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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Hoje, vi-te.

Hoje vi-te.

Sentado, com um acompanhante que nunca foi nem será teu amigo, nem sequer te acompanhará em lado algum aonde queiras ir que aspire a felicidade. E, se pedires que vá contigo destruir-se, tampouco se importará.
Porque é assim que os teus relacionamentos funcionam. Não funcionando, não existindo. E, existindo, têm de terminar. Antes que realmente te afeiçoes à outra pessoa e isso te obrigue a pensar nas consequências dos teus atos - e, sobretudo, no impacto das tuas palavras.
Liberdade, chamas-lhe. Embora saibas, no fundo, que nunca conseguiste enganar ninguém - nem a mim, nem a ti.

Vi-te. Enrolavas mais uma bombinha durante a pausa para o único trabalho digno que alguma vez tiveste. Aquele que eu te arranjei, prolongando o meu próprio desemprego.
É uma boa forma de agradecimento. Pelo menos conseguiste mantê-lo ao longo destes meses. Sem ironia ou veneno, surpreendeste-me pela positiva.

Eu tagarelava sobre as minhas teorias da sexualidade com uma das alianças que reencontrei nesta vida, e que sei que me irá acompanhar nas próximas também. Os amigos não se fazem, reconhecem-se. Lembras-te? Eu reconheci-te, mas não como amigo.

Com certeza ouviste-me e preferiste disfarçar. Afinal, não querias de todo que o teu amigo se apercebesse também. Por algum motivo que, sinceramente, pouco me importa de todo.

Foi bom ver-te. Foi bom não conseguir sentir mais nenhum arrepio, aperto ou calor. Saber que a tua missão na minha vida ficou concluída.
E foi bom ter-te tido. Melhor ainda foi perder-te. Sei hoje que foste uma oportunidade última que tive de me amar a mim própria e de ser suficientemente corajosa para me libertar do que me provocava dor.

No fundo, agradeço-te. E grata estou por te ter visto hoje e confirmado que deixar-te foi a melhor decisão que fiz até hoje. A mais egoísta também. E foi graças a esse egoísmo que pude finalmente dizer: eu sou livre, e viver hoje uma felicidade para a qual eu nunca tinha estado preparada antes. Porque, antes de ti, não saberia disfrutá-la e preservá-la.

E, como sempre, concluí que o universo é perfeito. Afinal, não sabemos quem não somos até nos perdermos.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

5. Carta aos teus sonhos

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

Following her dream by *duchesse-2-Guermante on deviantART

       Acordar todos os dias pode ser uma tarefa tanto ou quanto difícil.
     Eu pensava assim, nas épocas de apatia. Não é que fosse difícil levantar-me da cama e seguir uma rotina denominada enquanto normal, típica de todos os que se acham -- e que muitos assim os reconhecem -- grandes (assim os definem os padrões bege, preto e cinzento, bem como os rostos infelizes e frustrados, que são símbolo de riqueza, conforto, inteligência e maturidade -- o meu avô costuma chamar-lhes homens de linha). Tal como qualquer pessoa normal, eu levantava-me da cama e fazia exatamente as mesmas coisas que os ídolos e os heróis da minha sociedade faziam.
     A diferença era que eu não me orgulhava de seguir os ídolos da minha sociedade. Sociedade que nunca foi minha, verdade seja dita. Os meus olhos pertenciam-me, não à sociedade. Igualmente, pertenciam-me os pensamentos, não à sociedade. Porque eu não deixava que a sociedade fizesse deles seus, como fez a quase todos os que, tal como eu, agiam em razoável conformidade. Os gostos chegavam a todos nós, mas nem todos nós os consumíamos. Era por isso que vocês procuravam. Procuravam quem não se tinha conformado com os desejos da sociedade e se sentia vazio por não encontrar nada que o preenchesse.
     E eu prometi-vos nunca vos deixar nem vos vender. Fiz serões, gritei, chorei e jurei a pés juntos o amor que por vós nutria. E nutro.
     A dor não é de não vos ter porque não vos conheço. Eu conheço-vos, melhor do que ninguém. Eu tive-vos, mas vocês fugiram. Não fracassaram, mas despediram-se e abandonaram-me, deixando apenas uma caixa, não vazia, mas com uma cama bem requintada, com as mais confortáveis almofadas. Essa cama foi feita à vossa medida e agora aloja-se, vazia, em mim e vai suspirando pelos donos que a deixaram assim, por fazer, sem nada dizer antes da partida, deixando o mistério, a dúvida e a incerteza nos lençóis.
     Eu vou vos encontrar. Eu tenho de vos encontrar.

domingo, 13 de novembro de 2011

26. Carta a alguém que te inspira

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

Olá, professor.
Talvez ache estranhas as palavras que escrevo, ou melhor: o facto de as escrever. Ou talvez mesmo até não, devido à sua capacidade para compreender as pessoas, por mais reservadas que sejam.
Não é meu intuito mostrar aqui os meus "dotes" literários, apenas considerei importante que tenha (re)conhecimento de algumas coisas. Algumas pessoas merecem-no e o professor é, de facto, uma delas.
É-o porque conseguiu ser mais do que um professor: conseguiu ser um bom amigo. Bom, porque conseguiu fazer-nos "acordar" para fatores importantes que muitos de nós ignorava inconscientemente, e amigo porque se preocupou connosco e insistiu em fazê-lo, não tendo sido obrigado a tal.
Hoje, quase dois anos depois de ter sido lecionada por si, vejo várias diferenças - não só em mim própria como também nos restantes membros da turma. Parece-me quase incrível que pessoas outrora tão fúteis, despreocupadas com os problemas que os envolvem, sentimentais, muito influenciáveis e interesseiras (no sentido egoísta da palavra) se mostrem hoje indignadas com a futilidade e a despreocupação dos outros e, recusando-se a aceitar o que não acham correto e reivindicando os direitos que têm, lutem contra o desrespeito. Se, por um lado, é verdade que os adolescentes estão em constante mutação e por isso não é tão surpreendente quanto isso que evoluam, por outro lado, não é muito comum que um adolescente evolua tanto em tão pouco tempo. Mais verdade do que isto é que, apesar de terem sido condicionados por vários fatores, quer internos quer externos, eles foram imensamente condicionados por si. Por isso, se hoje são tão conscientes (sendo isso algo extremamente importante), devem-no imensamente a si, estando-lhe muito gratos, como já o declararam (não tanto com o seu conhecimento, tanto quanto sei) várias vezes.
Bem, parece que falo deles como se eu já estivesse muito bem e eles é que estavam mal e ficaram bem... Não. Mas isso talvez também o professor já saiba... embora me tenha espantado como é que um professor de Filosofia me dá aulas durante mais dum ano e fica surpreendido por saber que a minha ambição... digamos, mais material é ser professora da mesma disciplina, um dia. Aliás! O que me espanta mesmo mais é que fique surpreendido por eu sequer gostar de filosofia! Eu sempre achei que isso era algo um pouco óbvio e... creio que qualquer outro professor meu não duvidasse disso. Até o meu professor de LP do 9.º me dizia já que eu iria ser professora de LP ou de Filosofia, nunca me tendo ouvido nem lido propriamente a filosofar... Mas estou a desviar-me imenso do assunto. O que eu queria dizer é que me sinto na obrigação de lhe agradecer pelo impacto que teve em mim. Por mais que o professor diga que não tenho de agradecer por coisa alguma, eu acredito que tenho. Não é de menosprezar o ato de alguém insistir tanto em querer ajudar-me (não só academicamente, como também com os problemas familiares e enquanto pessoa) ao ponto de exigir, pelo menos aparentemente, que eu tome atitudes, ainda por cima quando isso são problemáticas que não lhe dizem respeito. Tudo em troca de quê? Bem, a mim parece-me que apenas o facto de saber que contribuiu para o progresso positivo de algo o satisfaz, o que é mais louvável ainda, por agir sem esperar ser recompensado de outra forma. Nem eu imaginei vez alguma que conviver com alguém pudesse ser tão benéfico nem que conseguisse eu evoluir tanto num espaço de tempo tão curto, de tal modo a que até que pessoas que me estimam mas que não o conhecem queiram agradecer-lhe e simpatizem consigo, pelo bem que me fez, como é o caso duma íntima minha, a Diana, que frequentemente me pede para lhe mandar cumprimentos e que agora lhe deseja o melhor.
Um homem com um impacto tão profundo e tão positivo é mesmo muito louvável, a meu ver. E é por isto que o admiro tanto. Admiro-o, aliás, não apenas por estas particularidades, mas por estas se conjugarem com outras tantas que mostrou ser, como é o caso da coragem, da sinceridade, da justiça e da autonomia. Não é qualquer um que toma as decisões que o professor já tomou anteriormente e da forma como as tomou - e mesmo que fosse! Não deixaria de ser louvável por isso. E, quando falo da forma como as tomou, falo de deliberação. As ações justas são mais belas quando são deliberadas, a meu ver, devido à liberdade a que o sujeito se submete durante a deliberação e pela certeza que isso confere à decisão final. Mas não me adiante talvez por aí, não é esse o meu intuito principal.
Pela pessoa que é, pelas ações que fez e pela forma como as fez, o professor merece mesmo muito que o futuro lhe corra pelo melhor, na minha opinião, que tem vindo a exprimir, ao longo desta carta, o que penso sinceramente. Desejo-lhe, para já, que consiga concluir a tão trabalhosa tese e que ter-nos deixado tenha valido, de facto, a pena (é um pouco contraditório que eu deseje tanto que consiga fazer isso e depois lhe envie um e-mail tão extenso, mas... enfim), porque se há alguém que mereça reconhecimento pelo seu empenho e pela sua dedicação não só às pessoas como também ao trabalho, essa pessoa é certamente o professor.
Assim, despeço-me, desejando-lhe, uma vez mais, que tudo que lhe corra pelo melhor e que consiga realizar todos os seus objetivos, que acredito que sejam justos e honestos. Desejo ainda que, um dia, nos reencontremos e que nessa altura já tenha deixado de fumar. Talvez sejamos colegas, um dia.

Respeitosamente,
a ex-aluna que o considerava excêntrico nos primeiros meses em que teve aulas consigo.

sábado, 13 de agosto de 2011

1. Carta ao/à teu/tua melhor amigo/amiga (IV)

Em seguimento de 1. Carta ao/à teu/tua melhor amigo/amiga (III).

Ao fundo da rua que saía pela porta daquele espaço tão aberto e iluminadamente amarelo, avistou dois vultos masculinos e, esforçando-se por ver de quem se tratava, conseguiu distinguir um cabelo preto desalinhado e uma cabeça cor de trigo que o acompanhava, reluzindo às luzes do pôr do sol. Na esperança de serem os seus dois amigos dos arredores, chamou os seus nomes. Em cheio. Ambos se viraram para trás, procurando saber quem os chamava.
Filipe trazia, em contraste com o seu cabelo, uma larga camisola branca, com letras de um tom azul, agora parecendo esverdeado. Trazia a calma no rosto e a liberdade nas mãos. O mesmo já não se passava com Henrique, que, por detrás dos seus óculos de sol azuis-transparentes, dentro de uma camisola negra, parecia ansioso, com uma mão no bolso e a outra a passar frequentemente pelo cabelo louro espigado e a ajeitar as madeixas de franja para o lado, enquanto batia com o pé no chão.
- Chamaste?
- Sim. Vocês vão para casa?
- Bem... sim - disse-lhe, enquanto olhava para Filipe, com ar surpreso. Este, por sua vez, parecia compreender para além da pergunta banal, perscrutando o seu rosto com o sobrolho contraído.
- Perdeste o transporte?
Não queria, de todo, preocupá-lo, mas também não lhe podia mentir. Não queria empatá-lo nem pesar-lhe, mas precisava de admitir que necessitava da sua ajuda.
- Sim. Como é que se vai daqui para lá?
- Olha, vens connosco no autocarro e nós depois dizemos-te onde parar - Henrique continuava agitado, mas não parecia querer deixar aquele assunto pendente. - Temos é de nos apressar antes que o percamos.
- Não... Ela de autocarro gasta dinheiro e isso é mais um motivo para depois a chatearem. Ter perdido o transporte e vir de iniciativa própria com dois rapazes já são três motivos suficientemente pesados.
- Então e...? Como é que depois...?
- Estás parvo!? Achas mesmo que eu vou pôr uma gaja qualquer à frente duma amiga?
- Olha, Filipe, eu agradeço a tua ajuda, mas s...
Filipe pegou-a pela mão, puxou-a até si e cercou-lhe os ombros com o seu braço:
- Embora daí.
- Então e essa rapariga?
- Não é nada melhor do que tu - disse-lhe, num sorriso. - Pode esperar.
Naquelas tonalidades de azul e laranja que manchavam as minuciosas folhas verdes que os rodeavam, ela viu duas sombras vultuosas de homens que a acompanhariam por toda a vida e sentiu que, por mais rejeições amorosas que viesse a ter, seria sempre feliz, por ter o que ela considerava os melhores amigos do mundo.
Enquanto ela lhe atirava um aceno de despedida, ele ouviu as suas solas rangerem no chão poeirento e sinuoso que ambos pisavam. E, na queda do calor, ele sentiu que ela partia... e que dificilmente voltaria.

Nostalgic Moment by *Dance0927 on deviantART

Para ti e para o teu fascínio pessoal por casos entre professores e alunos. Espero que tenhas gostado.
Feliz aniversário!

terça-feira, 26 de julho de 2011

11. Carta a um falecido com quem gostavas de falar

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.

so lonesome by ~C-h-r-i-s-P on deviantART

Todos os anos por esta altura o Sol deixa de brilhar para mim e recolhe-se por entre nuvens. O calor lá fora é substituído pela humidade dos céus, que me tenta tocar através destas janelas que me protegem. Cá dentro, porém, o calor não se desvanece; mas não consigo deixar de reparar na chuva que cai.
Passo a mão direita pelo braço esquerdo acima e deixo soltar um suspiro. Já há algum tempo que a tua voz não entoa nos meus ouvidos. Nesta cama revolta onde me sento de pernas cruzadas, lembro-me das vezes em que te erguias como uma muralha contra a violência exterior, para que esta fosse impedida de me tocar, ao embater no teu forte e corajoso peito.
De alguma forma, a tua ausência fez com que durante muitos anos eu não fosse capaz de me defender sozinha. Sem aquela barreira entre mim e o mundo, tornei-me uma pessoa vulnerável a qualquer ataque. Eu não estava preparada para enfrentar o mundo tão cedo, sabes? Estava habituada a aproveitar a calma ambiental que tu me fornecias para refletir, contemplar e ponderar. Assim, sem ti, fiquei ao sabor de qualquer rajada de vento, que me fez voar para sítios muito distantes - tão distantes que preferia nunca ter passado por muitos deles.
Muita coisa mudou desde então. Hoje estou adiantada na construção da minha própria muralha. Mas tudo isto apenas foi possível porque, a meio de um dos voos, encontrei um lugar onde devo ficar e te voltei a encontrar a ti: não fisicamente nem no exterior, mas dentro de mim.
Aqueles que amamos nunca nos deixam de verdade.  (Sirius Black)
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

E tu, pelo grande e admirável homem que foste, nunca me deixarás - nisso acredito veementemente.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

nos braços de alguém maior

A vida passava-lhe por entre a mãos, sem que se apercebesse do tempo ou do espaço. Sofria golpes profundos, mas não se apercebia de aquilo ser dor. Era todo um mundo novo que descobria. Com ninguém falava, ninguém a ouvia. Os seus olhos eram a principal fonte de extração de matéria, porque desvendava o que a rodeava duma forma surpreendentemente visual. Os outros gritavam, corriam, sorriam, choravam... mas ela permanecia quieta, desconhecendo o que a rodeava, interessando-se por terminar os mistérios que tanto a fascinavam.
O seu reflexo no espelho era uma diversidade de cores que a transportavam para uma nova dimensão. Dentro da sua cabeça, milhares de pensamentos radiavam e se transmitiam como feitiços lançados de varinha em varinha, quais impulsos eléctricos inevitáveis. Aproximava-se e, de olhos esbugalhados, tocava a imagem de uma criança pequena, com aspecto rechonchudo e longos, grossos cabelos.
De mala às costas, os outros gritavam e corriam. Tinha-se acostumado àquele sentimento que lhe apertava o coração e lhe refrescava e salgava o rosto, molhando o vestido que a avó tinha engomado com tanto carinho. E tinha medo de se aproximar dos outros, que gritavam e corriam de mala às costas. Como devia ser bom ser apertada por entre os braços de alguém maior do que ela, que lhe sorri por a ver!
Finalmente, a sua vez.
Larga tudo o que tem nas mãos, corre para os portões verdes que a protegiam do exterior.
- Mãe!, exclamou, feliz. Que agradável surpresa, desta vez a sua única companhia para almoço não será a solidão.
- Mãe?
Os outros, de malas às costas, gritavam e corriam.
- Mãe!
Mais, e mais, e mais. Apertados nos braços de alguém maior, sorrindo-lhes por os verem.
- Eu quero a minha mãe! Mãe!
Deixem-na. Soltem as correntes.
- Mãe!, berra. Mãe!
Lembra-se apenas de chorar compulsivamente. A agonia comprimia-lhe o sonho. Apertada nos braços de alguém maior, ninguém sorria por a ver. Queriam apenas saber porquê tanto alvoroço. Talvez fosse febre.
- A minha mãe desapareceu!
Ou talvez mais do que isso.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

desmotivação irracional

Há algumas horas que pousam na minha secretária uns quantos livros, que no computador estão janelas abertas e que algumas folhas pairam por aí. Diz um cabeçalho Sessentas Estrangeirados, mas os meus olhos desviam-se. Diz outro Ética Sofistica: o papel educativo da relativização dos valores. Mas não é de política, nem de bem, nem de Sócrates, nem de Cálicles, nem do liberalismo em Portugal, nem de estatística, nem de métodos eleitorais, nem de probabilidades que quero falar. Aliás, não quero falar. Sinto a saudade do teu abraço ao abrigo das árvores frescas de primavera e o único desejo que tenho é de correr para os seus braços, chorar no seu ombro e rogar-lhe que não vá embora. Mas não consigo arrepender-me do que disse, por mais que a estime, porque sei que estou certa.
Por isso, vou tomar banho. Talvez me passe a sensibilidade e me concentre na Razão, porque só ela me dá bons conselhos. E porque preciso de trabalhar e não me quero ir abaixo.



Por que raio arranjo sempre um motivo para ficar não feliz quando pareço estar bem?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O aniquilamento


Vivo sozinho desde criança, fiquei órfão desde muito cedo. A morte dos meus pais no acidente rodoviário deixou-me completamente desamparado.
Eu estava lá, fui o único sobrevivente juntamente com a minha irmã.
Tive de me desenrascar sozinho. Aprendi a cozinhar, aprendi a ser responsável, aprendi a cuidar da minha irmã mais nova.
As minhas infância e juventude estavam estragadas. Tinha de seguir em frente, mas aquelas imagens ficavam presas à minha memória. Sempre sentia um vazio enorme no meu coração.
Não tive a hipótese de outras pessoas: de ir para a escola, aprender a ler, a escrever, a conhecer outras pessoas.
Quando saía de casa, via sempre aquela criança feliz de mãos dadas com os pais. Aquela vida era completamente fantástica: a relação, a cumplicidade... encontravam-se lado a lado, juntas e inseparáveis.
Eu encontrava a paz de espírito no meu quarto. Refugiava-me naqueles retratos, imagens, recordações, lembranças, vídeo que sempre via, daqueles pais maravilhosos que sempre estimei.
Eu sabia que não estava sozinho - tinha a minha irmã, querida, espantosa, com aquele brilho no sorriso, com aqueles cabelos encaracolados pretos, com aqueles olhos de azeitona maravilhosos.
Tomei uma decisão importante. Fui trabalhar numa oficina de automóveis. Aquele óleo era um quebra-cabeças. Sujava-me sempre, mas era suposto sujar-me e compreendia. Ganhava mal, mas sempre era alguma coisa, dava para as despesas, enquanto via sempre a minha irmã crescer.
Agora ela já é uma senhora: cresceu muito, está da minha altura. Eu ensinei-a a cozinhar e fiquei espantado comigo próprio, com as minhas invenções na cozinha.
Certo dia, ela foi buscar flores num jardim e apaixonou-se por um rapaz humilde, simpático, que não a deixou mais. Eles casaram-se.
Eu ficava sozinho naquela casa velha, mas feliz porque ela seguiu a felicidade e casou com a pessoa que amava. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde também eu iria encontrar a pessoa certa, ideal, perfeita para mim. Esse dia chegou. Ela era linda, deslumbrante, cabelos louros, olhos azuis como o céu, cor de névoa. Comecei então a falar com ela, tímido e envergonhado com tanta beleza introduzida naquela pessoa magnífica que estava à minha frente. Naquele momento, senti-me o homem mais feliz do mundo. Eu amava-a tanto que não a largava, nem ela a mim.


Entretanto, a minha irmã teve filhos e eu ia-me casar com ela. No dia do casamento estava muito nervoso. Cheguei à igreja, muitas pessoas conhecidas e desconhecidas que tive a oportunidade de conhecer; ela demorava muito, mas isso faz parte da tradição. Ela saiu de casa, vestida de branco; o pai dela estava a conduzir e embateram contra uma árvore. Eu recebi a notícia mais tarde. Fiquei de coração partido, não queria acreditar no que me estava a acontecer: tinha perdido mais uma pessoa que amava; fiquei destroçado, fechei-me em casa, nunca mais saí.
Num dia, caí das escadas, não sobrevivi.
Tinha partido para um mundo onde precisava de ser feliz, onde poderia ver as pessoas que tinha perdido e matar as saudades que me tinham consumido.

Ruben Zacarias

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

24. Carta à pessoa que te deu a tua melhor memória

Em seguimento de masoquismo ou culto próprio?.
Fábio Luís - 9 Nov., 2008
Lindo ?
Dass linda ez tu krl !
Bahh ez bue __
<3   ;)
Tenho saudades tuas, confesso.
Tenho saudades da tua amizade. Éramos tão ingénuos... e tão queridos um com o outro. Éramos sinceros, puros e tão unidos! Sentia-te tão pegado a mim, com uma força inexplicável... Adorava-te. Era fantástico.
Não tenho saudades tuas enquanto namorado, mas aquilo que nos unia maravilhava-me. Quando estive contigo foi fantástico: adorava estar abraçada a ti – era um momento único. Sei que não exagerava. Eu teria dado tudo por ti, nem que fosse só mesmo pela amizade. Disseram ser obsessão... mas eu tenho as minhas dúvidas. Eu não desesperava por ti. Ter-te a meu lado ou saber que irias esperar por mim acalmava-me. Eu não te desejava com ardor, o pensamento de ti trazia-me harmonia e paz - e eu sentia-me equilibrada.
Fábio Luís - 8 Nov., 2008
Bahhh ezZme bue! >.<
dezeju td de bom pa ti , poiz tu u merexex ;)
P.S-(esta foto ja é minha =Pp)
bjx*  By-'Kyanu
E sentia-me tão protegida e segura!
Às vezes idealizava-te como um anjo guardião.
Mas conforme vieste, foste-te... tal como um anjo.
E – é impressionante – eu nunca fiquei magoada com ele pelos teus erros. Quando me deixaste, não chorei. Suspirei, apenas, por ver aquele anjo partir.
Mas quando te quiseram tirar de mim à força desesperei. A imagem da tua instabilidade, da tua mágoa, do teu sofrimento, do teu desespero... deixava-me fora de mim. Acho que nunca sofri tanto por sentir alguém sofrer. Tu eras tão delicado! Tão bom...
Uma verdade é que nunca mais senti algo assim por ninguém. Não acredito que haja uma cara-metade por aí fora – mas se houvesse, terias sido tu; nem acredito que os nossos destinos se cruzem irremediavelmente... não acredito na existência dum destino – mas para a definição de O Tal, tu eras o ideal. Tu foste, de facto, O Tal para mim - por ti teria arriscado tudo. Não, não digo o melhor para mim, o perfeito, o mútuo; mas aquele, o anjo, por quem teria sacrificado a minha vida, sem esperar nada em troca. Se tu sentias o mesmo por mim, isso era indiferente.
Poderia ter resultado bem. Sinceramente, ainda hoje não me parece que teria sido um erro... Não me arrependo de nada – e eu costumo ser tão pessimista! Aprendi tanto contigo... Aprendi a esquecer o ciúme e o orgulho, a perdoar a traição, a tolerar o diferente, a observar o exterior, a entender o próximo… fizeste-me crescer tanto! Caso contrário, como teria eu mudado por ti?

Obrigada por, um dia, teres feito parte da minha vida.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

apenas memórias

Por entre os corredores profissionais, há jovens que vivem - de forma natural ou propositada - histórias, por si próprios construídas - lenta ou rapidamente. Mas isso é no presente. No futuro, apenas restarão as memórias das pegadas esquecidas e dos caminhos lembrados, daqueles que os traçaram.
Tal como eles, nós também preenchemos as nossas vidas de forma mais ou menos natural. Também nós conversámos no topo das escadas, enquanto a autoridade não vinha, e marcámos o chão com as oscilações dos nossos corpos e escondemos nas paredes a construção ingénua do carinho. E quando o espaço está menos habitado, ainda vejo o teu corpo desenvolvido, de homem, com camisola branca e calças de ganga azuis, erguer os cabelos castanhos e desalinhados com um sorriso ligeiro, sentado no chão, encostado à parede. Por algum motivo, por mais que não sorrisses, as feições do teu rosto transmitiam-me alegria, pureza e tranquilidade. Era reconfortante olhar-te.
No jardim, ainda vejo o teu casaco cinzento a revestir um braço que pousa firmemente nos meus ombros. E por mais que o nosso amigo nos entretesse com entusiasmo, a calma reinava em mim, e por mais que ele falasse, apenas os teus pensamentos inexpressados importavam para mim. O vento rangia nas nossas faces e tu seguravas-me firmemente, e isso bastava-me para ser feliz.
Ainda te vejo rodeado de amigos a tomar o pequeno-almoço e a partilhar maluqueiras (coisas de rapazes...) e isso amendrontar-me, apesar de também eles gostarem de mim. Ainda sinto o nervosismo de te falar, o desejo de fingir que não te vi. Ainda me lembro de te ver observar-me, divertido, com os meus amigos. Também me lembro de almoçar contigo, assim como me lembro de te acompanhar até à sala, através da chuva, e como me lembro, também, dos inúmeros abraços que insistias em dar-me. Contudo, a lembrança que mais prazer e dor me provoca, em simultâneo, é a de te ter no meu colo, sentado, no jardim, pois isso lembra-me também de nunca mais te poder ver, falar ou tocar.
Tal como nós, eles reviverão a sua juventude louca e intensa como parte do passado. Alguns manterão o contacto, outros separar-se-ão, mas as memórias colectivas, essas não podem ser apagadas. Felizmente, já me mentalizei de serem apenas memórias e, por isso, não me quero prender a elas ou alongá-las. Apesar disso me custar, sei que não devo nem vale a pena voltar atrás. Os bancos, as paredes, as escadas, o chão ou o jardim? Esses continuarão no mesmo sítio, a preservar lembranças e a criar novas histórias.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

o virar de uma página

Ontem decidi fazer algo que já há muito planeava: desprender-me de redes sociais.
Tinha contas em MySpace, Hi5, iLike, YouTube, letras.mus.br... e, é claro, no blogger; mas, afinal, de que me servia isso?
Para partilhar fotografias e receber comentários? Isso não é algo que me entretenha.
Para partilhar música? Há formas mais naturais de o fazer.
Para manter o contacto com pessoas que me estão fisicamente distantes? Bem... essa seria uma boa razão, isto se as pessoas que me estão distantes o estivessem apenas fisicamente. Além disso, no final todos nós partimos e nos separamos, fazendo parte apenas de boas ou más memórias, ou caímos no esquecimento.

Assim sendo, resolvi eliminar todas, à excepção do YouTube, pois tenho lá contactos com os quais mantenho conversas bastante interessantes para mim, e do blogue, sendo este o único que realmente preciso; mas entre quase 1800 eliminações apáticas de contactos, um reteu-me. Não queria eliminar a única forma de comunicação que ainda tínhamos, iria perder-te para sempre...
Basta!, pensei. Já te tinha perdido antes, embora nunca nisso tenha acreditado realmente. Tu não irias dar pela minha falta, pois durante todo este tempo não te incomodaste em perguntar por mim.

Estarias apenas a adiar o momento em que matarias as saudades? Não sei. Talvez quando decidires fazê-lo, isto se alguma vez o quiseres fazer, seja tarde de mais. Cansei-me de esperar. Agora espero, muito sinceramente, que sejas muito feliz... embora eu não esteja mais por perto para me certificar disso. Fartei-me de parar a minha vida para esperar pela tua, embora sem ela a minha não faça sentido.

terça-feira, 13 de julho de 2010

a guerreira e o seu escudo


É fantástico ter um amigo. Um melhor amigo fica a nosso lado para sempre, ajudando-nos em todas as situações! Mentira.
Lembro-me de que, ainda há pouco tempo, não passavas tanto tempo comigo como com os outros. É claro que é muito mais divertido estar com pessoal animado do que com alguém triste. Talvez te tenhas esquecido de que eu não era triste, eu estava triste. Mas no fundo era a mim que idolatravas. Estranho...
Tu eras o meu herói. O homem que tinha crescido comigo (e que me tinha feito crescer!), aquele que assistiu às minhas maiores infantilidades, sendo assistido por mim também às suas. Tínhamos uma grande relação, há que admiti-lo. Simplesmente o tempo nos foi afastando... e quando chegou a hora do adeus, talvez te tenha magoado o facto de todos terem chorado, excepto eu. Talvez não tenhas entendido que sou verdadeira e que, embora popular, não sou exibicionista. A verdade é que por ti nunca nenhum amigo tinha chorado tanto como eu, pelo menos até àquele momento. E tu não o vias... mas sentia-lo, e o que se sente é mais profundo do que o que apenas se vê.
Lembro-me, também, de tudo o que fizeste por mim. Embora tenhas passado grande parte do teu tempo com os outros, sei que nunca os gozaste por determinadas acções, pelo motivo de não te preocupares com eles: o teu erro baseou-se numa má escolha do meio para atingir o teu fim, pois não sabias o quão destrutível o meu escudo é, e há que admitir que os teus argumentos não são os melhores. Tenho a certeza de ter sido isso e nada mais, pois ninguém me provocaria sem ser para causar uma reacção diferente em mim e magoa fisicamente alguém que me havia ligeiramente perturbado, nem muito menos abdica de todo o seu ouro, sendo este o seu bem material mais precioso, sem considerar que sou muito mais valiosa do que esse tipo de matéria.
Outra prova de afecto foi a tua visita, depois do adeus físico, a casa. Voltaste para nos ver a todos, e todos os que te viram mostraram entusiasmo por te ver: histeria até, talvez. Eu não me manifestei: permaneci, calma, no meio dos que te rodeavam, sem dizer uma palavra. Talvez tenham todos percebido da diferença que fazia entre eu estar ali e não estar, porque, por momentos, todos se afastaram e fez-se silêncio: foi então que, distraído, olhaste e não viste o coração que ainda respirava, entre rasgões e cicatrizes, à tua frente. Quando os teus olhos acordaram, um arrepio de surpresa te refrescou a vivacidade e senti um abraço caloroso confortar-me, envolvendo-me em terapias e curas imediatas. Ninguém ousou intervir nesse momento esplendoroso. Nem eu ousei deixar de me comover.
- Por que te queres afastar? Eu sei manter relações à distância.
- Eu não, embora lamente por isso.
Hoje, vejo-te como uma das pessoas que maior contributo teve na minha vida: és, de facto, memorável, embora nem sempre tenhas feito as melhores escolhas para ti e os que te envolvem; e hoje sei também que não é preciso fazer um grande esforço para continuarmos no pensamento de alguém, pois o sentimento que uma vez for especial, sê-lo-á para sempre.
- Tu já não confias em mim, Cármen: não te entendo.
No fundo, entendes-me melhor do que muitos, e sabes que a confiança que me faltou foi na vida, na minha própria pessoa: não em ti.
Talvez eu seja, de facto, triste; e quando um aperto assim tão forte me envolve, sei que te perdi... para sempre.

domingo, 9 de maio de 2010

malvados!

As memórias dos únicos momentos de vivência vagueiam o meu pensamento por vezes. E anseio por um novo começo. Os demais pressentem-no e tentam convencer-me a seguir em frente. Ah, malvados! Querem tentar apagar de mim a melhor passagem da minha vida!
Não sei se por estas correntes é responsável o facto de um dia ter sentido e ter saudades de sentir, se é o desespero da solidão que me deixou aqui, petrificada, esperando, esperando, esperando, esperando; se fui eu que não consegui, de facto, abandonar o sentimento e, por isso, procurei involuntariamente a solidão.
À noite, tu apareces, vigoroso, dócil, manso e maduro. Pousas o braço no meu ombro e proteges-me, como um anjo guardião que segura entre as suas asas a luz, aumentando a sua densidade. Sabes que não sou forte o suficiente para proteger sozinha uma criança, que nesse momento repousa em meus seios calorosos.
Esse novo começo nunca virá. E espero, espero, espero. No canto da minha caixa, aguardo que um átomo morra e permita a outro ocupá-lo. E espero, espero. O meu corpo decompor-se-á e eu continuarei esperando. Morrer já me é impossível, pois a morte nunca vem duas vezes. Então espero.
Tenho alguma dificuldade em perceber quando algo acabou.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

encontro com apolo

Enquanto escolhia a melhor maneira de alimentar o carrinho das compras, cruzei-me com a maior divindade bela. Uma criança loura, um bebé, estava sentada num carrinho alheio.
Durante toda aquela manhã, os meus olhos esboçaram tristeza, apatia e revolta. Uma raiva profunda preenchia-me o rosto com antipatias, impedindo-me de sorrir. Ouvi um ruído que me fez sair da distracção e virar para trás. Uma criança despreocupada que olhava o vazio largou a sua distracção e olhou-me. De imediato, os seus olhos iluminaram a minha alma e soltei um sorriso inconscientemente. A criança retribuiu-o, deixando-me pacificamente feliz.
Os seus raios de sol decoravam uma cabeça pequena, marcada por umas bochechas que se atreviam a não esconder-se debaixo de uns olhos castanhos, separados pela profundeza redonda de um pequeno nariz. E a criança libertava felizmente risos ingénuos.
Várias vezes perdi aquela imensidão de pureza de vista, mas rapidamente, quando menos esperava, os nossos olhos cruzavam-se novamente. Um vício e um desejo imenso de abraçar aquele Messias esbofetearam-me com cobardia. Que beleza! Que vontade!
Perco eternamente aquela bondade dos meus olhos.
Pergunto-me como será aquela criança, daqui a uns anos. Tanta mágoa, tanto pecado invadirá a maior virgindade! Poderá, um dia, passar-me ao lado, sem que possa reconhecê-la? Será cruelmente diabólica a esse ponto? Pobre memória!


Inocência!
Apolo!
Cadáver!
Ilusão!
Espectro!
Salvem-me do tempo!

domingo, 18 de novembro de 2007

Evanescence: The Last Song I'm Wasting On You

"Sparkling grey through my own veins: any more than a whisper, any sudden movement of my heart. And I know, I know I'll have to watch them pass away. Just get through this day. Give up your way, you could be anything. Give up my way, and lose myself, not today. That's too much guilt to pay. Sickened in the sun, you dare tell me you love me, but you held me down and screamed you wanted me to die. Honey, you know, you know I'd never hurt you that way. You're just so pretty in your pain. Give up my way and I could be anything. I'll make my own way without your senseless hate! (...) So run (...) and hate me, if it feels good! I can't hear your screams anymore. You lied to me, but I'm older now and I'm not a buying baby. Demanding my response, don't bother breaking the door down. I found my way out and you'll never hurt me again."

Evanescence: Lacrymosa

"Out on your own. Cold and alone again. Can this be what you really wanted, baby? Blame it on me, set your guilt free. Nothing can hold you back now. Now that you're gone, I feel like myself again, grieving the things I can't repair and willing. To let you blame it on me and set your guilt free, I don't want to hold you back now, love. I can't change who I am. Not this time, I won't lie to keep you near me, and, in this short life, there's no time to waste on giving up. My love wasn't enough and you can blame it on me. Just set your guilt free, honey! I don't want to hold you back now, love!"