Hoje vi-te.
Sentado, com um acompanhante que nunca foi nem será teu amigo, nem sequer te acompanhará em lado algum aonde queiras ir que aspire a felicidade. E, se pedires que vá contigo destruir-se, tampouco se importará.
Porque é assim que os teus relacionamentos funcionam. Não funcionando, não existindo. E, existindo, têm de terminar. Antes que realmente te afeiçoes à outra pessoa e isso te obrigue a pensar nas consequências dos teus atos - e, sobretudo, no impacto das tuas palavras.
Liberdade, chamas-lhe. Embora saibas, no fundo, que nunca conseguiste enganar ninguém - nem a mim, nem a ti.
Vi-te. Enrolavas mais uma bombinha durante a pausa para o único trabalho digno que alguma vez tiveste. Aquele que eu te arranjei, prolongando o meu próprio desemprego.
É uma boa forma de agradecimento. Pelo menos conseguiste mantê-lo ao longo destes meses. Sem ironia ou veneno, surpreendeste-me pela positiva.
Eu tagarelava sobre as minhas teorias da sexualidade com uma das alianças que reencontrei nesta vida, e que sei que me irá acompanhar nas próximas também. Os amigos não se fazem, reconhecem-se. Lembras-te? Eu reconheci-te, mas não como amigo.
Com certeza ouviste-me e preferiste disfarçar. Afinal, não querias de todo que o teu amigo se apercebesse também. Por algum motivo que, sinceramente, pouco me importa de todo.
Foi bom ver-te. Foi bom não conseguir sentir mais nenhum arrepio, aperto ou calor. Saber que a tua missão na minha vida ficou concluída.
E foi bom ter-te tido. Melhor ainda foi perder-te. Sei hoje que foste uma oportunidade última que tive de me amar a mim própria e de ser suficientemente corajosa para me libertar do que me provocava dor.
No fundo, agradeço-te. E grata estou por te ter visto hoje e confirmado que deixar-te foi a melhor decisão que fiz até hoje. A mais egoísta também. E foi graças a esse egoísmo que pude finalmente dizer: eu sou livre, e viver hoje uma felicidade para a qual eu nunca tinha estado preparada antes. Porque, antes de ti, não saberia disfrutá-la e preservá-la.
E, como sempre, concluí que o universo é perfeito. Afinal, não sabemos quem não somos até nos perdermos.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
utopia, perfeição, tédio
Não consigo mais. Cheguei ao meu limite de compreensão. Não sei o que vem à frente -- e, sinceramente não sei como descobri-lo, mas também desconheço o interesse que isso pode ter.
O ceticismo instalado em mim leva-me a crer que cheguei ao fim deste caminho. Não acredito que haja algo mais aqui. Tudo vem e me atravessa, não me marcando minimamente. E isto não pode ser problema meu, não: a minha indiferença em relação a este espaço deve-se à sua impossibilidade de progresso e à inexistência de uma margem de melhoria. A única forma de voltar a descobrir, de continuar, é livrar-me desta barreira, virando ao lado, desistindo -- porque nada está por detrás dela.
Nunca pensei que a perfeição na concretização de uma utopia pudesse ser tão vazia.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
batimentos de um soldado cansado
A gargalhada que ecoa nas paredes trespassadas. O azul do sabor que deixou de pensar. A apatia consequente do cansaço do entender. Ou que nunca o chegou a fazer.
Fartou-se de se abster, derrubou as muralhas que a razão construiu e desmoronou o controlo em que a felicidade dançava e esvoaçava. Riu-se do meu esforço, antecipando a sua vitória. Dementemente, espezinhou a realização de uma vida e corrompeu a força de vontade: dela zombou e contra ela atentou. Gloriosamente, deleitou o seu corpo ganancioso na plenitude do meu ser, confiante da indistinção entre uma batalha e uma guerra.
Mas essa? Essa não terminou. Nem terminará enquanto o vermelho correr qual atleta pelas cavidades do meu moribundo coração.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
musa fugitiva
Liquidificou-se nas minhas mãos, escorregou por entre os meus dedos, evaporou-se no chão.
Fugiu de mim sem que eu a pudesse segurar no peito e enamorar.
Tal como uma avalanche que engole toda a excitação da alma, que faz os dedos fraquejar de tanto prazer.
Que nem uma dançarina, cujos movimentos corporais hipnotizam uma mente cientificamente devassa, brincou com os meus pensamentos e agitou as células do meu ser. Apagou a sua presença em mim e esvoaçou em lenços de seda por entre os seus longos cabelos serpenteados.
Tal qual uma onda que vai crescendo à medida que se aproxima da costa e, ao chegar até mim, se dissolve.
Fugiu de mim sem que eu a pudesse segurar no peito e enamorar.
Tal como uma avalanche que engole toda a excitação da alma, que faz os dedos fraquejar de tanto prazer.
Que nem uma dançarina, cujos movimentos corporais hipnotizam uma mente cientificamente devassa, brincou com os meus pensamentos e agitou as células do meu ser. Apagou a sua presença em mim e esvoaçou em lenços de seda por entre os seus longos cabelos serpenteados.
Tal qual uma onda que vai crescendo à medida que se aproxima da costa e, ao chegar até mim, se dissolve.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
degradante
Há dias em que não nos apetece comer, falar ou ouvir seja o que for. Dias em que nos levantamos da cama sem saber bem porquê e nos dirigimos à cozinha para comer sabe-se lá o quê. Talvez por hábito, nos encaminhemos a estes sítios e façamos estas coisas. Não é plenamente deliberado e quase, até, involuntário.
Raquel estava num desses dias. Não sabia o que fazer, agora que se tinha levantado da cama por achar que já era tarde: se tomar o pequeno almoço, se tomar um duche. Ambas as ações lhe pareciam inúteis.
"Talvez deva ir comer primeiro, antes que se faça tarde", pensou. Mas tarde para quê? Estava de férias, a casa estava limpa, as tigelas do Rufus com bom aspecto e não tinha compromissos a cumprir. Os amigos haviam todos casado e pareciam-lhe felizes, entre o cansaço do trabalho e o consolo nos seus amados.
"Mas que raio é que eu vou comer a uma hora destas?", resmungou mentalmente. "Daqui a nada são horas de almoço", mas, mais profundamente, perguntava-se se toda aquela disciplina e aquela ordem fariam sentido.
Enquanto esperava o pão acabar de torrar, observava a sua mesa familiar em xadrez vermelho e amarelo. Em tempos, desejara que findassem todas aquelas ridículas e diárias discussões que não a permitiam concentrar-se no trabalho nem descansar em casa. Agora, plena, limpa e arrumada, aquela mesa, aquela cozinha, aquela casa, aquela vida... tudo lhe parecia inexo.
- Come a torrada e cala-te, mas é - ordenou ao seu próprio pensamento. - Reclamas de mais, não sabes olhar para o que tens de bom à tua volta.
No entanto, imediatamente olhou para a sua volta e viu-se repleta de um imenso vazio. Ter uma casa confortável e recheada não era bom, era agradável. Era agradável viver materialmente bem, mas isso não era, de longe, ser feliz. Os objetos não valem sozinhos, têm o valor que lhes é atribuído. E, sem o coração cheio, nem os objetos têm valor. Aliás, estes são os primeiros a deixar de o ter. Uma demonstração prática estava mesmo à sua frente, ou, mais exatamente, nas suas mãos. A manteiga da torrada não tinha sabor, porque a sua mente carecia de sal.
Dois comprimidos jaziam na sua frente, um branco e um amarelo. Frustrava-a saber que dependia de medicação, de drogas, para poder ter um comportamento minimamente razoável. Custava-lhe, por um lado, reconhecer que, sem a medicação, estava doente; por outro, custava-lhe igualmente reconhecer que só estava normal porque estava doente. Isso fazia-a sentir mal quer naturalmente, quer sob o efeito de drogas. Não suportava, ainda, a ideia de lhe ser reconhecida a revolta, os ideais e a força de vontade por doença. Não aguentava a ideia de os seus alunos ou os seus colegas alguma vez virem a pensar que, afinal, era assim tão autónoma e tão independente apenas por causa do seu estado de saúde. Por isso, enfiava aquelamerda medicação esófago abaixo e concluía:
- Sou doente.
Raquel estava num desses dias. Não sabia o que fazer, agora que se tinha levantado da cama por achar que já era tarde: se tomar o pequeno almoço, se tomar um duche. Ambas as ações lhe pareciam inúteis.
"Talvez deva ir comer primeiro, antes que se faça tarde", pensou. Mas tarde para quê? Estava de férias, a casa estava limpa, as tigelas do Rufus com bom aspecto e não tinha compromissos a cumprir. Os amigos haviam todos casado e pareciam-lhe felizes, entre o cansaço do trabalho e o consolo nos seus amados.
"Mas que raio é que eu vou comer a uma hora destas?", resmungou mentalmente. "Daqui a nada são horas de almoço", mas, mais profundamente, perguntava-se se toda aquela disciplina e aquela ordem fariam sentido.
Enquanto esperava o pão acabar de torrar, observava a sua mesa familiar em xadrez vermelho e amarelo. Em tempos, desejara que findassem todas aquelas ridículas e diárias discussões que não a permitiam concentrar-se no trabalho nem descansar em casa. Agora, plena, limpa e arrumada, aquela mesa, aquela cozinha, aquela casa, aquela vida... tudo lhe parecia inexo.
- Come a torrada e cala-te, mas é - ordenou ao seu próprio pensamento. - Reclamas de mais, não sabes olhar para o que tens de bom à tua volta.
No entanto, imediatamente olhou para a sua volta e viu-se repleta de um imenso vazio. Ter uma casa confortável e recheada não era bom, era agradável. Era agradável viver materialmente bem, mas isso não era, de longe, ser feliz. Os objetos não valem sozinhos, têm o valor que lhes é atribuído. E, sem o coração cheio, nem os objetos têm valor. Aliás, estes são os primeiros a deixar de o ter. Uma demonstração prática estava mesmo à sua frente, ou, mais exatamente, nas suas mãos. A manteiga da torrada não tinha sabor, porque a sua mente carecia de sal.
Dois comprimidos jaziam na sua frente, um branco e um amarelo. Frustrava-a saber que dependia de medicação, de drogas, para poder ter um comportamento minimamente razoável. Custava-lhe, por um lado, reconhecer que, sem a medicação, estava doente; por outro, custava-lhe igualmente reconhecer que só estava normal porque estava doente. Isso fazia-a sentir mal quer naturalmente, quer sob o efeito de drogas. Não suportava, ainda, a ideia de lhe ser reconhecida a revolta, os ideais e a força de vontade por doença. Não aguentava a ideia de os seus alunos ou os seus colegas alguma vez virem a pensar que, afinal, era assim tão autónoma e tão independente apenas por causa do seu estado de saúde. Por isso, enfiava aquela
- Sou doente.
| Smoke. by ~Essz on deviantART |
domingo, 27 de fevereiro de 2011
desmotivação irracional
Há algumas horas que pousam na minha secretária uns quantos livros, que no computador estão janelas abertas e que algumas folhas pairam por aí. Diz um cabeçalho Sessentas Estrangeirados, mas os meus olhos desviam-se. Diz outro Ética Sofistica: o papel educativo da relativização dos valores. Mas não é de política, nem de bem, nem de Sócrates, nem de Cálicles, nem do liberalismo em Portugal, nem de estatística, nem de métodos eleitorais, nem de probabilidades que quero falar. Aliás, não quero falar. Sinto a saudade do teu abraço ao abrigo das árvores frescas de primavera e o único desejo que tenho é de correr para os seus braços, chorar no seu ombro e rogar-lhe que não vá embora. Mas não consigo arrepender-me do que disse, por mais que a estime, porque sei que estou certa.
Por isso, vou tomar banho. Talvez me passe a sensibilidade e me concentre na Razão, porque só ela me dá bons conselhos. E porque preciso de trabalhar e não me quero ir abaixo.
Por que raio arranjo sempre um motivo para ficar não feliz quando pareço estar bem?
Por isso, vou tomar banho. Talvez me passe a sensibilidade e me concentre na Razão, porque só ela me dá bons conselhos. E porque preciso de trabalhar e não me quero ir abaixo.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
moribunda
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Na rua há um túnel e nesse túnel há um sofá. O meu tronco sente-se recostado nesse sofá sem fundo. O meu braço esquerdo descansa sobre a minha perna esquerda, pendurada no braço do sofá, enquanto que o meu braço direito, mole, prepara-se para se deslocar do ombro e cair no chão, assim como a minha perna direita, que pousa sobre cimento. Dois olhos escuros absorvem todas as cores e transformam-nas em dor, enquanto que o meu nariz se entope com o meu próprio mau cheiro. Os meus lábios cansaram-se de tentar fechar e a minha garganta espera secar.
- O que aconteceu?
As pessoas são estúpidas, ignorantes, idiotas. Óbvio que o meu cérebro sofreu de sobrecarga e explodiu, deixando-me nesta apatia. Não se preocupem, simplesmente fartei-me da dor e da coragem, do problema e da procura da solução. O meu coração bate lentamente... e eu pergunto-me: para quê continuar?
Vai-te embora, sentimento! Não te quero, felicidade, não suporto ilusões e traições! Simplesmente deixem-me morrer para aí num canto.
Deixem-me em paz!
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Anónimo
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