enquanto batia com o pé no chão.
- Chamaste?
- Sim. Vocês vão para casa?
- Bem... sim - disse-lhe, enquanto olhava para Filipe, com ar surpreso. Este, por sua vez, parecia compreender para além da pergunta banal, perscrutando o seu rosto com o sobrolho contraído.
- Perdeste o transporte?
Não queria, de todo, preocupá-lo, mas também não lhe podia mentir. Não queria empatá-lo nem pesar-lhe, mas precisava de admitir que necessitava da sua ajuda.
- Sim. Como é que se vai daqui para lá?
- Olha, vens connosco no autocarro e nós depois dizemos-te onde parar - Henrique continuava agitado, mas não parecia querer deixar aquele assunto pendente. - Temos é de nos apressar antes que o percamos.
- Não... Ela de autocarro gasta dinheiro e isso é mais um motivo para depois a chatearem. Ter perdido o transporte e vir de iniciativa própria com dois rapazes já são três motivos suficientemente pesados.
- Então e...? Como é que depois...?
- Estás parvo!? Achas mesmo que eu vou pôr uma gaja qualquer à frente duma amiga?
- Olha, Filipe, eu agradeço a tua ajuda, mas s...
Filipe pegou-a pela mão, puxou-a até si e cercou-lhe os ombros com o seu braço:
- Embora daí.
- Então e essa rapariga?
- Não é nada melhor do que tu - disse-lhe, num sorriso. - Pode esperar.
Naquelas tonalidades de azul e laranja que manchavam as minuciosas folhas verdes que os rodeavam, ela viu duas sombras vultuosas de homens que a acompanhariam por toda a vida e sentiu que, por mais rejeições amorosas que viesse a ter, seria sempre feliz, por ter o que ela considerava os melhores amigos do mundo.
Enquanto ela lhe atirava um aceno de despedida, ele ouviu as suas solas rangerem no chão poeirento e sinuoso que ambos pisavam. E, na queda do calor, ele sentiu que ela partia... e que dificilmente voltaria.

Nostalgic Moment by *Dance0927 on deviantART

Para ti e para o teu fascínio pessoal por casos entre professores e alunos. Espero que tenhas gostado.
Feliz aniversário!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Alicia Keys: If I Ain't Got You

Para a minha Diana, por ser a melhor amiga que alguém pode ter.



«Some people live for the fortune. Some people live just for the fame. Some people live for the power, yeah. Some people live just to play the game.
Some people think that the physical things define what is within and I have been there before, but that life is a bore - so full of the superficial!
Some people want it all, but I do not want nothing at all if it ain't you, baby, if I ain't got you, baby.
Some people want diamond rings, some just want everything, but everything means nothing if I ain't got you, yeah.
Some people search for a fountain that promises forever young. Some people need three dozen roses and that is the only way to prove you love them. Hand me the world on a silver platter and what good would it be with no one to share, no one who truly cared for me? (...)
Nothing in this whole wide world do not mean a thing if I ain't got you with me, baby!»

domingo, 19 de junho de 2011

Igreja Católica: a assassina do amor, da tolerância e do respeito

«¿Sabe lo que no es normal? ¿Usted quiere que le diga lo que no es normal? No es normal pensar que hacer el amor es pecado. No es normal pensar que Dios no quiere a las lesbianas y los homosexuales. No es normal que la iglesia oculte abusos de niños. Ni que los sacerdotes no se puedan casar. No es normal la riqueza del Vaticano, ni los anillos, ni el oro, ni el dinero tirado en campañas de publicidad y todo ese beato absurdo mientras 30 millones de personas se contagian de Sida en África por no usar preservativo. Señores, Dios no hizo con dos brazos, y con dos piernas. Y también nos hizo con la capacidad de amar, de querernos, de tocarnos, de sentir con la yema de los dedos un pulso acelerado por la excitación. Y eso, señores, eso... eso no puede ser pecado.»

domingo, 15 de maio de 2011

auto-estima: o primeiro passo para a felicidade

Breathe... by =Sugarock99 on deviantART

Não adianta o mundo inteiro reverenciá-lo, se ao olhar para o espelho você não respeita o que vê.
 Fábio Hernandez

domingo, 20 de março de 2011

o mais audível grito

Dance by *kittynn
Encontramo-nos frequentemente, mas não nos conhecemos. Ou aliás, talvez ela me conheça, mas eu não a conheço, não sei quem ela é, o que quer de mim, por que me persegue ela ou quando há-de ela aparecer para ficar.
Estou cansada desta luz ténue que ilumina os meus dias enquanto ser que desconhece a morte.
Estou cansada de me enclausurar dentro da minha própria alcova e de ter receio de derrubar alguma coisa se a quiser abrir de vez. Está na altura de decidir entre ter precaução com a forma como a abro para não magoar os outros, não conseguindo passar por esta fresta estreita, e importar-me com a minha libertação e abri-la de rompante, com todas as forças que tenho, duma vez por todas.
Chega de janelas pequenas e lâmpadas de curta voltagem! Vou abrir as largas janelas que tenho no meu quarto, puxar as cortinas para o lado, arrancar os estores e deixar que o Sol fortaleça as células que me constituem e afogue as minhas mágoas com a sua luz! E, pronta para te receber, felicidade, chamar-te-ei o mais audível que as minhas cordas vocais e o meu diafragma me permitirem, para que saibas que nunca mais te vou deixar!


Do not be scared to fly alone. Find a path that is your own. (...)
What are you waiting for? Spread your wings and soar! (Christina Aguilera)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

o caminho correcto

As nossas esperanças sobre o estado futuro da espécie humana reduzem-se a estes três pontos: a destruição da desigualdade entre as nações, os progressos da igualdade num mesmo povo, enfim, o aperfeiçoamento real do Homem.
Chegará assim o momento em que o Sol iluminará sobre a Terra homens livres, não reconhecendo outro mestre além da sua Razão.

 Condorcet; Quadro dos Progressos do Espírito Humano

segunda-feira, 5 de abril de 2010

consciência perfeita da felicidade superior imperfeita

Ora, é um facto incontestável que aqueles que têm um conhecimento igual e uma capacidade igual de apreciar e de gozar, dão uma decidida preferência ao estilo de vida que emprega as suas mais altas faculdades. Poucas criaturas humanas consentiriam em que as convertessem nalgum dos animais inferiores, a troco da promessa de um gozo pleno de todos os prazeres bestiais; nenhum ser humano inteligente consentiria em ser um louco, nenhuma pessoa culta em ser ignorante, nenhuma pessoa com sentimentos e consciência em ser egoísta e vil, mesmo que pudessem ser persuadidos de que o louco, o ignorante ou o velhaco estão mais satisfeitos com a sua sorte do que eles com a deles. Não quereriam abdicar do que possuem de superior, em troca da mais completa satisfação de todos os desejos que têm em comum com eles. Se alguma vez imaginassem querê-lo, seria em casos de uma infelicidade tão extrema que, para lhe escaparem, trocariam a sua sorte pela de qualquer outro, por muito indesejável que lhes parecesse. Um ser dotado de faculdades mais elevadas necessita mais para se sentir feliz, é provavelmente mais susceptível de um sofrimento mais agudo, e, com toda a certeza, em mais larga medida vulnerável a esse sofrimento, do que um de tipo inferior; mas, a despeito de todas estas desvantagens, nunca pode desejar verdadeiramente afundar-se no que ele sabe ser um grau inferior da existência. Podemos dar a explicação, que quisermos, desta repulsa; poderemos atribuí-la ao orgulho, nome que se aplica sem qualquer discernimento aos sentimentos mais estimáveis e a alguns dos menos estimáveis de que a humanidade é capaz; poderemos relacioná-la com o amor à liberdade e independência pessoal, que foi entre os Estóicos um dos meios mais eficazes para inculcá-la; ou com o amor ao poder, ou com o amor à excitação, que realmente contribuem para ela e dela fazem parte; mas o que mais apropriadamente podemos ver nela é um sentido de dignidade que, de uma forma ou doutra, todos os seres humanos possuem, não com as suas faculdades mais elevadas, constituindo uma parte tão essencial da felicidade daqueles em quem é forte, que nada que com ela colida pode para eles constituir, a não ser momentaneamente, objecto de desejo. Quem supõe que esta preferência implica um sacrifício da felicidade - que, em circunstâncias proporcionalmente idênticas, o ser superior não é mais feliz do que o inferior -, está a confundir as ideias, bem distintas, de felicidade e de satisfação- É indiscutível que um ser, cuja capacidade de gozar é baixa, tem maiores possibilidades de satisfazê-la totalmente; e que um ser altamente dotado sempre sentirá que, tal como o mundo se encontra constituído, toda a felicidade a que pode aspirar será imperfeita. Mas pode aprender a suportar as suas imperfeições, se de algum modo são suportáveis; e estas não o farão invejar aquele que é de facto inconsciente delas, a não ser que também não se aperceba do bem que essas imperfeições afectam. É melhor sr um homem insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um louco satisfeito. E se o louco, ou o porco, são de opinião diferente, é porque apenas conhecem o seu próprio lado da questão. Os outros, com quem os comparámos, conhecem ambos os lados.
Poderia objectar-se que muitos que são capazes dos prazeres superiores, por vezes, sob a influência da tentação, os pospõem aos inferiores. Mas isto é perfeitamente compatível com uma apreciação total da superioridade intrínseca do prazer mais elevado. Por debilidade de carácter, muitas vezes os homens se decidem pelo bem mais fácil, embora o saibam menos valioso; e isto tanto quando a escolha se faz entre dois prazeres corporais, como quando se faz entre o corporal e o espiritual. Buscam o gozo sensual que prejudica a saúde, embora saibam perfeitamente que a saúde é o maior bem. Poderia ainda objectar-se que muitos que começam por entregar-se com entusiasmo juvenil a tudo o que é nobre, à medida que avançam em idade caem na indolência e no egoísmo. Mas não creio que os que passam por esta vulgar transformação escolham voluntariamente a mais baixa classe dos prazeres, de preferência à mais elevada. Acredito que, antes de se entregarem exclusivamente a uns, já se tinham tornado incapazes dos outros. A capacidade para os sentimentos mais nobres é, em muitas naturezas, uma planta muito tenra, que morre facilmente, não só por influências hostis, como pela simples falta de alimento; e na maioria das pessoas jovens extingue-se subitamente se as ocupações a que a sua situação na vida as obriga, ou o meio social em que as lança, não permitem o exercício dessa alta capacidade. Os homens perdem as suas aspirações mais elevadas, tal como perdem a sua finura intelectual, porque não dispõem de tempo ou de oportunidade para as cultivarem; e entregam-se aos prazeres inferiores, não porque deliberadamente os prefiram, mas porque são os únicos a que têm acesso, ou os únicos que podem gozar por mais tempo. Poderia perguntar-se se alguém que tenha estado igualmente próximo de ambas as classes de prazeres, alguma vez preferiu serena e conscientemente a inferior; se bem que muitos, de todas as idades, se tenham consumido no intento inútil de combinar as duas.
Mill, John Stuart; Utilitarismo; Atlântica Editora; 1976; Coimbra, 2.ª Edição

segunda-feira, 29 de março de 2010

A ilusão da inocência feliz

"A inocência é uma coisa admirável; mas é por outro lado muito triste que ela se possa preservar tão mal e se deixe tão facilmente seduzir. E é por isso que a própria sageza - que de resto consiste mais em fazer ou não fazer do que em saber - precisa também da ciência, não para aprender dela, mas para assegurar às suas prescrições entrada nas almas e para lhes dar estabilidade. O homem sente em si mesmo um forte contrapeso contra todos os mandamentos do dever que a razão lhe representa como tão dignos de respeito: são as suas necessidades e inclinações, cuja total satisfação ele resume sob o nome de felicidade. Ora a razão impõe as suas prescrições, sem nada aliás prometer às inclinações, irremitentemente, e também como que com desprezo e menoscabo daquelas pretensões tão tumultuosas e aparentemente tão justificadas (e que se não querem deixar eliminar por qualquer ordem). Daqui nasce uma dialéctica natural, quer dizer uma tendência para opor arrazoados e subtilezas às leis severas do dever, para pôr em dúvida a sua validade ou pelo menos a sua pureza e o seu rigor e para as fazer mais conforme, se possível, aos nossos desejos e inclinações, isto é, no fundo, para corrompê-las e despojá-las de toda a sua dignidade, o que a própria razão prática vulgar acabará por condenar. (...)
Mas infelizmente o conceito de felicidade é tão indeterminado que, se bem que todo o homem a deseja alcançar, ele nunca pode dizer ao certo e de acordo consigo mesmo o que é que propriamente deseja e quer. A causa disto é que todos os elementos que pertencem ao conceito de felicidade são na sua totalidade empíricos, quer dizer têm que ser tirados da experiência, e que portanto para a ideia de felicidade é necessário um todo absoluto, um máximo de bem-estar, no meu estado presente e em todo o futuro. Ora é impossível que um ser, mesmo o mais perspicaz e simultaneamente o mais poderoso, mais finito, possa fazer ideia exacta daquilo que aqui quer propriamente."

Kant, Immanuel; Fundamentação da Metafísica dos Costumes; Edições 70, Lda.; 1997; Lisboa