quarta-feira, 7 de setembro de 2011

em demência, em dor, em violência


Calem-se as vozes, cesse-se o pranto. Termine-se o ruído, finde-se a guerra.
Recomecemos este percurso de que nos absorvemos - em dor, em demência, em ordens desordenadas, em radicalismo, em violência.
Caminhemos por este chão molhado de musgo verdejante e deixemos que os rios continuem a sua função assídua de limpeza da terra que nós sujamos. Não queiramos ser mais rápidos do que eles e permitamos que as suas suaves brisas que passeiam pelos nossos rostos infiltrem os nossos aparentemente (e agora tão golpeados!) opacos corpos e varram de nós as impurezas de que resultam as cicatrizes que nos marcam.
Recomecemos, mas por um outro caminho.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

atuais objetivos padrão: contradições de uma vida "melhor"

«Acostumamo-nos a morar em apartamentos e a não ter outra vista que não a das janelas ao redor. E, porque não temos vista, rapidamente nos acostumamos a não olhar para fora. E, porque não abrimos as cortinas, rapidamente nos acostumamos a acender mais cedo a luz. E, à medida que nos acostumamos, esquecemos o sol e o ar - e esquece-se a amplidão.
Acostumamo-nos a acordar de manhã sobressaltados porque está na hora. A tomar o pequeno almoço a correr porque estamos atrasados. A comer sandes porque não dá tempo para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A deitar cedo e dormir sem ter vivido a vida.
Acostumamo-nos a ver o telejornal e a saber sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceitamos os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, não acreditamos nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceitamos ter, todos os dias, o dia-a-dia da guerra, dos números de longa duração.
Acostumamo-nos a esperar o dia inteiro e ler no telemóvel: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorados quando precisamos tanto de ser vistos.
Acostumamo-nos a pagar por tudo o que desejamos e o que necessitamos. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisamos. E a fazer fila para pagarmos. E a pagar mais do que as coisas valem. E saber que cada vez pagaremos mais. E a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
Acostumamo-nos à poluição. À sala fechada com ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios.
Acostumamo-nos a não ouvir passarinhos, a não haver galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta à mão, a não ter sequer uma planta.
Acostumamo-nos a coisas de mais, para não sofrermos. Em doses pequenas, tentando não nos apercebermos, vamos afastando uma dor daqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada, molhamos só os pés e suamos no resto do corpo, conformados. Se o trabalho está duro, consolamo-nos ao pensar no fim de semana. E, se no fim da semana não há muito para fazer, vamos dormir cedo e ficamos satisfeitos, porque, afinal, estamos sempre com o sono atrasado.
Acostumamo-nos a não ter que nos esfregar na aspereza, para preservar a pele. Acostumamo-nos a evitar feridas, derrames, ao nos esquivarmos da faca e da baioneta, para poupar o peito.
Acostumamo-nos para poupar a vida - que aos poucos se gasta, e que se gasta tanto em nos acostumarmos que se perde em si mesma!»

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

a manipulação das redes sociais

«E se não passarmos de meros peões num vasto tabuleiro onde dois jogadores disputam o poder sobre o conteúdo e o fluxo de informação que é produzido online nas redes sociais, conseguirão estes early adopters manter o mesmo entusiasmo?
Entalados entre as gigantescas capacidades de pesquisa e armazenamento do Google e Facebook, o que restará das nossas vidas que não seja monitorizável?»

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

calor húmido

As harpas pararam de tocar, os anjos silenciaram-se e os pássaros recolheram-se para os seus abrigos, protegendo os seus filhos.
É noite e chove.
Em vez do habitual calor estival que seca quase excessivamente as fontes de vida, ouve-se apenas o tilintar de pérolas oxigenadas. As luzes brilham cada vez menos dentro das casas, ansiosas por uma pausa demorada.
Este é o único estado de tempo que quero que me reflicta, pelo menos em estado de humor: quente e húmido. Não quero estar excessivamente quente, ardentemente louca; não: não quero esbracejar-me em aflição por um galho mais fresco, para, em breve, partir. Também não quero regressar à gélida frieza que provoca o desejo de hibernar, esconder, refugiar - em solidão. Ambas as situações são pretéritos que eu quero manter perfeitos, esféricos - irrevogáveis.
Quero permanecer na delicadeza da humidade, na presença do calor. E, para não me abafar, quero não me esconder. Quero alongar esta doce melancolia e, ao observar o céu lá fora, sentir o calor dos teus braços envolverem-me o tronco, do teu peito contra mim e a humidade dos teus lábios nos meus; e saber que me abrigo em ti, naquele íntimo, por decisão nossa, sabendo, ao mesmo tempo, que poderemos depois esbracejar-nos ao sabor do vento, sem pressas nem contradições, olhando para um mundo que nos é exterior de cima.
E, sobretudo, ser impossível de conjugar este tempo sem ser num presente simultaneamente simples e contínuo, porque não só se repete como é sempre sem fim previsível, sem vez alguma ser algo meramente do futuro.