sábado, 3 de novembro de 2012

Liberdade é Ser

«Por um sistema desde longo tempo combinado foram os portugueses privados de tudo quanto pertencia ao Governo, à legislação e administração da Fazenda: todos esses importantes objetos foram reservados unicamente para certos indivíduos privilegiados e que dispunham de tudo sem responsabilidade alguma. Não havia entre nós quem ousasse pedir contas das rendas do Estado, quem pedisse as razões e os motivos de tantas leis ineptas e parciais. Nós não tínhamos verdadeiramente Pátria.»

Astro da Lusitânia, nº 1, 30 de outubro de 1820

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Mudanças

     Era só para avisar que mudei de conta. A pessoa é a mesma, os blogues são os mesmos, tudo é o mesmo, menos os links. Links direcionados para a antiga Cármen não terão mais validade.
     O mesmo se passará com o url do blogue, que deixará de ser cween-crazy.blogspot.com, para ser controlo-demente.blogspot.com.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Nuvem de Pó

     O nevoeiro cobria-me o corpo, humedecendo os desalinhados caracóis negros que esvoaçavam levemente, tropeçando, preguiçosos, nos meus ombros envoltos de azul. Na minha frente, mergulhava o azul sobre a verde terra, deixando uma neblina lilás acima, mais leve e dissipada. Os meus olhos limitavam-se a fitar as partículas douradas que pareciam emanar de todas as pequenas coisas, flutuando até às nuvens.
     Tinha ficado horas a ocupar o lugar de espetadora, a assistir àquele musical feito dos mais intrínsecos elementos, aqueles que não partiram de nós, mas que foram nosso berço. Foram, também, palco de tantas explosões de raiva e cinzas, que não foram expelidas por nenhum vulcão. Foi, sim, o ser humano que se achou dono de quem o sustentava, talvez por assim o fazer e, por isso, transparecer uma certa dependência, de quem suplica misericórdia, em troca de uma vida devota. É a tendência do Homem em ser conceituado assim que não necessita da humildade, nem do afeto dos demais. Perde o espírito crítico e julga-se no direito de criticar tudo o que o rodeia e até mesmo o que inventa, por assim convir, sem nunca detetar a infelicidade que o poder subjaz.
     Assim tinha decidido ficar, quando a queda duma velha árvore instável resolveu tirar-me o sono e lembrar-me de que, àquela hora, poderia ter o privilégio de apreciar o que sou, o que me fez e o que tentam impotentemente destruir. Por entre o bosque penetrei, e os avisos das corujas aconselharam-me de não ser má ideia caminhar pela orla da floresta. A um quilómetro dali, avistava-se uma cabana com aspeto velho. Receando incomodar ou ser incomodada, desviei-me daquela planície e subi a um monte que ficava na sua retaguarda, bem ao lado, afinal, do bosque. Dali, via-se todo o vale, estendido a meus pés, qual maré baixa numa praia desabitada.
     Sentei-me. O vento soprava de longe, cansado, como quem, não aguentando, corre esporádica e pausadamente. As minhas mãos, na terra molhada, estavam apenas ligeiramente mais frias do que o meu rosto. Tinha os lábios gretados e feridas no peito, vestígios de uma juventude que esmorecia. Transportava comigo um cansaço, não um físico, mas um cansaço de viver, não pela quantidade, mas pela qualidade. Muito trabalho de homem tinha feito, e muita consideração de animal me tinham dado. E ali me achava, repousada e desprotegida, como uma menina inocente.
     Deixei-me cair para trás. De nada adiantava chatear-me, preocupar-me ou problematizar. No final, é tudo isto que somos: turistas. No final, sobra isto apenas: um corpo ferido e descurado que a brisa refresca.
     Compreendi, então, por que os galos me haviam acordado aquela manhã. Tudo o que eu precisava era aquele momento, de união com a terra, em comunhão com o ar: senti-la em mim e sentir-me nele, qual nuvem concreta. Era aquilo, saber viver: deixar os problemas, criados por entretenimento, e agir de acordo com o misticismo do amanhã. Eu nunca levarei os meus problemas comigo, por isso, aqui, nestas plantas suaves, deixo todo o passado, em troca do presente. Era isto, a vida.

domingo, 17 de junho de 2012

Liberdade...

Não há machado que corte
A raiz ao pensamento
(Não há morte para o vento,
Não há morte).

Se, ao morrer o coração,
Morresse a luz que lhe é querida,
Sem razão seria a vida,
Sem razão.

Nada apaga a luz que vive
Num amor, num pensamento,
Porque é livre como o vento,
Porque é livre.

Carlos de Oliveira

... está dentro de nós, e não nas ações que nos são permitidas.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Personagens de uma Paixão Platónica

Conteúdo para Adultos


    A pele morena que me encanta, os carnudos lábios que me seduzem. As suas mãos nas minhas costas, descendo gentilmente, apertando-me contra o corpo que me consome. As minhas na sua nuca, aceitando, entregando, retribuindo o desejo de querer, de tocar, de fazer. Em volúpia desatenta, mas concentrada - entre dar e receber, num afastamento intencionalmente falso, num aproximar de respirações ofegantes que definem dois corpos suados. A pressão entre desejos, a divergência convergida, convergente, ardente. A força entre um e outro, que do empenho de ambos parte, a não desistência, a resistência, a incomplacência. O amar, o querer, o rasgar, o ter, o prazer!
     Lá fora, harpas cantam, pianos suspiram. A brisa morna, soprando das árvores, sussurra aos ouvidos canções de embalar, mais frescas do que os corpos, que vibram, alargando, massajados.
   O repousar da fé em mútuo olhos, espiritualmente trocados. O tocar de peles que se conhecem e não se cansam uma da outra. O saltar de um peito que parece nunca se habituar ao explorado, sendo sempre perdurado. O sentir pequenos e ásperos pêlos caraterísticos na ponta dos delicados dedos de seda. A fusão entre braços por abraços. Os passos das aves, irradiantes de calor que descontrai e quebra a tensão muscular. Os frágeis dentes de leão que voam no azul meio: azul de carícia, de mimo, de ternura. O vento que passa e os cabelos que dançam. Os narizes que trocam pequenas e cuidadosas impressões, como tímidos amantes que se entregam por dedicação, cujos rostos aquecem, um colorindo-se, o outro observando-o.
     A cabeça que se encaixa no ombro, o braço que segura o tronco e os dedos que se enlaçam. A paz, devota.