Hoje vi-te.
Sentado, com um acompanhante que nunca foi nem será teu amigo, nem sequer te acompanhará em lado algum aonde queiras ir que aspire a felicidade. E, se pedires que vá contigo destruir-se, tampouco se importará.
Porque é assim que os teus relacionamentos funcionam. Não funcionando, não existindo. E, existindo, têm de terminar. Antes que realmente te afeiçoes à outra pessoa e isso te obrigue a pensar nas consequências dos teus atos - e, sobretudo, no impacto das tuas palavras.
Liberdade, chamas-lhe. Embora saibas, no fundo, que nunca conseguiste enganar ninguém - nem a mim, nem a ti.
Vi-te. Enrolavas mais uma bombinha durante a pausa para o único trabalho digno que alguma vez tiveste. Aquele que eu te arranjei, prolongando o meu próprio desemprego.
É uma boa forma de agradecimento. Pelo menos conseguiste mantê-lo ao longo destes meses. Sem ironia ou veneno, surpreendeste-me pela positiva.
Eu tagarelava sobre as minhas teorias da sexualidade com uma das alianças que reencontrei nesta vida, e que sei que me irá acompanhar nas próximas também. Os amigos não se fazem, reconhecem-se. Lembras-te? Eu reconheci-te, mas não como amigo.
Com certeza ouviste-me e preferiste disfarçar. Afinal, não querias de todo que o teu amigo se apercebesse também. Por algum motivo que, sinceramente, pouco me importa de todo.
Foi bom ver-te. Foi bom não conseguir sentir mais nenhum arrepio, aperto ou calor. Saber que a tua missão na minha vida ficou concluída.
E foi bom ter-te tido. Melhor ainda foi perder-te. Sei hoje que foste uma oportunidade última que tive de me amar a mim própria e de ser suficientemente corajosa para me libertar do que me provocava dor.
No fundo, agradeço-te. E grata estou por te ter visto hoje e confirmado que deixar-te foi a melhor decisão que fiz até hoje. A mais egoísta também. E foi graças a esse egoísmo que pude finalmente dizer: eu sou livre, e viver hoje uma felicidade para a qual eu nunca tinha estado preparada antes. Porque, antes de ti, não saberia disfrutá-la e preservá-la.
E, como sempre, concluí que o universo é perfeito. Afinal, não sabemos quem não somos até nos perdermos.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
domingo, 8 de janeiro de 2012
A Filha do Rei II
Em continuação d'A filha do Rei I.
Não. Constança não era assim. Constança achava que a janela através da qual tinha vista para a origem da vida era a moldura mais bela que alguém poderia ostentar e, por isso, orgulhava-se em tê-la no seu quarto, a um metro da sua cama. Era-lhe sempre agradável não seguir os conselhos de Haleema, a aia de quem era mais próxima, e dormir de janela aberta. Quando a vinham chamar para a acordarem, já os galos tinham ajudado o vento a acordar Constança. Aquela brisa sempre fresca no seu rosto fazia-a inspirar fundo assim que abria os olhos e encarava um Sol tímido por detrás do habitual nevoeiro. Imediatamente, libertava um pequeno sorriso e esticava os braços, de punhos fechados, salientando o seu peito, como que numa exibição de recompensa à Natureza pelo bem estar provocado. De seguida, levantava o tronco e ficava, naquela tranquilidade matinal, a observar o mais real quadro que alguma vez tinha visto, deixando que a pureza dos campos a fortalecessem. Por vezes, ficava a ver os tecidos da sua cama de dossel voarem em coreografias místicas, em tons de azul, cinzento e branco.
Acordar tão cedo quanto o Sol é que não era duma princesa, por isso sempre esticava os cobertores da cama, vestia uma capa quente, puxava o cabelo para o lado, saía do quarto, fechava cuidadosamente a porta de madeira e descia, sorrateiramente, a escadaria de pedra, para que não se apercebessem de estar a tomar a iniciativa de fazer o que uma pessoa ordinária faria, não tendo o seu estatuto. Constança achava que a única coisa extraordinária ali era a porcaria do estatuto, que lhe fora conferido sem ela ter responsabilidade de tal. Por isso, agia consoante o que queria e desejava, tanto às claras, como às escondidas. Ao chegar a cada piso de baixo tinha de se esconder e potencializar a sua audição e a sua visão, a fim de encontrar algum guarda sonolento que rondasse o castelo, mandado pela mãe, à procura da rebeldia da filha. Dulce chegara a ordenar a um guarda que ficasse de plantão no exterior da porta do quarto da filha, mas este, ao segurar Constança, levara um murro na cara, que lhe partira dois dentes da frente, e uma forte joelhada na zona sensível. D.ª Dulce Berenguer de Barcelona, como assim era chamada a mulher que lhe tinha dado a vida, mas não o leite, chegou a discutir consigo, mas sentiu-se mais intimidada do que a filha, que lhe apontou o indicador e jurou não deixar que a inibissem a esse ponto.
Ao chegar ao rés-do-chão, caminhava apressadamente para a porta da cozinha, no fundo da divisão. As cozinheiras sentiam-se embaraçadas, largavam prontamente tudo o que tinham nas mãos, fechavam-nas no colo e baixavam as cabeças. Inicialmente, Constança tentava deixá-las mais à vontade, mas ao ver que eram as próprias criadas que persistiam em se autodiscriminar, não lhes dava importância e seguia o seu caminho, pela porta das traseiras. Aí, sentava-se no degrau que havia antes de pisar a terra relvada e contemplava o trabalho dos humildes senhores que só não estavam no seu lugar pelo azar de terem nascido das mulheres erradas, que lhes tinham dado a vida e o leite. Um moço, de calças arregaçadas e roupas encardidas pelo tempo, logo aparecia, com um balde com água. Era Martim, o filho do padeiro, e sempre lhe tinham encarregue o transporte dos alimentos. Tinham-se conhecido numa das vezes em que Constança agredira Afonso, por este ridicularizar os agricultores. Martim estava a par dos rumores e do pânico que a filha do Rei causava e ficava curioso de a ver. Constança tinha sido puxada pelo braço até à cozinha por uma das aias, que a repreendeu por agir como uma vândala. Assim que a aia saiu, Constança deitou-lhe a língua de fora e cruzou os braços, só os tendo descruzado para ir ter com Martim, escondido fora da porta, que a chamou e lhe disse que ela era um máximo. Desde então, tornaram-se grandes cúmplices e criaram um laço muito forte e um dos mais raros da Corte, a que Constança chamava de verdadeira amizade. E ali estava ele, sempre disposto a trazer-lhe a água que Constança agradeceria com um sorriso e um piscar do olho direito e levaria para o seu quarto, onde se lavaria e vestiria um dos seus vestidos.
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domingo, 13 de novembro de 2011
26. Carta a alguém que te inspira
Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.
Olá, professor.
Talvez ache estranhas as palavras que escrevo, ou melhor: o facto de as escrever. Ou talvez mesmo até não, devido à sua capacidade para compreender as pessoas, por mais reservadas que sejam.
Não é meu intuito mostrar aqui os meus "dotes" literários, apenas considerei importante que tenha (re)conhecimento de algumas coisas. Algumas pessoas merecem-no e o professor é, de facto, uma delas.
É-o porque conseguiu ser mais do que um professor: conseguiu ser um bom amigo. Bom, porque conseguiu fazer-nos "acordar" para fatores importantes que muitos de nós ignorava inconscientemente, e amigo porque se preocupou connosco e insistiu em fazê-lo, não tendo sido obrigado a tal.
Hoje, quase dois anos depois de ter sido lecionada por si, vejo várias diferenças - não só em mim própria como também nos restantes membros da turma. Parece-me quase incrível que pessoas outrora tão fúteis, despreocupadas com os problemas que os envolvem, sentimentais, muito influenciáveis e interesseiras (no sentido egoísta da palavra) se mostrem hoje indignadas com a futilidade e a despreocupação dos outros e, recusando-se a aceitar o que não acham correto e reivindicando os direitos que têm, lutem contra o desrespeito. Se, por um lado, é verdade que os adolescentes estão em constante mutação e por isso não é tão surpreendente quanto isso que evoluam, por outro lado, não é muito comum que um adolescente evolua tanto em tão pouco tempo. Mais verdade do que isto é que, apesar de terem sido condicionados por vários fatores, quer internos quer externos, eles foram imensamente condicionados por si. Por isso, se hoje são tão conscientes (sendo isso algo extremamente importante), devem-no imensamente a si, estando-lhe muito gratos, como já o declararam (não tanto com o seu conhecimento, tanto quanto sei) várias vezes.
Bem, parece que falo deles como se eu já estivesse muito bem e eles é que estavam mal e ficaram bem... Não. Mas isso talvez também o professor já saiba... embora me tenha espantado como é que um professor de Filosofia me dá aulas durante mais dum ano e fica surpreendido por saber que a minha ambição... digamos, mais material é ser professora da mesma disciplina, um dia. Aliás! O que me espanta mesmo mais é que fique surpreendido por eu sequer gostar de filosofia! Eu sempre achei que isso era algo um pouco óbvio e... creio que qualquer outro professor meu não duvidasse disso. Até o meu professor de LP do 9.º me dizia já que eu iria ser professora de LP ou de Filosofia, nunca me tendo ouvido nem lido propriamente a filosofar... Mas estou a desviar-me imenso do assunto. O que eu queria dizer é que me sinto na obrigação de lhe agradecer pelo impacto que teve em mim. Por mais que o professor diga que não tenho de agradecer por coisa alguma, eu acredito que tenho. Não é de menosprezar o ato de alguém insistir tanto em querer ajudar-me (não só academicamente, como também com os problemas familiares e enquanto pessoa) ao ponto de exigir, pelo menos aparentemente, que eu tome atitudes, ainda por cima quando isso são problemáticas que não lhe dizem respeito. Tudo em troca de quê? Bem, a mim parece-me que apenas o facto de saber que contribuiu para o progresso positivo de algo o satisfaz, o que é mais louvável ainda, por agir sem esperar ser recompensado de outra forma. Nem eu imaginei vez alguma que conviver com alguém pudesse ser tão benéfico nem que conseguisse eu evoluir tanto num espaço de tempo tão curto, de tal modo a que até que pessoas que me estimam mas que não o conhecem queiram agradecer-lhe e simpatizem consigo, pelo bem que me fez, como é o caso duma íntima minha, a Diana, que frequentemente me pede para lhe mandar cumprimentos e que agora lhe deseja o melhor.
Um homem com um impacto tão profundo e tão positivo é mesmo muito louvável, a meu ver. E é por isto que o admiro tanto. Admiro-o, aliás, não apenas por estas particularidades, mas por estas se conjugarem com outras tantas que mostrou ser, como é o caso da coragem, da sinceridade, da justiça e da autonomia. Não é qualquer um que toma as decisões que o professor já tomou anteriormente e da forma como as tomou - e mesmo que fosse! Não deixaria de ser louvável por isso. E, quando falo da forma como as tomou, falo de deliberação. As ações justas são mais belas quando são deliberadas, a meu ver, devido à liberdade a que o sujeito se submete durante a deliberação e pela certeza que isso confere à decisão final. Mas não me adiante talvez por aí, não é esse o meu intuito principal.
Pela pessoa que é, pelas ações que fez e pela forma como as fez, o professor merece mesmo muito que o futuro lhe corra pelo melhor, na minha opinião, que tem vindo a exprimir, ao longo desta carta, o que penso sinceramente. Desejo-lhe, para já, que consiga concluir a tão trabalhosa tese e que ter-nos deixado tenha valido, de facto, a pena (é um pouco contraditório que eu deseje tanto que consiga fazer isso e depois lhe envie um e-mail tão extenso, mas... enfim), porque se há alguém que mereça reconhecimento pelo seu empenho e pela sua dedicação não só às pessoas como também ao trabalho, essa pessoa é certamente o professor.
Assim, despeço-me, desejando-lhe, uma vez mais, que tudo que lhe corra pelo melhor e que consiga realizar todos os seus objetivos, que acredito que sejam justos e honestos. Desejo ainda que, um dia, nos reencontremos e que nessa altura já tenha deixado de fumar. Talvez sejamos colegas, um dia.
Respeitosamente,
a ex-aluna que o considerava excêntrico nos primeiros meses em que teve aulas consigo.
Olá, professor.
Talvez ache estranhas as palavras que escrevo, ou melhor: o facto de as escrever. Ou talvez mesmo até não, devido à sua capacidade para compreender as pessoas, por mais reservadas que sejam.
Não é meu intuito mostrar aqui os meus "dotes" literários, apenas considerei importante que tenha (re)conhecimento de algumas coisas. Algumas pessoas merecem-no e o professor é, de facto, uma delas.
É-o porque conseguiu ser mais do que um professor: conseguiu ser um bom amigo. Bom, porque conseguiu fazer-nos "acordar" para fatores importantes que muitos de nós ignorava inconscientemente, e amigo porque se preocupou connosco e insistiu em fazê-lo, não tendo sido obrigado a tal.
Hoje, quase dois anos depois de ter sido lecionada por si, vejo várias diferenças - não só em mim própria como também nos restantes membros da turma. Parece-me quase incrível que pessoas outrora tão fúteis, despreocupadas com os problemas que os envolvem, sentimentais, muito influenciáveis e interesseiras (no sentido egoísta da palavra) se mostrem hoje indignadas com a futilidade e a despreocupação dos outros e, recusando-se a aceitar o que não acham correto e reivindicando os direitos que têm, lutem contra o desrespeito. Se, por um lado, é verdade que os adolescentes estão em constante mutação e por isso não é tão surpreendente quanto isso que evoluam, por outro lado, não é muito comum que um adolescente evolua tanto em tão pouco tempo. Mais verdade do que isto é que, apesar de terem sido condicionados por vários fatores, quer internos quer externos, eles foram imensamente condicionados por si. Por isso, se hoje são tão conscientes (sendo isso algo extremamente importante), devem-no imensamente a si, estando-lhe muito gratos, como já o declararam (não tanto com o seu conhecimento, tanto quanto sei) várias vezes.
Bem, parece que falo deles como se eu já estivesse muito bem e eles é que estavam mal e ficaram bem... Não. Mas isso talvez também o professor já saiba... embora me tenha espantado como é que um professor de Filosofia me dá aulas durante mais dum ano e fica surpreendido por saber que a minha ambição... digamos, mais material é ser professora da mesma disciplina, um dia. Aliás! O que me espanta mesmo mais é que fique surpreendido por eu sequer gostar de filosofia! Eu sempre achei que isso era algo um pouco óbvio e... creio que qualquer outro professor meu não duvidasse disso. Até o meu professor de LP do 9.º me dizia já que eu iria ser professora de LP ou de Filosofia, nunca me tendo ouvido nem lido propriamente a filosofar... Mas estou a desviar-me imenso do assunto. O que eu queria dizer é que me sinto na obrigação de lhe agradecer pelo impacto que teve em mim. Por mais que o professor diga que não tenho de agradecer por coisa alguma, eu acredito que tenho. Não é de menosprezar o ato de alguém insistir tanto em querer ajudar-me (não só academicamente, como também com os problemas familiares e enquanto pessoa) ao ponto de exigir, pelo menos aparentemente, que eu tome atitudes, ainda por cima quando isso são problemáticas que não lhe dizem respeito. Tudo em troca de quê? Bem, a mim parece-me que apenas o facto de saber que contribuiu para o progresso positivo de algo o satisfaz, o que é mais louvável ainda, por agir sem esperar ser recompensado de outra forma. Nem eu imaginei vez alguma que conviver com alguém pudesse ser tão benéfico nem que conseguisse eu evoluir tanto num espaço de tempo tão curto, de tal modo a que até que pessoas que me estimam mas que não o conhecem queiram agradecer-lhe e simpatizem consigo, pelo bem que me fez, como é o caso duma íntima minha, a Diana, que frequentemente me pede para lhe mandar cumprimentos e que agora lhe deseja o melhor.
Um homem com um impacto tão profundo e tão positivo é mesmo muito louvável, a meu ver. E é por isto que o admiro tanto. Admiro-o, aliás, não apenas por estas particularidades, mas por estas se conjugarem com outras tantas que mostrou ser, como é o caso da coragem, da sinceridade, da justiça e da autonomia. Não é qualquer um que toma as decisões que o professor já tomou anteriormente e da forma como as tomou - e mesmo que fosse! Não deixaria de ser louvável por isso. E, quando falo da forma como as tomou, falo de deliberação. As ações justas são mais belas quando são deliberadas, a meu ver, devido à liberdade a que o sujeito se submete durante a deliberação e pela certeza que isso confere à decisão final. Mas não me adiante talvez por aí, não é esse o meu intuito principal.
Pela pessoa que é, pelas ações que fez e pela forma como as fez, o professor merece mesmo muito que o futuro lhe corra pelo melhor, na minha opinião, que tem vindo a exprimir, ao longo desta carta, o que penso sinceramente. Desejo-lhe, para já, que consiga concluir a tão trabalhosa tese e que ter-nos deixado tenha valido, de facto, a pena (é um pouco contraditório que eu deseje tanto que consiga fazer isso e depois lhe envie um e-mail tão extenso, mas... enfim), porque se há alguém que mereça reconhecimento pelo seu empenho e pela sua dedicação não só às pessoas como também ao trabalho, essa pessoa é certamente o professor.
Assim, despeço-me, desejando-lhe, uma vez mais, que tudo que lhe corra pelo melhor e que consiga realizar todos os seus objetivos, que acredito que sejam justos e honestos. Desejo ainda que, um dia, nos reencontremos e que nessa altura já tenha deixado de fumar. Talvez sejamos colegas, um dia.
Respeitosamente,
a ex-aluna que o considerava excêntrico nos primeiros meses em que teve aulas consigo.
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domingo, 6 de novembro de 2011
o crepitar de um novo começo
Nas poltronas escarlate, ouve-se o crepitar das labaredas a consumirem os troncos de uma antiga vida, uma vida verde e fresca. É assim que as árvores, na verdade, permanecem eternas: estando presentes, são verdes e frescas ou vermelhas, quentes e secas; ausentes, são desejadas e recordadas.
Aquecidos por aquela fonte de vida (natural, como não o podia deixar de ser, sendo vida), os pés daqueles jovens sentiam-se Reis modestos, que, sendo importantes, não se adornam luxuosamente. Os dele espreguiçavam-se em algodão cinzento, os dela preguiçavam em lã rosa claro, da clareza rosa do algodão doce, coberta de borbotos.
Um terceiro, o grande, rodopiava colheres de madeira em tachos e panelas de inox, fazendo dessa magia que liberta odores que fluem no ar e despertam o apetite a que se chama culinária.
- Martini ou Beirão? - Inquiriu, aproximando-se da única pessoa que apenas movia os dedos, ao virar as páginas de algum romance ou alguma novela.
- Nada, obrigado. Não bebo uísques. Ou melhor, não sou consumidor de bebidas alcoólicas.
- Que sujo que me sinto! - Disse, rindo. - Sou a única pessoa aqui que bebe.
Ela deixava a tinta jorrar ao som de Chopin, coordenada por pensamentos progressivamente organizados.
- O que estás a fazer, comilão anónimo? - Este, por sua vez, tentou esboçar oralmente palavras, mas foi impedido pelo recém condenado a bolo alimentar, o que os fez, a ela e ao seu amigo leitor, rir. - Como é que eu já sabia?!
- Conheces-me muito mal, tu - conseguiu finalmente professar. - Jardineira.
Menos concentrada, levantou os olhos dos manuscritos. O seu amigo também já não lia. Pelo contrário, olhava, abstrato, para a lareira. Imitando-o, conseguiu perceber a mensagem que o corpo feminino e curvado das chamas que dançavam cantava, compreendendo porque sorria vagamente, de satisfação. Ao sentir olhá-lo, suspirou como quem sai de um mergulho, continuando a sorrir, e retribuiu-lhe o olhar. Por sua vez, ela pegou na sua mão e prometeu-lhe, com um sorriso dos maiores que tinha:
- A tua vida nunca voltará a ser o que era, meu caro!
Aquecidos por aquela fonte de vida (natural, como não o podia deixar de ser, sendo vida), os pés daqueles jovens sentiam-se Reis modestos, que, sendo importantes, não se adornam luxuosamente. Os dele espreguiçavam-se em algodão cinzento, os dela preguiçavam em lã rosa claro, da clareza rosa do algodão doce, coberta de borbotos.
Um terceiro, o grande, rodopiava colheres de madeira em tachos e panelas de inox, fazendo dessa magia que liberta odores que fluem no ar e despertam o apetite a que se chama culinária.
- Martini ou Beirão? - Inquiriu, aproximando-se da única pessoa que apenas movia os dedos, ao virar as páginas de algum romance ou alguma novela.
- Nada, obrigado. Não bebo uísques. Ou melhor, não sou consumidor de bebidas alcoólicas.
- Que sujo que me sinto! - Disse, rindo. - Sou a única pessoa aqui que bebe.
Ela deixava a tinta jorrar ao som de Chopin, coordenada por pensamentos progressivamente organizados.
- O que estás a fazer, comilão anónimo? - Este, por sua vez, tentou esboçar oralmente palavras, mas foi impedido pelo recém condenado a bolo alimentar, o que os fez, a ela e ao seu amigo leitor, rir. - Como é que eu já sabia?!
- Conheces-me muito mal, tu - conseguiu finalmente professar. - Jardineira.
Menos concentrada, levantou os olhos dos manuscritos. O seu amigo também já não lia. Pelo contrário, olhava, abstrato, para a lareira. Imitando-o, conseguiu perceber a mensagem que o corpo feminino e curvado das chamas que dançavam cantava, compreendendo porque sorria vagamente, de satisfação. Ao sentir olhá-lo, suspirou como quem sai de um mergulho, continuando a sorrir, e retribuiu-lhe o olhar. Por sua vez, ela pegou na sua mão e prometeu-lhe, com um sorriso dos maiores que tinha:
- A tua vida nunca voltará a ser o que era, meu caro!
sábado, 3 de setembro de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
1. Carta ao/à teu/tua melhor amigo/amiga (IV)
Em seguimento de 1. Carta ao/à teu/tua melhor amigo/amiga (III).
Ao fundo da rua que saía pela porta daquele espaço tão aberto e iluminadamente amarelo, avistou dois vultos masculinos e, esforçando-se por ver de quem se tratava, conseguiu distinguir um cabelo preto desalinhado e uma cabeça cor de trigo que o acompanhava, reluzindo às luzes do pôr do sol. Na esperança de serem os seus dois amigos dos arredores, chamou os seus nomes. Em cheio. Ambos se viraram para trás, procurando saber quem os chamava.
Filipe trazia, em contraste com o seu cabelo, uma larga camisola branca, com letras de um tom azul, agora parecendo esverdeado. Trazia a calma no rosto e a liberdade nas mãos. O mesmo já não se passava com Henrique, que, por detrás dos seus óculos de sol azuis-transparentes, dentro de uma camisola negra, parecia ansioso, com uma mão no bolso e a outra a passar frequentemente pelo cabelo louro espigado e a ajeitar as madeixas de franja para o lado, enquanto batia com o pé no chão.
- Chamaste?
- Sim. Vocês vão para casa?
- Bem... sim - disse-lhe, enquanto olhava para Filipe, com ar surpreso. Este, por sua vez, parecia compreender para além da pergunta banal, perscrutando o seu rosto com o sobrolho contraído.
- Perdeste o transporte?
Não queria, de todo, preocupá-lo, mas também não lhe podia mentir. Não queria empatá-lo nem pesar-lhe, mas precisava de admitir que necessitava da sua ajuda.
- Sim. Como é que se vai daqui para lá?
- Olha, vens connosco no autocarro e nós depois dizemos-te onde parar - Henrique continuava agitado, mas não parecia querer deixar aquele assunto pendente. - Temos é de nos apressar antes que o percamos.
- Não... Ela de autocarro gasta dinheiro e isso é mais um motivo para depois a chatearem. Ter perdido o transporte e vir de iniciativa própria com dois rapazes já são três motivos suficientemente pesados.
- Então e...? Como é que depois...?
- Estás parvo!? Achas mesmo que eu vou pôr uma gaja qualquer à frente duma amiga?
- Olha, Filipe, eu agradeço a tua ajuda, mas s...
Filipe pegou-a pela mão, puxou-a até si e cercou-lhe os ombros com o seu braço:
- Embora daí.
- Então e essa rapariga?
- Não é nada melhor do que tu - disse-lhe, num sorriso. - Pode esperar.
Naquelas tonalidades de azul e laranja que manchavam as minuciosas folhas verdes que os rodeavam, ela viu duas sombras vultuosas de homens que a acompanhariam por toda a vida e sentiu que, por mais rejeições amorosas que viesse a ter, seria sempre feliz, por ter o que ela considerava os melhores amigos do mundo.
Enquanto ela lhe atirava um aceno de despedida, ele ouviu as suas solas rangerem no chão poeirento e sinuoso que ambos pisavam. E, na queda do calor, ele sentiu que ela partia... e que dificilmente voltaria.
Para ti e para o teu fascínio pessoal por casos entre professores e alunos. Espero que tenhas gostado.
Feliz aniversário!
Ao fundo da rua que saía pela porta daquele espaço tão aberto e iluminadamente amarelo, avistou dois vultos masculinos e, esforçando-se por ver de quem se tratava, conseguiu distinguir um cabelo preto desalinhado e uma cabeça cor de trigo que o acompanhava, reluzindo às luzes do pôr do sol. Na esperança de serem os seus dois amigos dos arredores, chamou os seus nomes. Em cheio. Ambos se viraram para trás, procurando saber quem os chamava.
Filipe trazia, em contraste com o seu cabelo, uma larga camisola branca, com letras de um tom azul, agora parecendo esverdeado. Trazia a calma no rosto e a liberdade nas mãos. O mesmo já não se passava com Henrique, que, por detrás dos seus óculos de sol azuis-transparentes, dentro de uma camisola negra, parecia ansioso, com uma mão no bolso e a outra a passar frequentemente pelo cabelo louro espigado e a ajeitar as madeixas de franja para o lado, enquanto batia com o pé no chão.
- Chamaste?
- Sim. Vocês vão para casa?
- Bem... sim - disse-lhe, enquanto olhava para Filipe, com ar surpreso. Este, por sua vez, parecia compreender para além da pergunta banal, perscrutando o seu rosto com o sobrolho contraído.
- Perdeste o transporte?
Não queria, de todo, preocupá-lo, mas também não lhe podia mentir. Não queria empatá-lo nem pesar-lhe, mas precisava de admitir que necessitava da sua ajuda.
- Sim. Como é que se vai daqui para lá?
- Olha, vens connosco no autocarro e nós depois dizemos-te onde parar - Henrique continuava agitado, mas não parecia querer deixar aquele assunto pendente. - Temos é de nos apressar antes que o percamos.
- Não... Ela de autocarro gasta dinheiro e isso é mais um motivo para depois a chatearem. Ter perdido o transporte e vir de iniciativa própria com dois rapazes já são três motivos suficientemente pesados.
- Então e...? Como é que depois...?
- Estás parvo!? Achas mesmo que eu vou pôr uma gaja qualquer à frente duma amiga?
- Olha, Filipe, eu agradeço a tua ajuda, mas s...
Filipe pegou-a pela mão, puxou-a até si e cercou-lhe os ombros com o seu braço:
- Embora daí.
- Então e essa rapariga?
- Não é nada melhor do que tu - disse-lhe, num sorriso. - Pode esperar.
Naquelas tonalidades de azul e laranja que manchavam as minuciosas folhas verdes que os rodeavam, ela viu duas sombras vultuosas de homens que a acompanhariam por toda a vida e sentiu que, por mais rejeições amorosas que viesse a ter, seria sempre feliz, por ter o que ela considerava os melhores amigos do mundo.
Enquanto ela lhe atirava um aceno de despedida, ele ouviu as suas solas rangerem no chão poeirento e sinuoso que ambos pisavam. E, na queda do calor, ele sentiu que ela partia... e que dificilmente voltaria.
| Nostalgic Moment by *Dance0927 on deviantART |
Para ti e para o teu fascínio pessoal por casos entre professores e alunos. Espero que tenhas gostado.
Feliz aniversário!
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terça-feira, 26 de julho de 2011
11. Carta a um falecido com quem gostavas de falar
Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.
Todos os anos por esta altura o Sol deixa de brilhar para mim e recolhe-se por entre nuvens. O calor lá fora é substituído pela humidade dos céus, que me tenta tocar através destas janelas que me protegem. Cá dentro, porém, o calor não se desvanece; mas não consigo deixar de reparar na chuva que cai.
Passo a mão direita pelo braço esquerdo acima e deixo soltar um suspiro. Já há algum tempo que a tua voz não entoa nos meus ouvidos. Nesta cama revolta onde me sento de pernas cruzadas, lembro-me das vezes em que te erguias como uma muralha contra a violência exterior, para que esta fosse impedida de me tocar, ao embater no teu forte e corajoso peito.
De alguma forma, a tua ausência fez com que durante muitos anos eu não fosse capaz de me defender sozinha. Sem aquela barreira entre mim e o mundo, tornei-me uma pessoa vulnerável a qualquer ataque. Eu não estava preparada para enfrentar o mundo tão cedo, sabes? Estava habituada a aproveitar a calma ambiental que tu me fornecias para refletir, contemplar e ponderar. Assim, sem ti, fiquei ao sabor de qualquer rajada de vento, que me fez voar para sítios muito distantes - tão distantes que preferia nunca ter passado por muitos deles.
Muita coisa mudou desde então. Hoje estou adiantada na construção da minha própria muralha. Mas tudo isto apenas foi possível porque, a meio de um dos voos, encontrei um lugar onde devo ficar e te voltei a encontrar a ti: não fisicamente nem no exterior, mas dentro de mim.
| so lonesome by ~C-h-r-i-s-P on deviantART |
Todos os anos por esta altura o Sol deixa de brilhar para mim e recolhe-se por entre nuvens. O calor lá fora é substituído pela humidade dos céus, que me tenta tocar através destas janelas que me protegem. Cá dentro, porém, o calor não se desvanece; mas não consigo deixar de reparar na chuva que cai.
Passo a mão direita pelo braço esquerdo acima e deixo soltar um suspiro. Já há algum tempo que a tua voz não entoa nos meus ouvidos. Nesta cama revolta onde me sento de pernas cruzadas, lembro-me das vezes em que te erguias como uma muralha contra a violência exterior, para que esta fosse impedida de me tocar, ao embater no teu forte e corajoso peito.
De alguma forma, a tua ausência fez com que durante muitos anos eu não fosse capaz de me defender sozinha. Sem aquela barreira entre mim e o mundo, tornei-me uma pessoa vulnerável a qualquer ataque. Eu não estava preparada para enfrentar o mundo tão cedo, sabes? Estava habituada a aproveitar a calma ambiental que tu me fornecias para refletir, contemplar e ponderar. Assim, sem ti, fiquei ao sabor de qualquer rajada de vento, que me fez voar para sítios muito distantes - tão distantes que preferia nunca ter passado por muitos deles.
Muita coisa mudou desde então. Hoje estou adiantada na construção da minha própria muralha. Mas tudo isto apenas foi possível porque, a meio de um dos voos, encontrei um lugar onde devo ficar e te voltei a encontrar a ti: não fisicamente nem no exterior, mas dentro de mim.
Aqueles que amamos nunca nos deixam de verdade. (Sirius Black)
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
E tu, pelo grande e admirável homem que foste, nunca me deixarás - nisso acredito veementemente.sexta-feira, 1 de julho de 2011
Alicia Keys: If I Ain't Got You
Para a minha Diana, por ser a melhor amiga que alguém pode ter.
«Some people live for the fortune. Some people live just for the fame. Some people live for the power, yeah. Some people live just to play the game.
Some people think that the physical things define what is within and I have been there before, but that life is a bore - so full of the superficial!
Some people want it all, but I do not want nothing at all if it ain't you, baby, if I ain't got you, baby.
Some people want diamond rings, some just want everything, but everything means nothing if I ain't got you, yeah.
Some people search for a fountain that promises forever young. Some people need three dozen roses and that is the only way to prove you love them. Hand me the world on a silver platter and what good would it be with no one to share, no one who truly cared for me? (...)
Nothing in this whole wide world do not mean a thing if I ain't got you with me, baby!»
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quarta-feira, 15 de junho de 2011
25. Carta à pessoa que tu sabes que está a passar pelos piores tempos
Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.
Uma gargalhada constante, uma fuga à realidade. Assim tu te apresentas, engraçada e bela.
Um ligeiro movimento, uma dor intensa. Assim tu te escondes, ferida e incurada.
Às vezes penso que esse teu jeito de ser é uma afirmação clara de que desististe.
Costumava pensar que era uma forma de mostrares que não queres desistir. Porém, isso não seria coerente com os pensamentos em que te encontro na solidão, real. Posteriormente, passei a achar que era isso uma forma do teu orgulho fingir que ainda não desististe. Agora? Agora penso que toda a tua energia é uma declaração de quem não quer mais saber de si. Apenas dos outros. Do seu bem-estar. Por mais que isso seja uma ilusão.
Já te acostumaste a este fim. E é um fim porque assim tu crês. Se tu própria admites ser um fim, não há quem o consiga recomeçar. Não conseguem os outros enganar-te quando tu própria já não te iludes.
Pobre mulher.
Não merecias esta história.
Ou será que sim? A nossa história é um acumular das opções que fazemos. Ainda assim, deverias ter sido feliz. Mas ninguém mais interferiu nas tuas opções. Tu, apenas. Tu, só. Tu, o teu medo, o teu orgulho e a tua insegurança.
Tu.
Tu que foste educada ao bom estilo típico romântico. Tu que fazias palpitar os corações das ruas por que passavas e agitar todas as saias que vestias. Tu, a mulher que outrora era a bailarina, a fadista, a cara-linda, a boa moça. Tu, a criança que hoje corta partes do seu próprio interior para poder viver mais uns anos, uns meses, umas horas que sejam.
Para me ver feliz.
Para que eu não perca mais um ente numa idade tão tenra. Para que eu possa chegar a casa e saber que tenho um par de braços a quem abraçar, um par de bochechas a quem beijar. Uma figura materna a quem amar.
Tu, minha heroína, prendes-me a esta vida. Com tudo o que isso quer dizer.
Uma gargalhada constante, uma fuga à realidade. Assim tu te apresentas, engraçada e bela.
Um ligeiro movimento, uma dor intensa. Assim tu te escondes, ferida e incurada.
Às vezes penso que esse teu jeito de ser é uma afirmação clara de que desististe.
Costumava pensar que era uma forma de mostrares que não queres desistir. Porém, isso não seria coerente com os pensamentos em que te encontro na solidão, real. Posteriormente, passei a achar que era isso uma forma do teu orgulho fingir que ainda não desististe. Agora? Agora penso que toda a tua energia é uma declaração de quem não quer mais saber de si. Apenas dos outros. Do seu bem-estar. Por mais que isso seja uma ilusão.
Já te acostumaste a este fim. E é um fim porque assim tu crês. Se tu própria admites ser um fim, não há quem o consiga recomeçar. Não conseguem os outros enganar-te quando tu própria já não te iludes.
Pobre mulher.
Não merecias esta história.
Ou será que sim? A nossa história é um acumular das opções que fazemos. Ainda assim, deverias ter sido feliz. Mas ninguém mais interferiu nas tuas opções. Tu, apenas. Tu, só. Tu, o teu medo, o teu orgulho e a tua insegurança.
Tu.
Tu que foste educada ao bom estilo típico romântico. Tu que fazias palpitar os corações das ruas por que passavas e agitar todas as saias que vestias. Tu, a mulher que outrora era a bailarina, a fadista, a cara-linda, a boa moça. Tu, a criança que hoje corta partes do seu próprio interior para poder viver mais uns anos, uns meses, umas horas que sejam.
Para me ver feliz.
Para que eu não perca mais um ente numa idade tão tenra. Para que eu possa chegar a casa e saber que tenho um par de braços a quem abraçar, um par de bochechas a quem beijar. Uma figura materna a quem amar.
Tu, minha heroína, prendes-me a esta vida. Com tudo o que isso quer dizer.
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sábado, 23 de abril de 2011
a ingenuidade com que me fazes bem
Quero fazer-te engolir toda a minha dor nesse teu peito animal.
Quero-te aqui, de novo. A meu lado.
Quero voltar a achar estranho que alguém me dê o abraço de que fujo nos momentos em que menos quero quebrar.
Pareces adivinhar sempre quais são as manhãs em que basta uma gota para me desfazer em lágrimas.
E adoro a ingenuidade com que me fazes bem. Adoro o teu espanto acanhado quando me abraças e sentes os meus braços apertarem-te contra mim com força, quando me sentes amachucar a tua camisola com as minhas mãos e enterrar a cabeça nos teus ombros. Gosto, sobretudo, da forma como ficas preocupado por sentires o teu ombro a molhar-se e os teus ouvidos detectam pequenos soluços, e como te recusas a ir embora, por mais que eu te repila, para que não sejas prejudicado por irresponsabilidade. Esqueço-me eu, crês tu, que a maior irresponsabilidade seria deixar-me ir embora naquele estado. E, por isso, te agradeço. Agradeço-te pela fidelidade que me tens disposto e por, apesar de seres, entre os meus amigos mais próximos, dos que mais obstáculos tem para falar comigo, te esforçares em manter uma amizade e por cultivares por mim de maneira tão, pelo menos aparentemente, espontânea e natural um sentimento de afecto, companheirismo e respeito, como se, independentemente do tempo que passamos afastados (embora tão perto!) um do outro e, ao mesmo tempo, em constante convívio com outras pessoas, esse movimento e toda essa agitação não afectassem minimamente a tua amizade, pois parece sempre que nunca te sentiste mais afastado de mim por causa disso.
- Pedro! Cármen! O que estão a fazer?!
- A... abraçar-mo-nos? Só isso.
- Vocês namoram?
- O quê?! Não... Não!
Mas não é só isso. É mais do que um abraço. É uma provável eternidade de irmandade.
Quero-te aqui, de novo. A meu lado.
Quero voltar a achar estranho que alguém me dê o abraço de que fujo nos momentos em que menos quero quebrar.
Pareces adivinhar sempre quais são as manhãs em que basta uma gota para me desfazer em lágrimas.
E adoro a ingenuidade com que me fazes bem. Adoro o teu espanto acanhado quando me abraças e sentes os meus braços apertarem-te contra mim com força, quando me sentes amachucar a tua camisola com as minhas mãos e enterrar a cabeça nos teus ombros. Gosto, sobretudo, da forma como ficas preocupado por sentires o teu ombro a molhar-se e os teus ouvidos detectam pequenos soluços, e como te recusas a ir embora, por mais que eu te repila, para que não sejas prejudicado por irresponsabilidade. Esqueço-me eu, crês tu, que a maior irresponsabilidade seria deixar-me ir embora naquele estado. E, por isso, te agradeço. Agradeço-te pela fidelidade que me tens disposto e por, apesar de seres, entre os meus amigos mais próximos, dos que mais obstáculos tem para falar comigo, te esforçares em manter uma amizade e por cultivares por mim de maneira tão, pelo menos aparentemente, espontânea e natural um sentimento de afecto, companheirismo e respeito, como se, independentemente do tempo que passamos afastados (embora tão perto!) um do outro e, ao mesmo tempo, em constante convívio com outras pessoas, esse movimento e toda essa agitação não afectassem minimamente a tua amizade, pois parece sempre que nunca te sentiste mais afastado de mim por causa disso.
- Pedro! Cármen! O que estão a fazer?!
- A... abraçar-mo-nos? Só isso.
- Vocês namoram?
- O quê?! Não... Não!
Mas não é só isso. É mais do que um abraço. É uma provável eternidade de irmandade.
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Agradeço-te, em suma, pelo amigo que és.
E, é engraçado, não foi preciso perder-te para reconhecer que bom ter-te a meu lado é.
quinta-feira, 31 de março de 2011
19. Carta a alguém que importuna a tua mente - positiva ou negativamente
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Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.
Não te aproximes mais. Chega.
Afasta-te de mim. Não te quero aqui.
Não te quero!
É assim que penso cada vez que te vejo ou cada vez que me falas.
E não te quero, de facto. Não, de maneira alguma.
Estou cansada de ti. E de mim. E de nós.
Cansada da tua atitude! Cansada das características que activas em ti. Não tens já idade suficiente para perceber que estás a piorar progressivamente? Não tens capacidade de compreensão da tua estupidez?! Serás assim tão estúpido?! Tão ignorante? Tão burro!
Estou realmente farta de ti. Fartei-me de te tentar compreender ou ajudar, quando tu adoptas sempre uma posição da ignorância representar o sumus pontifície e de que tudo o que eu disser é mentira ou irrelevância digna de bofetatada. Cansei-me de te tolerar - e exausto-me só de pensar na ideia de o repetir. É por isso que só o pensamento de ti ou a tua visão me fazer querer degolar-te.
Pegar numa lâmina pesada, grande e afiada e cortar-te o pescoço com todas as forças que tenho. Gastá-las todas em ti. Desfigurar a tua cara. Tornar-te mórbido e, por fim, aniquilar-te. Desfazer-te em pedaços. Pedaços de carne. E, depois, cuspir para cada pedaço teu, espezinhá-lo, esmagá-lo. Transformá-lo em pó. Cinza. E soprar a cinza, inundá-la em água. E, de novo, pisá-la. Atirar-me para cima dela com os pés e gritar que te afastes de mim. Não te quero!
Mas como é que é possível que tu sejas tão estúpido?! Como é que é possível que tu, besta quadrada, animal quadrúpede com um cérebro em decomposição e uma mente apodrecida, não compreendas o quão IDIOTA és,
Tira daí o determinante possessivo, que não quero pertença de ti! Não quero a tua pessoa envolvida com a minha! Não quero tal imundície!
E pergunto-me ainda: como terás sido capaz de substituir as características que tinhas pelas características que tens?! Como será possível que te tenhas tornado tão monstruoso a meus realistas olhos, quando com os mesmos olhos te via eu doce?
Como terás sido capaz de, depois teres sido gozado por tanta gente, de teres aprendido a saber como dói ser excluído, de teres sido deixado em paz e posteriormente de teres sido aceite por algumas pessoas
Como serás tu capaz, depois do passado por que passaste, de discriminar os outros e achar-te superior a eles?
Como serás tu capaz de te envergonhar dos outros, quando tu próprio és uma mancha?
Como serás tu capaz de olhar repugnado para o prato dos outros, quando tu próprio és nojento a comer?
Como serás tu capaz de mentir para fazer boa figura, quando te revoltavas por veres os outros mentirem desnecessariamente?
E como serás tu capaz de achar que fazes boa figura, quando todos te acham - principalmente agora! - ridículo?
Não tens qualquer noção de bem ou justiça.
Não contes mais com o meu apoio - porque a amizade já forçaste tu a romper.
Metes-me nojo.
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terça-feira, 1 de março de 2011
um ombro amigo e parvo anima sempre
- Que se passa? - perguntou-me o Rafael, preocupado.
- Não falemos disso. Há bocado estava a falar com o Zacarias, um assunto puxa o outro... Olha, deve ter sido uma hora a chorar. E foi porque eu queria estudar e parei.
- Toma atenção numa cena. Tudo bem que o Zacarias é feio. Mas daí a chorares... dá pena, meu!
É este tipo de idiotas que tenho como amigos que me fazem rir nos piores momentos. Eu pergunto-me como será possível. A sério que não entendo.
- Não falemos disso. Há bocado estava a falar com o Zacarias, um assunto puxa o outro... Olha, deve ter sido uma hora a chorar. E foi porque eu queria estudar e parei.
- Toma atenção numa cena. Tudo bem que o Zacarias é feio. Mas daí a chorares... dá pena, meu!
É este tipo de idiotas que tenho como amigos que me fazem rir nos piores momentos. Eu pergunto-me como será possível. A sério que não entendo.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
desmotivação irracional
Há algumas horas que pousam na minha secretária uns quantos livros, que no computador estão janelas abertas e que algumas folhas pairam por aí. Diz um cabeçalho Sessentas Estrangeirados, mas os meus olhos desviam-se. Diz outro Ética Sofistica: o papel educativo da relativização dos valores. Mas não é de política, nem de bem, nem de Sócrates, nem de Cálicles, nem do liberalismo em Portugal, nem de estatística, nem de métodos eleitorais, nem de probabilidades que quero falar. Aliás, não quero falar. Sinto a saudade do teu abraço ao abrigo das árvores frescas de primavera e o único desejo que tenho é de correr para os seus braços, chorar no seu ombro e rogar-lhe que não vá embora. Mas não consigo arrepender-me do que disse, por mais que a estime, porque sei que estou certa.
Por isso, vou tomar banho. Talvez me passe a sensibilidade e me concentre na Razão, porque só ela me dá bons conselhos. E porque preciso de trabalhar e não me quero ir abaixo.
Por que raio arranjo sempre um motivo para ficar não feliz quando pareço estar bem?
Por isso, vou tomar banho. Talvez me passe a sensibilidade e me concentre na Razão, porque só ela me dá bons conselhos. E porque preciso de trabalhar e não me quero ir abaixo.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011
a beleza no paradoxo
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sábado, 1 de janeiro de 2011
sacada com rancor
- Do you know what is worth fighting for, when it is not worth dying for?
Os seus olhos deixaram a fixação e passaram a vaguear uma preocupação, como se procurasse um qualquer refúgio.
Joseph tirara a sua mão do ombro do amigo, após um penetrante olhar, que tentava encontrar o seu pensamento, o de Peter, continuando os olhos deste numa fuga desconsolada. Este desistir mostrava-lhe uma corajosa e afirmada desilusão, o que afligia ainda mais o seu cobarde temperamento.
Aquilo era de mais para Joseph. Não conseguia conter a raiva pelo destroçamento que o inundava.
- Did you try to live on your own when you burned down the house and home?! Did you stand too close to the fire, like a liar looking for forgiveness from a stone?!
Toda aquela ira era sacada com rancor, expresso na voz alterada, intensamente aumentando, enfatizando a dor, e na linguagem gestual incontrolada. Peter olhou o chão, deu meia volta e caminhou alguns passos para longe da besta. Iniciando-se com um suspiro, largou um desabafo, enquanto se virava de frente:
- When it is time to live and let die, and you can't get another try...
As suas palavras saíram de forma triste e reflexiva, com a cabeça acenando negativa e suavemente, de tal forma que foi de mais para si. Deixou-se cair na poltrona e voltou a suspirar. Talvez nunca tivesse sido tão corajoso e sincero.
- Something inside this heart has died! - lamentou.
Joseph atirou-se também numa poltrona de braços, escarlate. Reconhecia a gravidade da falta do amigo, mas por este lhe ser íntimo, entristecia também. Suspirou, por fim, apoiou-se nos joelhos e pousou a cabeça nas mãos, sério e pensativo; passou as mãos pela cabeça e um sorriso irónico saiu. Então fixou o seu parceiro de longa vida, entrelaçou as mãos uma na outra, encostou-lhes a boca, olhou-lhe amargamente nos olhos e concluiu:
- You are in ruins.
Os seus olhos deixaram a fixação e passaram a vaguear uma preocupação, como se procurasse um qualquer refúgio.
Joseph tirara a sua mão do ombro do amigo, após um penetrante olhar, que tentava encontrar o seu pensamento, o de Peter, continuando os olhos deste numa fuga desconsolada. Este desistir mostrava-lhe uma corajosa e afirmada desilusão, o que afligia ainda mais o seu cobarde temperamento.
Aquilo era de mais para Joseph. Não conseguia conter a raiva pelo destroçamento que o inundava.
- Did you try to live on your own when you burned down the house and home?! Did you stand too close to the fire, like a liar looking for forgiveness from a stone?!
Toda aquela ira era sacada com rancor, expresso na voz alterada, intensamente aumentando, enfatizando a dor, e na linguagem gestual incontrolada. Peter olhou o chão, deu meia volta e caminhou alguns passos para longe da besta. Iniciando-se com um suspiro, largou um desabafo, enquanto se virava de frente:
- When it is time to live and let die, and you can't get another try...
As suas palavras saíram de forma triste e reflexiva, com a cabeça acenando negativa e suavemente, de tal forma que foi de mais para si. Deixou-se cair na poltrona e voltou a suspirar. Talvez nunca tivesse sido tão corajoso e sincero.
- Something inside this heart has died! - lamentou.
Joseph atirou-se também numa poltrona de braços, escarlate. Reconhecia a gravidade da falta do amigo, mas por este lhe ser íntimo, entristecia também. Suspirou, por fim, apoiou-se nos joelhos e pousou a cabeça nas mãos, sério e pensativo; passou as mãos pela cabeça e um sorriso irónico saiu. Então fixou o seu parceiro de longa vida, entrelaçou as mãos uma na outra, encostou-lhes a boca, olhou-lhe amargamente nos olhos e concluiu:
- You are in ruins.
Paramore: My Heart
A todos os que merecem a minha amizade, com os quais partilho amor, confiança e sinceridade; a todos aqueles que me dão força e vontade de continuar a lutar, dia após dia; a todos aqueles sem os quais viver não teria mais sentido: um muito obrigado, o mais profundo e sincero.
Uma das consequências do fim da solidão.
I am finding out that maybe I was wrong: that I have fallen down and I can't do this alone.
Stay with me! This is what I need... Please!
Sing us a song and we will sing it back to you. We could sing our own, but what would it be without you? Oh!
I am nothing now and it has been so long since I've heard the sound... the sound of my only hope!
This time I will be listening! (...)
This heart, it beats, beats for only you. (...)
Oh! My heart is yours! (...)
My heart is your heart, my heart is for you. (...)
Please, don't go now! Please, don't fade away!
Uma das consequências do fim da solidão.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
apenas memórias
Por entre os corredores profissionais, há jovens que vivem - de forma natural ou propositada - histórias, por si próprios construídas - lenta ou rapidamente. Mas isso é no presente. No futuro, apenas restarão as memórias das pegadas esquecidas e dos caminhos lembrados, daqueles que os traçaram.
Tal como eles, nós também preenchemos as nossas vidas de forma mais ou menos natural. Também nós conversámos no topo das escadas, enquanto a autoridade não vinha, e marcámos o chão com as oscilações dos nossos corpos e escondemos nas paredes a construção ingénua do carinho. E quando o espaço está menos habitado, ainda vejo o teu corpo desenvolvido, de homem, com camisola branca e calças de ganga azuis, erguer os cabelos castanhos e desalinhados com um sorriso ligeiro, sentado no chão, encostado à parede. Por algum motivo, por mais que não sorrisses, as feições do teu rosto transmitiam-me alegria, pureza e tranquilidade. Era reconfortante olhar-te.
No jardim, ainda vejo o teu casaco cinzento a revestir um braço que pousa firmemente nos meus ombros. E por mais que o nosso amigo nos entretesse com entusiasmo, a calma reinava em mim, e por mais que ele falasse, apenas os teus pensamentos inexpressados importavam para mim. O vento rangia nas nossas faces e tu seguravas-me firmemente, e isso bastava-me para ser feliz.
Ainda te vejo rodeado de amigos a tomar o pequeno-almoço e a partilhar maluqueiras (coisas de rapazes...) e isso amendrontar-me, apesar de também eles gostarem de mim. Ainda sinto o nervosismo de te falar, o desejo de fingir que não te vi. Ainda me lembro de te ver observar-me, divertido, com os meus amigos. Também me lembro de almoçar contigo, assim como me lembro de te acompanhar até à sala, através da chuva, e como me lembro, também, dos inúmeros abraços que insistias em dar-me. Contudo, a lembrança que mais prazer e dor me provoca, em simultâneo, é a de te ter no meu colo, sentado, no jardim, pois isso lembra-me também de nunca mais te poder ver, falar ou tocar.
Tal como nós, eles reviverão a sua juventude louca e intensa como parte do passado. Alguns manterão o contacto, outros separar-se-ão, mas as memórias colectivas, essas não podem ser apagadas. Felizmente, já me mentalizei de serem apenas memórias e, por isso, não me quero prender a elas ou alongá-las. Apesar disso me custar, sei que não devo nem vale a pena voltar atrás. Os bancos, as paredes, as escadas, o chão ou o jardim? Esses continuarão no mesmo sítio, a preservar lembranças e a criar novas histórias.
Tal como eles, nós também preenchemos as nossas vidas de forma mais ou menos natural. Também nós conversámos no topo das escadas, enquanto a autoridade não vinha, e marcámos o chão com as oscilações dos nossos corpos e escondemos nas paredes a construção ingénua do carinho. E quando o espaço está menos habitado, ainda vejo o teu corpo desenvolvido, de homem, com camisola branca e calças de ganga azuis, erguer os cabelos castanhos e desalinhados com um sorriso ligeiro, sentado no chão, encostado à parede. Por algum motivo, por mais que não sorrisses, as feições do teu rosto transmitiam-me alegria, pureza e tranquilidade. Era reconfortante olhar-te.
No jardim, ainda vejo o teu casaco cinzento a revestir um braço que pousa firmemente nos meus ombros. E por mais que o nosso amigo nos entretesse com entusiasmo, a calma reinava em mim, e por mais que ele falasse, apenas os teus pensamentos inexpressados importavam para mim. O vento rangia nas nossas faces e tu seguravas-me firmemente, e isso bastava-me para ser feliz.
Ainda te vejo rodeado de amigos a tomar o pequeno-almoço e a partilhar maluqueiras (coisas de rapazes...) e isso amendrontar-me, apesar de também eles gostarem de mim. Ainda sinto o nervosismo de te falar, o desejo de fingir que não te vi. Ainda me lembro de te ver observar-me, divertido, com os meus amigos. Também me lembro de almoçar contigo, assim como me lembro de te acompanhar até à sala, através da chuva, e como me lembro, também, dos inúmeros abraços que insistias em dar-me. Contudo, a lembrança que mais prazer e dor me provoca, em simultâneo, é a de te ter no meu colo, sentado, no jardim, pois isso lembra-me também de nunca mais te poder ver, falar ou tocar.
Tal como nós, eles reviverão a sua juventude louca e intensa como parte do passado. Alguns manterão o contacto, outros separar-se-ão, mas as memórias colectivas, essas não podem ser apagadas. Felizmente, já me mentalizei de serem apenas memórias e, por isso, não me quero prender a elas ou alongá-las. Apesar disso me custar, sei que não devo nem vale a pena voltar atrás. Os bancos, as paredes, as escadas, o chão ou o jardim? Esses continuarão no mesmo sítio, a preservar lembranças e a criar novas histórias.
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sábado, 30 de outubro de 2010
à descoberta da verdade
Não sei o que pensar de ti.
Conhecer-te foi fantástico. Não me lembro de ter gostado tanto de uma pessoa num primeiro dia. Contudo, sabia dentro de mim que isso não era uma amizade. Podia vir a sê-lo, mas ainda não o era.
Receava-te e ansiava-te, em simultâneo. Sentimento estranho. Abrias-te comigo, consideravas-me muito importante para ti e eu não negava gostar de ti, mas também não conseguia dizer-to. Talvez porque não estivesse certa disso.
E todos te gozavam. E contra todos lutava.
E tu mentias. E tu trapaceavas. E tu tinhas ciúmes. E tu não suportavas ver-me aproximar dele. Não suportavas saber que por ele tudo fazias e ele começava a adorar-me, a ter brincadeiras comigo que contigo não tinha - não porque lhe incomodasse brincar contigo, mas porque não tinha esse desejo natural, espontâneo -, sem que alguma vez um de nós tivesse segundas intenções.
E todos te gozavam. E eu não conseguia (ou não queria) acreditar. E contra todos lutava. E tu continuavas a mentir.
Lembro-me ainda de quando caí em mim e ganhei-te nojo. Era repugnante eu partilhar contigo o que era puro e bom, e tu virares-me as costas como se alguém te tivesse atraiçoado profundamente. Era mais repugnante ainda saber que isso fazia-te odiar-me, estares realmente furiosa, mas quando eu me dirigia a ti, inocentemente preocupada e surpreendida, fingires-me a maior naturalidade, uma alegria inexplicável. Falsa.
Lembro-me, também, de ter prometido que não te falava mais. Metias-me nojo, inspiravas-me raiva, traição. Não quis, também, incomodar-me e por isso deixei simplesmente de me ralar. E tu suplicaste-me a verdade. E eu gritei-ta. E tu choraste. E eu virei-te costas.
Não sei, porém, como voltei a confiar tanto em ti. Com o tempo, comecei a entrar melhor em ti, a compreender-te, por mais que não concordasse contigo. Tu estavas tão fraca...
Eu chorei por ti, sim. Duas vezes. Numa, porque não suportava ver-te partir, derrotada, rasgada por completo... Noutra, porque tu domaste a besta, inspirada em mim, na minha força e na minha coragem, quando esta te tentou esventrar.
Agora tenho vontade de voltar a deixar-te, de parar de me importar contigo. Estou cansada de ver-te exibir a tua própria vida em porcarias de internet e redes sociais. Estou farta de ver-te ir ao encontro do que os outros diziam. Serás assim tão ingénua ou, de facto, querer atrair atenção? Já és crescida o suficiente para parar de exagerar, de criar dramas. Estou farta de, um dia para o outro, ver-te publicar que és louca por ele, que o amas muito, com as palavras mais doces (eu diria mesmo as mais fantasiosas e irreais, pouco espontâneas), pouco antes de me confessares que descobres que afinal não o amavas e que te sentias fortemente atraída por outros homens, que também não dista muito de quando voltaste a dizer que o amavas eternamente, sem me dar explicações, fingindo-te despercebida, que, por sua vez, foi pouco antes de publicares que não querias nada com ninguém, de ser injusta para quem te é sincero e de assumires que preferias que te tivesse comentado com toda a gente nas costas do que ter-to dito a ti. O que é mais incrível? Um dia após tanta raiva, tanta estupidez, tanto exagero, publicas algo oposto: hoje afirmas para todos verem que há quase dois meses, a partir de uma data fixa, te apaixonaste à primeira vista.
Terei eu razão para duvidar de ti de novo ou não?
Conhecer-te foi fantástico. Não me lembro de ter gostado tanto de uma pessoa num primeiro dia. Contudo, sabia dentro de mim que isso não era uma amizade. Podia vir a sê-lo, mas ainda não o era.
Receava-te e ansiava-te, em simultâneo. Sentimento estranho. Abrias-te comigo, consideravas-me muito importante para ti e eu não negava gostar de ti, mas também não conseguia dizer-to. Talvez porque não estivesse certa disso.
E todos te gozavam. E contra todos lutava.
E tu mentias. E tu trapaceavas. E tu tinhas ciúmes. E tu não suportavas ver-me aproximar dele. Não suportavas saber que por ele tudo fazias e ele começava a adorar-me, a ter brincadeiras comigo que contigo não tinha - não porque lhe incomodasse brincar contigo, mas porque não tinha esse desejo natural, espontâneo -, sem que alguma vez um de nós tivesse segundas intenções.
E todos te gozavam. E eu não conseguia (ou não queria) acreditar. E contra todos lutava. E tu continuavas a mentir.
Lembro-me ainda de quando caí em mim e ganhei-te nojo. Era repugnante eu partilhar contigo o que era puro e bom, e tu virares-me as costas como se alguém te tivesse atraiçoado profundamente. Era mais repugnante ainda saber que isso fazia-te odiar-me, estares realmente furiosa, mas quando eu me dirigia a ti, inocentemente preocupada e surpreendida, fingires-me a maior naturalidade, uma alegria inexplicável. Falsa.
Lembro-me, também, de ter prometido que não te falava mais. Metias-me nojo, inspiravas-me raiva, traição. Não quis, também, incomodar-me e por isso deixei simplesmente de me ralar. E tu suplicaste-me a verdade. E eu gritei-ta. E tu choraste. E eu virei-te costas.
Não sei, porém, como voltei a confiar tanto em ti. Com o tempo, comecei a entrar melhor em ti, a compreender-te, por mais que não concordasse contigo. Tu estavas tão fraca...
Eu chorei por ti, sim. Duas vezes. Numa, porque não suportava ver-te partir, derrotada, rasgada por completo... Noutra, porque tu domaste a besta, inspirada em mim, na minha força e na minha coragem, quando esta te tentou esventrar.
Agora tenho vontade de voltar a deixar-te, de parar de me importar contigo. Estou cansada de ver-te exibir a tua própria vida em porcarias de internet e redes sociais. Estou farta de ver-te ir ao encontro do que os outros diziam. Serás assim tão ingénua ou, de facto, querer atrair atenção? Já és crescida o suficiente para parar de exagerar, de criar dramas. Estou farta de, um dia para o outro, ver-te publicar que és louca por ele, que o amas muito, com as palavras mais doces (eu diria mesmo as mais fantasiosas e irreais, pouco espontâneas), pouco antes de me confessares que descobres que afinal não o amavas e que te sentias fortemente atraída por outros homens, que também não dista muito de quando voltaste a dizer que o amavas eternamente, sem me dar explicações, fingindo-te despercebida, que, por sua vez, foi pouco antes de publicares que não querias nada com ninguém, de ser injusta para quem te é sincero e de assumires que preferias que te tivesse comentado com toda a gente nas costas do que ter-to dito a ti. O que é mais incrível? Um dia após tanta raiva, tanta estupidez, tanto exagero, publicas algo oposto: hoje afirmas para todos verem que há quase dois meses, a partir de uma data fixa, te apaixonaste à primeira vista.
Terei eu razão para duvidar de ti de novo ou não?
domingo, 26 de setembro de 2010
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